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Cronistas e contistas |
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Os primeiros estão em alta e os há em número e
qualidade, já os contistas... Pode parecer que quem escreve crônicas está apto
a escrever contos. Apto está, só que chegar a bom nível literário, pode ficar
longe. Nem sempre um ótimo cronista vira bom contista. São caminhos literários
diferentes e, veja e com elogios, como existem bons cronistas nos jornais e
revistas, que são até esperados. Como eram esperados os moradores de Itaparica
na pena de João Ubaldo de Oliveira aos domingos. Cito também os ótimos
Joaquim, Cora, Aversa, Asturo e ficaria citando nomes e nomes de cronistas,
que encantaram, encantam, páginas de jornais e revistas. Vide colegas desta
nossa Revista Rio Total! Contam que há bons cronistas, só que de asas curtas
em produção e por não aceitarem escrever qualquer coisa, para preencher
páginas e cumprir obrigação semanal, deixam os gramados das crônicas.
Escrevia, rasgava, digitava, apagava e nada de vir a ideia palatável e de
acordo com o nome aplaudido, que já conseguira. A tal pedra no caminho de
Drummond de Andrade. Era um perrengue escrever a crônica da semana para
alguns. E saiu de campo e da angústia, por não mais aceitar o encargo de
crônica palatável semanal. Pena, porque levava jeito. E os contistas têm
acolhidas nos jornais e revistas? Raramente, muito raramente. Vou a exemplo de
viver de contos no passado e me parece que o melhor na ventura foi mestre
contista Scott Fitzgerald. Pera aí, o americano escreveu pelo menos quatro
romances espetaculares e eternos. Isto não se discute, e o “O Grande Gatsby”
está aí e até muitos outros romances de valor saíram de sua pena ("Suave é a
noite", "Belos e malditos" etc). Saíram de sua pena é coisa antiga, ainda que
a história de Scott seja antiga e, voltando ao tema valor financeiro dos
contos, Scott e Zelda em Paris eram onerosos, gastadores mesmo e os francos
não vinham de seus excelentes romances e sim os dólares dos contos, que
escreviam em Paris e eram comprados a peso de dólares por publicações em
revistas USA. Gastar com Zelda em Paris e viver à tripa forra e receber por
escrever contos? E os excelentes romances ficavam em gavetas e poucos dólares
conseguiam. Por falar em Scott, como o cinema pegou o conto “O estranho caso
de Benjamin Button” e fez filme, onde os efeitos especiais foram usados,
talvez defeitos especiais, só que o enredo cinematográfico deturpa a estrutura
do conto. Uma pena! Muitas vezes o cinema derruba um ótimo enredo e nem se
percebe. Por quê? Cegueira literária, quem sabe? Talvez a indústria de filmes
pense demais em lucro e esquece a arte. Ou pensam que arte é para museus?
Então chegamos ao hoje, digamos 2025, e vemos jornais e revistas com ótimas
crônicas. E os contos, apenas em livros. Será que estes livros vendem bem? E
já tivemos contistas melhores. Só que esta pode ser uma pergunta com
constatação pessoal e até porque contistas publicam pouco e talvez vendam
menos livros ainda. Que crônica não é uma constatação pessoal, de quem digita?
Vale procurar e ler “Contos na Era do Jazz” – Scott Fitzgerald. Há tradução
para lusófonos e lá encontramos o conto “O estranho caso de Benjamin Button” e
o leitor vai constatar porque reclamei de Hollywood. Pode ser que reclame do
cronista e até para isto se escrevem crônicas. Para fecho conto que meu amigo
Artur da Távola e coloquei esta sua ideia em livro de minha lavra, “Meu amigo
Artur da Távola”, edição em sua homenagem e dos melhores cronistas brasilis,
que dizia que crônicas eram difíceis de escrever e fáceis de ler. Amigo,
confesso, não estou indo a valor literário de minhas crônicas (continuo no
elogio em boca própria é vitupério), só que discordando do amigo Távola, não
julgo difícil escrever crônica, já como se queima neurônios buscando o enredo
para um bom conto. O que é um bom conto? O leitor tem sempre a última palavra,
até se não aguentou ir ao fim do conto.
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pdaf35@gmail.com
Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Emérito UNIRIO. 634
prêmios literários, sendo 25 fora do Brasil; 28 livros publicados/ Em Medicina,
105 publicações. E bisavô. contista, cronista, autor teatral
Conheça um pouco mais de Pedro Franco
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Direção e editoria Irene
Serra

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