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Tchello d'Barros
A PRIMEIRA FOLHA DE OUTONO
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No momento em que são traçadas estas linhas no fim de um verão, cai próxima
do redator a primeira folha do outono, uma primeira folha de plátanos. Planou
suavemente, trazida por uma brisa tépida e essa folha solitária simplesmente
pousou, como quem tivesse cumprido uma missão. Mas foi um sinal. Sinal
positivo. Primeiro porque a mãe natureza nos diz mediante este gesto poético
que se findaram os dias tórridos de mais um verão caliente, tropical,
sensual. Se por um lado vamos deixar de ver as moçoilas desfilando nas ruas e
praias em trajes mais à vontade, por outro, este singelo incidente conta que
está chegando a estação mais sublime do ano: uma estação intimista, com mais
poesia, e mais nostalgia.
Aquela singela folha foi guardada: mistura-se às
páginas de uma edição antiga de poemas de Cruz e Souza. Ali encontram-se
alguns poemas manuscritos em guardanapos, dedicados à Simone, Agatha,
Rosimeri, Margareth e outras... A folha é marrom-claro, em tons de ocre e
nuances de cobre. Sua forma lembra uma estrela. Já foi verde como a esperança
do povo brasileiro, verde como um certo par de olhos fugazes, que guardam nas
pupilas duas gotas do Atlântico. Um verde para se ver de perto, ver de novo.
Neste câmbio de temperaturas e emoções, no qual já se pode sentir as
primeiras aragens, as primeiras auroras da nova estação, não é difícil
lembrar de Bashô, um antigo poeta japonês, monge zen-budista que peregrinava
a pé pelo velho país do sol nascente e relatava em seus poemas haicais as
maravilhas da paisagem. Já naquela época ele falava da beleza da lua nas
noites de outono, uma beleza misteriosa que atravessa o tempo e os lugares,
que atravessa os sentimentos.
Bem, hoje as coisas mudaram um pouco.
Pode-se ver na Internet filmagens on-line de nosso satélite natural, em tempo
real, imagens captadas por satélites artificiais. Ainda assim nada muda a
paisagem romântica e bucólica que nos envolve com uma atmosfera cálida,
quando numa noite de Outono, tudo fica mais nostálgico, feérico e sublime.
Através da história, muitos poetas escreveram sobre a lua, o luar e seus
efeitos no espírito dos mais românticos. É o luar outonal como fonte de
inspiração, como fosse um pacto com a musa, uma ode aos céus, um ditirambo ao
amor. Mas é hora de, sob uma sonata de Bach, sob o halo lunar que se
ergue acima das nuvens, despedir-se por um tempo desta folha de Outono. É
hora de fechar este livro. É hora de abrir uma garrafa de vinho e, talvez,
abrir também o coração...
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Tchello d'Barros dedica-se desde 1993 às linguagens de Literatura, Artes
Visuais e Audiovisual. Catarinense radicado no Rio de Janeiro, atua como
curador, roteirista e produtor cultural. Graduado em Comunicação Social,
cursa mestrado na UFRJ. Possui 10 livros publicados e textos em uma
centena de antologias e didáticos. @tchellodbarros RJ
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