16/06/2025
 CooJornal nº 367






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TCHELLO D'BARROS




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Tchello d'Barros



ÊXODO CULTURAL
 

Prólogo 1: Encontrei na rua conhecido e competente artista visual da região, que não sem certa revolta, avisa que está indo embora para o eixo Rio-Sampa, buscando mais espaço para sua produção, buscando mais reconhecimento e aceitação para sua obra. Isso tudo depois do mesmo, para sobreviver, ter feito logotipos de propaganda, painéis para políticos e até desenhos para estamparias.

Prólogo 2: Conheço o caso de um ator, que vai embora em busca de melhores oportunidades, porque na região não dá mais pra viver de teatro. Ou melhor, não dá nem para sobreviver. Reclama que o povo só vai ao teatro assistir às peças com elenco famoso, e as peças locais, geralmente com muita pesquisa e ensaio, não recebem prestígio por parte da comunidade regional. Hoje, para pagar as contas, ele apresenta esquetes sobre saúde e higiene para trabalhadores nas empresas, faz animações como palhaço e performer em festas noturnas.

Prólogo 3: Há também o caso daquela poeta, que comemora feliz por ter conseguido um emprego, exercendo um trabalho burocrático, que prescinde de habilidades de comunicação escrita. Ela acrescenta que infelizmente não haverá tempo para continuar escrevendo literatura, pois terá que, além de trabalhar, voltar a estudar para subir na carreira e melhorar de vida.

Naturalmente que esta lista poderia estender-se muito mais, incluindo-se aí talvez o exemplo de alguém que lê estas linhas, que em algum momento da vida teve de optar entre uma atividade lúdica e artística para dedicar-se ao estudo e trabalho, necessidades absolutas do sistema capitalista e da sociedade consumista em que vivemos. Nada contra trabalhar honestamente, com dignidade, conforto e qualidade de vida.

O que se quer contrastar aqui são nossas escalas de valores contra as prioridades que se estabelecem em função de nossas necessidades socioeconômicas, em detrimento daquilo que poderíamos chamar de realização pessoal. Aqueles de alma mais resiliente quanto à sua vocação artística não desistem, mas eventualmente acabam migrando, num tipo de êxodo cultural. Para outros, trata-se de um abandono temporário ou mesmo definitivo de uma vocação, de um talento, de um dom. Este êxodo não quer dizer apenas que as pessoas vão embora de um lugar, em busca de outras oportunidades, mas vão embora de si mesmas, abandonam sua própria arte. Uma fuga da modalidade à qual gostariam de estar dedicando-se, exercendo a expressão artística, os talentos latentes. A pessoa aparta-se de um fazer criativo, pelo qual pode-se não apenas criar emoções estéticas, mas até mesmo questionar, denunciar e revolucionar, para mencionar o caso de artistas mais engajados.

De quem é a culpa? Uns dirão do governo, outros acusarão o capitalismo, e há quem prefira alfinetar a burguesia alienada. Mas prefiro pensar que é minha mesmo, como cidadão, cada vez que deixo de prestigiar uma exposição de arte, de ler os autores da região ou de assistir uma peça de teatro.

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Tchello d'Barros dedica-se desde 1993 às linguagens de Literatura, Artes Visuais e Audiovisual. Catarinense radicado no Rio de Janeiro, atua como curador, roteirista e produtor cultural. Graduado em Comunicação Social, cursa mestrado na UFRJ. Possui 10 livros publicados e textos em uma centena de antologias e didáticos.
@tchellodbarros
RJ
 

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