16/01/2026
Ano 29 - Nº 1.491

 

Arquivo
Pedro Franco











VELHICE E ATRIBULAÇÕES

 


Se entendo de velhice? Que tal avisar que tenho noventa anos e ainda não dou capim à bicicleta. Creio que já é afirmação de respeito. Em primeiro lugar tenha ajudado a criar uma família. E com denodo. Criou, parabéns, mas não faça cobranças e agradeça atenções. Você tem mais obrigações com ela, do que ela com você. É básico este conceito. Quando ganhava o pão nosso do seu dia, pensava em preparar-se monetariamente no futuro. Só que o futuro dos dinheiros são incertos, tanto quanto os planos de saúde e há que tê-los. Sempre se lembre que vive no Brasil e esta lembrança merece exemplo. Os deputados quiseram criar uma Pec da Blindagem. Tradução. Faço o que quero e nem a Justiça pode se meter ou julgar. Não fosse o Senado, passaria. Você, queira ou não, dará trabalho à Família. Aceite e agradeça. Prenda-se a uma religião. Não permita que dúvidas matem sua religiosidade. Goste de você, pelo que faz e fez. Mas não precisa tonitruar aos ventos o que fez. Espere que família e amigos julguem. Amigos são ótimos, familiares amorosos são essenciais. Se cronicando estou sendo doutrinário, não seja, nunca o Dr. Sabe tudo e, após catástrofe, não venha com o eu não avisei. Ande se puder e se a Medicina aconselhar, seja um velho, ou velha, limpo. Vista-se de acordo com sua idade, respeite-se e cuidado com conquistas, vale para os dois gêneros. Procure se lembrar de datas, escreva-as e cumprimente por natalícios, exceto se a amiga teme a própria idade. Tem esquecimentos? Com 90 anos quem não os tem. Seja arrumado (não sou), e não perca as anotações. Junte-as todas em caderno e olhe o caderno. Nada de papeluchos esparsos. Procure aprender a mexer em engenhocas. Vide celulares (como há macetes!) Evite o 'no meu tempo'! Os carnavais são outros, como são outras festas e até conceitos. Não gosta da educação, que vê e nos envolta? Vire o rosto. A vida está cara? Caríssima. Quem não sabe. Evite só falar em suas mazelas. Meus familiares dirão, se escreveu, porque não segue este conselho? E não caia na baboseira da melhor idade. Era bom ter dezoito anos e não ter perdido Maria Helena. Familiares já me recomendaram não falar tanto nela, só não me aconselharam a esquecê-la, posto que não a esquecem. Então entende de velhice. Não, visto que alguns destes ditames não consigo seguir, ainda que tente. Será que ajudei alguém velho, ou velha. Não acredito. Cada uma faz sua própria velhice e prazo aos céus que tenha porfiado por Família. Quem a tiver, viveu algo e não se canse de dizer. Muito obrigado. A obrigação foi sua para os mais novos. Nem sempre os mais novos podem retribuir, mesmo que queiram, que a vida é outra. Então se agarre à religiosidade, ainda que Françoise Sagan afirmasse que é melhor chorar em Cadilac que em ônibus. Se o motivo for o mesmo, concorde. E procure por fim não discordar muito.


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Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Emérito UNIRIO.
634 prêmios literários, sendo 25 fora do Brasil; 28 livros publicados/ Em Medicina, 105 publicações. E bisavô.
contista, cronista, autor teatral

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