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Se entendo de velhice? Que tal avisar que tenho
noventa anos e ainda não dou capim à bicicleta. Creio que já é afirmação de
respeito. Em primeiro lugar tenha ajudado a criar uma família. E com denodo.
Criou, parabéns, mas não faça cobranças e agradeça atenções. Você tem mais
obrigações com ela, do que ela com você. É básico este conceito. Quando
ganhava o pão nosso do seu dia, pensava em preparar-se monetariamente no
futuro. Só que o futuro dos dinheiros são incertos, tanto quanto os planos de
saúde e há que tê-los. Sempre se lembre que vive no Brasil e esta lembrança
merece exemplo. Os deputados quiseram criar uma Pec da Blindagem. Tradução.
Faço o que quero e nem a Justiça pode se meter ou julgar. Não fosse o Senado,
passaria. Você, queira ou não, dará trabalho à Família. Aceite e agradeça.
Prenda-se a uma religião. Não permita que dúvidas matem sua religiosidade.
Goste de você, pelo que faz e fez. Mas não precisa tonitruar aos ventos o que
fez. Espere que família e amigos julguem. Amigos são ótimos, familiares
amorosos são essenciais. Se cronicando estou sendo doutrinário, não seja,
nunca o Dr. Sabe tudo e, após catástrofe, não venha com o eu não avisei. Ande
se puder e se a Medicina aconselhar, seja um velho, ou velha, limpo. Vista-se
de acordo com sua idade, respeite-se e cuidado com conquistas, vale para os
dois gêneros. Procure se lembrar de datas, escreva-as e cumprimente por
natalícios, exceto se a amiga teme a própria idade. Tem esquecimentos? Com 90
anos quem não os tem. Seja arrumado (não sou), e não perca as anotações.
Junte-as todas em caderno e olhe o caderno. Nada de papeluchos esparsos.
Procure aprender a mexer em engenhocas. Vide celulares (como há macetes!)
Evite o 'no meu tempo'! Os carnavais são outros, como são outras festas e até
conceitos. Não gosta da educação, que vê e nos envolta? Vire o rosto. A vida
está cara? Caríssima. Quem não sabe. Evite só falar em suas mazelas. Meus
familiares dirão, se escreveu, porque não segue este conselho? E não caia na
baboseira da melhor idade. Era bom ter dezoito anos e não ter perdido Maria
Helena. Familiares já me recomendaram não falar tanto nela, só não me
aconselharam a esquecê-la, posto que não a esquecem. Então entende de velhice.
Não, visto que alguns destes ditames não consigo seguir, ainda que tente. Será
que ajudei alguém velho, ou velha. Não acredito. Cada uma faz sua própria
velhice e prazo aos céus que tenha porfiado por Família. Quem a tiver, viveu
algo e não se canse de dizer. Muito obrigado. A obrigação foi sua para os mais
novos. Nem sempre os mais novos podem retribuir, mesmo que queiram, que a vida
é outra. Então se agarre à religiosidade, ainda que Françoise Sagan afirmasse
que é melhor chorar em Cadilac que em ônibus. Se o motivo for o mesmo,
concorde. E procure por fim não discordar muito.
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pdaf35@gmail.com
Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Emérito UNIRIO. 634
prêmios literários, sendo 25 fora do Brasil; 28 livros publicados/ Em Medicina,
105 publicações. E bisavô. contista, cronista, autor teatral
Conheça um pouco mais de Pedro Franco
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Direção e editoria Irene
Serra

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