01/07/2026
Ano 29 - Nº 1.513

 

Arquivo
Pedro Franco











Novidades - telinhas e telonas


E velho - estou na lista-, custa a aprender como usar determinada ferramenta. E para dominar, ou pensar que dominou um método, custa tempo, erros, acertos e depois de muito erro-acerto fico pensando que estou com um novo auxílio e dou logo exemplo. E.mail. E como a inovação foi porreta! Como me comuniquei por email, fiz amizades, as refiz e de repente, não mais que de repente, ouço. Você me mandou por e.mail? E vem gargalhada, e depois ouço você: ainda usa email? Uso e gosto. Compadre, mas ninguém usa mais e.mail, o whats é muito melhor. É whats e mais algo. Está bem, não vou mais chamar de whatschato. Continuo julgando os e.mails excelentes. De que adianta você julgar, se ninguém mais usa, ou poucos usam, os saudosistas feito você. Areje-se, acompanhe a modernidade. Respondo que a modernidade muda muito e velhos, entendo de velhos, pois tenho 91 anos, ficam perdidos. Escrevem e.mails, que não serão lidos e o ensimesmamento aumenta. Vai à TV. É há algo de bom nas telonas, mas minha vida não pode ser só telonas; preciso de amizades, papos, jogar conversa fora etc. E por que não faz isto? A maioria dos da minha idade já se foram, ou dão capim a bicicleta, ou me acham um velho chato, que nunca fui a termas. Já ouvi isto de camarada que abandonou a família, ou foi a família que o abandonou, sei lá. Nos antigamentes na minha família e em outras havia uma tia solteirona que ajudava os velhos da família, ainda que fosse meio surda e a outra era ranheta. Que tal fazer novas amizades no prédio? Novas amizades como são difíceis. E julgo dos que querem logo saber dos meus contracheques. Um perigo. Tem cuidadores, ou cuidadoras? Cuidadoras. Outro perigo, se não souber ser o timoneiro. Só que velho perdeu o jeito de comandar o barco, rodas idem. E um defeito, a mudança de assunto e de forma intempestiva. Falei em leme e me veio a mente a barca Rio-Paquetá e como meu pai era amigo do Mestre, eu segurava o leme e me sentia dirigindo a velha Quinta, que se arrastava Rio Paquetá. E a barca tinha chatos. Os do baralho, o das damas, xadrez, a turma da anedota, a turma do falar mal, a do futebol e como se namorava nas barcas, ainda que poucos dessem casamentos. Viram, comecei um assunto, pulei a outro e os meus dezessete leitores, homenagem ao Agamenon de O Globo. E no O Globo estava almoçando com os repórteres mais novos. Passa um, a figura, que todo mundo malha. Ele fazia o bonequinho de O Globo, figura que existe até hoje. E percebi que o do bonequinho, incrivelmente, me lembro do nome, mas vou ficar na moita. E a moçada da mesa, todos trabalhando no O Globo, de bicão fila almoço só eu. E a moçada cai de pau no dito cujo do bonequinho. E fora no dia anterior ver filme, segundo a opinião do bonequinho, ótimo. E eu não gostara e soltei: julgo que ele dormiu no filme e depois o comentou. E foi gargalhada geral dos cerca de doze jornalistas que representavam o grupo mais jovem da redação. E malharam o autor do bonequinho. E dando uma de esperto e querendo me enturmar, comentei a crônica cinematográfica de dia anterior, dizendo que o filme comentado provavelmente pela crônica publicada, não foi visto. Gargalhada Geral. Quem estava do meu lado e se mostrava gentil com o único convidado naquele almoço, disse-me: Pedro, muito obrigado. A tal figura que vendeu o bonequinho ao O Globo e que assinou a crítica que você humilhou, não foi quem passou, fui eu. E a batata com molho, que tentava pegar no meu prato, de vergonha pulou na mesa. E em meio à zoação dos colegas. Quem ficou com cara de bobo fui eu próprio FF, que fora gozado por companheiros de jornal, poderia ir agora a forra. Começa em assunto, pula-pula e vem gozar que se inicia na crítica cinematográfica.

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Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Emérito UNIRIO.
634 prêmios literários, sendo 25 fora do Brasil; 28 livros publicados/ Em Medicina, 105 publicações. E bisavô.
contista, cronista, autor teatral.

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