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MEDICINA E APRENDIZES DE SERRA-OSSOS
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Mestre Charles Dickens assim designava os médicos.
Pode? Gênios podem tudo. E hoje no O Globo douto colega afirma que o aluno de
Medicina tem uma visão humanista muito maior. Concorda? Discorda? Não lido
hoje com alunos, logo não sei. Lidei por 40 anos no HUGG, onde entrei no
Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, lá vivi aluno, depois professor,
diretor do Hospital, aposentado por tempo de serviço e com título de Professor
Emérito da UNI-RIO, ficando no Gaffrée por mais 10 anos, depois de aposentado,
ministrando os cursos de Eletrocardiografia semestrais, que, se não mantivesse
este curso, os alunos se formariam, sem saber Eletrocardiografia. Quanto
recebia em cruzeiros? Nada, só que continuava sendo professor. Então concorda
com o colega, que aparece no O Globo (28/01/2026)? Para discordar, ou
concordar, teria que conviver com os alunos de hoje. E com 90 anos de há muito
abandonei o magistério. Com os do meu tempo... e vou à afirmação perigosa. Fui
dos professores que mais conviveu com alunos. Será? Dois exemplos. Por volta
de 2015, sou ruim de datas, parte da família passava o 31/12 na Pousada
Altenhaus – Itaipava. Na mesa, Maria Helena, eu, filho e nora rompíamos lá o
fim de ano. Perto da meia-noite senhora com filha levanta-se, vem em minha
direção e diz, já emocionada. "Em 1978 foi meu professor e nunca o esqueci".
Choradeira geral e até de mesas próximas. De outra feita entreva na sala de
cirurgia, para fazer artroscopia do joelho. E o segundo cirurgião, já com
cabelos mais brancos que eu, vem em minha direção e diz. "Conheci minha esposa
em sua casa e ela sempre gostou muito do Senhor". Diga-se que às sextas-feiras
um grupo de alunos ia ao Grajaú a noite e ocorria sessão musical. Alguns
tocavam, outros cantavam, inclusive eu. Maria Helena cuidara dos petiscos,
havia cerveja e refrigerantes e nunca ocorreu algo desagradável. Começava a
cantoria às vinte e uma horas e entrávamos pelo sábado a dentro. Não
incomodávamos alguém, que morávamos em casa no Grajaú. Houve época que aluguei
campo de vôlei à noite, e alunos, alunas e eu íamos ao voleibol. Houve época
que eu e Maria Helena íamos ao Tijuca Tênis clube para dançar e levávamos
casal de alunos, quase sempre noivos. Avisava ao outro cavalheiro. Você dança
com sua noiva e eu com Maria Helena. Somos casal antigo e careta. Certa feita,
Helen de Lima cantava no Tijuca, pedia coro e cantava “Sonho meu”. Manda todos
pararem de cantar, exceto eu. Eu cantava e ela fazia o estribilho. Era sábado
e na segunda-feira seguinte, ao entrar na Enfermaria, os alunos cantaram
“Sonho meu, sonho meu, vai chamar quem mora longe, sonho meu”. Segundo meu
filho, que foi meu aluno de Medicina, bem como a neta, (agora pediatra de
enorme clínica e que me deu a alegria de dois bisnetos), volto ao filho, que
além de cardiologista reconhecido, é músico e toca na Trupe Limousine há mais
de trinta anos. Há CD comprobatório. Volto ao filho colega de clientela
afetiva e numerosa, que dizia que minha voz não era ruim, até passável, só que
não sabia entrar nas músicas. Então fica provado, que convivia com alunos e
poderia contar que até fomos convidados, (MH e eu) para ser padrinho de
casamento de alunos. Encontrei-os vida a fora e posso afirmar e sem dúvidas,
que em média estavam preparados técnica e emocionalmente para serem médicos e
respeitando o Juramento de Hipócrates. Comparar com os alunos de hoje, não
posso, mas se fosse arriscar, diria que emocional, técnica e humanisticamente
no meu tempo (que termo mofado!) eram futuros médicos preparados para exercer
a Medicina com boa técnica, amor ao próximo e respeitando o Juramento já
citado. Poria a mão no fogo por 97 % deles. Em que se baseia para dar número?
No chutòmetro. Tenho dito.
- Comentários sobre os textos podem ser enviados ao autor, no email
pdaf35@gmail.com
Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Emérito UNIRIO. 634
prêmios literários, sendo 25 fora do Brasil; 28 livros publicados/ Em Medicina,
105 publicações. E bisavô. contista, cronista, autor teatral
Conheça um pouco mais de Pedro Franco
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Direção e editoria Irene
Serra

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