1/9/2025
 Ano 28 - Nº 1.473






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TCHELLO D'BARROS




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Tchello d'Barros



A PRIMEIRA FOLHA DE OUTONO
 

No momento em que são traçadas estas linhas no fim de um verão, cai próxima do redator a primeira folha do outono, uma primeira folha de plátanos. Planou suavemente, trazida por uma brisa tépida e essa folha solitária simplesmente pousou, como quem tivesse cumprido uma missão.

Mas foi um sinal. Sinal positivo. Primeiro porque a mãe natureza nos diz mediante este gesto poético que se findaram os dias tórridos de mais um verão caliente, tropical, sensual. Se por um lado vamos deixar de ver as moçoilas desfilando nas ruas e praias em trajes mais à vontade, por outro, este singelo incidente conta que está chegando a estação mais sublime do ano: uma estação intimista, com mais poesia, e mais nostalgia.

Aquela singela folha foi guardada: mistura-se às páginas de uma edição antiga de poemas de Cruz e Souza. Ali encontram-se alguns poemas manuscritos em guardanapos, dedicados à Simone, Agatha, Rosimeri, Margareth e outras... A folha é marrom-claro, em tons de ocre e nuances de cobre. Sua forma lembra uma estrela. Já foi verde como a esperança do povo brasileiro, verde como um certo par de olhos fugazes, que guardam nas pupilas duas gotas do Atlântico. Um verde para se ver de perto, ver de novo.

Neste câmbio de temperaturas e emoções, no qual já se pode sentir as primeiras aragens, as primeiras auroras da nova estação, não é difícil lembrar de Bashô, um antigo poeta japonês, monge zen-budista que peregrinava a pé pelo velho país do sol nascente e relatava em seus poemas haicais as maravilhas da paisagem. Já naquela época ele falava da beleza da lua nas noites de outono, uma beleza misteriosa que atravessa o tempo e os lugares, que atravessa os sentimentos.

Bem, hoje as coisas mudaram um pouco. Pode-se ver na Internet filmagens on-line de nosso satélite natural, em tempo real, imagens captadas por satélites artificiais. Ainda assim nada muda a paisagem romântica e bucólica que nos envolve com uma atmosfera cálida, quando numa noite de Outono, tudo fica mais nostálgico, feérico e sublime.

Através da história, muitos poetas escreveram sobre a lua, o luar e seus efeitos no espírito dos mais românticos. É o luar outonal como fonte de inspiração, como fosse um pacto com a musa, uma ode aos céus, um ditirambo ao amor.

Mas é hora de, sob uma sonata de Bach, sob o halo lunar que se ergue acima das nuvens, despedir-se por um tempo desta folha de Outono. É hora de fechar este livro. É hora de abrir uma garrafa de vinho e, talvez, abrir também o coração...

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Tchello d'Barros dedica-se desde 1993 às linguagens de Literatura, Artes Visuais e Audiovisual. Catarinense radicado no Rio de Janeiro, atua como curador, roteirista e produtor cultural. Graduado em Comunicação Social, cursa mestrado na UFRJ. Possui 10 livros publicados e textos em uma centena de antologias e didáticos.
@tchellodbarros
RJ
 

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