01/08/2025
 Ano 28 - Nº 1.469






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TCHELLO D'BARROS




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COM NEXO DESCONEXO
 

Classificar a humanidade em categorias opostas não é tarefa difícil, uma vez que as alternativas são muitas, para não dizer infinitas. É assim que nos dividimos entre ricos e pobres, belos e feios, cultos e ignaros, inteligentes e néscios, bons e maus e tantas outras polaridades que nos apontam os extremos da natureza humana. Tais contrastes podem ser observados também em diversos campos de nossa existência, desde os grandes feitos históricos até as atividades triviais do cotidiano. É sobre essas circunstâncias que talvez essa página mereça algumas linhas, afinal de contas, em nossa contemporaneidade digital, existem duas categorias por vezes contrastantes: os conectados e os não-conectados.

Quando meu avô era jovem, não havia telefone celular. Mesmo assim sei de um casal de namorados, apreciadores de poesia, que se reuniam num Café aos domingos, munidos de poemas de livros de poesia e deleitavam-se com a discussão sobre os versos dos sonetos. Em contraste, hoje conheço um casal de namoradinhos, que quando ficam, não desgrudam do aparelho celular, como se a vida on-line fosse mais interessante que o momento presente.

Quando meu pai era jovem, não havia plataformas de streaming. Mesmo assim, sei de um grupo de amigos que naquela época encontrava-se e discutia sobre teatro. Era normal alguém analisar as diferenças estilísticas ou temáticas entre peças de Brecht com as de Shakespeare. Em contraponto, atualmente temos imensas comunidades, cujos assuntos giram em torno de maratonar séries enlatadas do audiovisual vindo de países hegemônicos. Outras, preferem debater sobre a anatomia glútea das participantes de reality-shows, conteúdos absorvidos pelas telas de plasma de diversos tamanhos.

Quando eu era jovem, não havia Internet. Mesmo assim, lembro de amigos que sentiam verdadeira alegria em frequentar exposições de arte, onde se discutia gêneros e gênios da pintura. Era comum alguém observar a influência do impressionista Monet, do surrealista Dali ou do pontilhista Seurat nas gerações que os sucederam. Ao visitar alguns espaços na Web, constatam-se conversas coletivas em chats, onde o tema não ultrapassa a descrição dos efeitos do último porre ou da sensação provocada pelo uso de algumas substâncias, digamos, ilícitas.

Naturalmente que os exemplos aqui apresentados são contrastantes, são flashes das circunstâncias de cotidianos distintos onde muitos dos não-conectados de ontem, embora não tivessem as opções de hoje, discutiam temas culturais. Talvez exatamente porque não tivessem muitas opções. Em contrapartida, muitos dos conectados de hoje, ainda que tenham ferramentas tecnológicas de comunicação e lazer, perdem-se num labirinto de trivialidades, talvez exatamente por terem acesso irrestrito a tantas opções.

É claro que há que se fazer as devidas ressalvas e exceções. É importante denotar que ninguém aqui é contra nada, nem séries, nem arte gringa, nem maratonas, nem reality-shows, nem festas, nem crônicas como essa. Viva o livre arbítrio! Nunca será demais dizer que a pluralidade de opções da vida contemporânea é mais do que bem-vinda, mas que não se perca o bom gosto. E é um imenso e transformador privilégio poder estar conectado. Mais significativo ainda é estar conectado às pessoas, em conexão real com a vida.

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Tchello d'Barros dedica-se desde 1993 às linguagens de Literatura, Artes Visuais e Audiovisual. Catarinense radicado no Rio de Janeiro, atua como curador, roteirista e produtor cultural. Graduado em Comunicação Social, cursa mestrado na UFRJ. Possui 10 livros publicados e textos em uma centena de antologias e didáticos.
@tchellodbarros
RJ
 

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