16/02/2026
Ano 29 - Nº 1.495

 

Arquivo
Pedro Franco











MEDICINA E APRENDIZES DE SERRA-OSSOS

Mestre Charles Dickens assim designava os médicos. Pode? Gênios podem tudo. E hoje no O Globo douto colega afirma que o aluno de Medicina tem uma visão humanista muito maior. Concorda? Discorda? Não lido hoje com alunos, logo não sei. Lidei por 40 anos no HUGG, onde entrei no Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, lá vivi aluno, depois professor, diretor do Hospital, aposentado por tempo de serviço e com título de Professor Emérito da UNI-RIO, ficando no Gaffrée por mais 10 anos, depois de aposentado, ministrando os cursos de Eletrocardiografia semestrais, que, se não mantivesse este curso, os alunos se formariam, sem saber Eletrocardiografia. Quanto recebia em cruzeiros? Nada, só que continuava sendo professor. Então concorda com o colega, que aparece no O Globo (28/01/2026)? Para discordar, ou concordar, teria que conviver com os alunos de hoje. E com 90 anos de há muito abandonei o magistério. Com os do meu tempo... e vou à afirmação perigosa. Fui dos professores que mais conviveu com alunos. Será? Dois exemplos. Por volta de 2015, sou ruim de datas, parte da família passava o 31/12 na Pousada Altenhaus – Itaipava. Na mesa, Maria Helena, eu, filho e nora rompíamos lá o fim de ano. Perto da meia-noite senhora com filha levanta-se, vem em minha direção e diz, já emocionada. "Em 1978 foi meu professor e nunca o esqueci". Choradeira geral e até de mesas próximas. De outra feita entreva na sala de cirurgia, para fazer artroscopia do joelho. E o segundo cirurgião, já com cabelos mais brancos que eu, vem em minha direção e diz. "Conheci minha esposa em sua casa e ela sempre gostou muito do Senhor". Diga-se que às sextas-feiras um grupo de alunos ia ao Grajaú a noite e ocorria sessão musical. Alguns tocavam, outros cantavam, inclusive eu. Maria Helena cuidara dos petiscos, havia cerveja e refrigerantes e nunca ocorreu algo desagradável. Começava a cantoria às vinte e uma horas e entrávamos pelo sábado a dentro. Não incomodávamos alguém, que morávamos em casa no Grajaú. Houve época que aluguei campo de vôlei à noite, e alunos, alunas e eu íamos ao voleibol. Houve época que eu e Maria Helena íamos ao Tijuca Tênis clube para dançar e levávamos casal de alunos, quase sempre noivos. Avisava ao outro cavalheiro. Você dança com sua noiva e eu com Maria Helena. Somos casal antigo e careta. Certa feita, Helen de Lima cantava no Tijuca, pedia coro e cantava “Sonho meu”. Manda todos pararem de cantar, exceto eu. Eu cantava e ela fazia o estribilho. Era sábado e na segunda-feira seguinte, ao entrar na Enfermaria, os alunos cantaram “Sonho meu, sonho meu, vai chamar quem mora longe, sonho meu”. Segundo meu filho, que foi meu aluno de Medicina, bem como a neta, (agora pediatra de enorme clínica e que me deu a alegria de dois bisnetos), volto ao filho, que além de cardiologista reconhecido, é músico e toca na Trupe Limousine há mais de trinta anos. Há CD comprobatório. Volto ao filho colega de clientela afetiva e numerosa, que dizia que minha voz não era ruim, até passável, só que não sabia entrar nas músicas. Então fica provado, que convivia com alunos e poderia contar que até fomos convidados, (MH e eu) para ser padrinho de casamento de alunos. Encontrei-os vida a fora e posso afirmar e sem dúvidas, que em média estavam preparados técnica e emocionalmente para serem médicos e respeitando o Juramento de Hipócrates. Comparar com os alunos de hoje, não posso, mas se fosse arriscar, diria que emocional, técnica e humanisticamente no meu tempo (que termo mofado!) eram futuros médicos preparados para exercer a Medicina com boa técnica, amor ao próximo e respeitando o Juramento já citado. Poria a mão no fogo por 97 % deles. Em que se baseia para dar número? No chutòmetro. Tenho dito.


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Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Emérito UNIRIO.
634 prêmios literários, sendo 25 fora do Brasil; 28 livros publicados/ Em Medicina, 105 publicações. E bisavô.
contista, cronista, autor teatral

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Irene Serra