|
"BANDEIDE" NO CALCANHAR |
 |
E Elis Regina no
rádio da vizinha cantava ”Dois pra ca, dois para lá” de Aldir Blanc e João
Bosco. E na música havia um torturante “bandeide’ no calcanhar. E naquela manhã
de abril de 2025, vieram antigas lembranças e põe antigo no que se conta. Ainda
que não seja termo na moda e os há, vieram reminiscências de 63 anos atrás.
Tinha pois 17 anos e quem viria ser minha vida, estava com a avó em Portugal. Se
ela estava com a avô em Vila Verde, perto de Braga, eu não ficaria chuchando os
dedos. E sábado fui à festa no Clube Naval e lá uma lourinha, depois soube que
se chamava Cibele, pareceu-me interessante e a tirei para dançar. Se julgarem
algo fora de moda, vale avisar que estávamos em 1952. Nos primeiros passos, como
era praxe, perguntei-lhe o nome. Dançava bem. Cibele. Era hora dela perguntar
qual o meu nome? Nada de perguntar. Não quer saber meu nome, perguntei já meio
ofendido. Deu-me nome inteiro, endereço, até o número da camisa do Grajaú Tênis
Clube, onde jogava basquete e terminou com um sou sua fã. E entra o torturante
“bandeide” no calcanhar. Percebo que Cibele começa a lacrimejar. Que foi? O
“bandeide” no calcanhar entra em cena. Vamos parar de dançar então. Não vamos
parar, pois Cecília, que já dançou com você nas domingueiras no Grajaú Tênis,
contou que você gosta muito de dançar e não perde música. Fiz questão de parar,
prometendo que, após ela e o “bandeide” se acertarem, continuaríamos a dançar. E
assim foi e até a orquestra dar o proverbial intervalo. E aí ela entornou o
caldo. Quero apresentá-lo a mamãe. Ser apresentado à mãe estava fora dos meus
planos. Ainda que saísse, me divertisse, namorada firme tinha e não estava ali
para enganar alguém. Além de tudo Cibele parecia boa moça e pior, estava
encantada com sua pretensa conquista. Muito prazer, minha Senhora etc e tal.
Morávamos no mesmo bairro e na próxima dança Cibele pergunta, se poderiam, ela e
mãe, voltar ao Grajaú comigo. Ela sabia que eu tinha um Ford inglês e até placa.
Pedi desculpas e avisei que estava já com o carro lotado por amigos, que tinham
vindo comigo. Patranha, só tinha trazido um colega. E de automóvel ao fim da
última dança, nos despedimos e de propósito fui rápido no até mais ver. Ela
morava com a mãe no Grajaú e há pouco tempo. Era praxe de madrugada ficarmos em
esquina e éramos uns oito rapazes, que contavam suas aventuras naquela noite.
Passam por nós Cibele e mãe. Cumprimentam. Passadas, foram assunto de perguntas
e com elogios. De fato não era de se jogar fora, só que eu não estava a fim de
namoros. Era aparentemente nova no bairro e foi elogiada. E tinha minha ficha
toda. 'Tou fora. Nada de namoros, que já tenho namorada e firme, como se dizia a
época.' E de fato fomos casados durante 66 anos, até que aconteceu o pior da
vida. Voltemos à Cibele. Telefone na segunda-feira. Meu nome e vou botar nossa
música para tocar. Tínhamos música e não sabia. Colocou música. Qual? De fato
não me lembro. Tinha simpatizado com a moça e nada a ver com o bloco Simpatia é
quase amor. Amor não tinha para lhe dar e queria sair sem magoar. Que maldade,
apesar de não ser esta a intensão! Desliguei o telefone. Novo telefonema. Você é
um grosso. Nunca mais ligo para você. E nunca mais me ligou e me parece que
mudou de bairro, pois nunca mais ouvi falar dela, ainda que tenha ficado a
história do “bandeide” no calcanhar. Então você foi o terror das meninas do
bairro? Não. A história do “bandeide” é caso raro, pois comecei a namorar Maria
Helena aos dezesseis anos. E estivemos casados por 66 anos e com 72 de
conhecimento. E então...
- Comentários sobre os textos podem ser enviados ao autor, no email
pdaf35@gmail.com
Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Emérito UNIRIO. 634
prêmios literários, sendo 25 fora do Brasil. 28 livros publicados/ Em Medicina,
105 publicações. E bisavô. contista, cronista, autor teatral
Conheça um pouco mais de Pedro Franco
Direitos reservados. É proibida a reprodução deste artigo sem autorização do autor.

|