16/05/2025
Ano 28 - Nº 1.417

 

Arquivo
Pedro Franco






 

Venha nos acompanhar no Facebbok




"BANDEIDE" NO CALCANHAR

E Elis Regina no rádio da vizinha cantava ”Dois pra ca, dois para lá” de Aldir Blanc e João Bosco. E na música havia um torturante “bandeide’ no calcanhar. E naquela manhã de abril de 2025, vieram antigas lembranças e põe antigo no que se conta. Ainda que não seja termo na moda e os há, vieram reminiscências de 63 anos atrás. Tinha pois 17 anos e quem viria ser minha vida, estava com a avó em Portugal. Se ela estava com a avô em Vila Verde, perto de Braga, eu não ficaria chuchando os dedos. E sábado fui à festa no Clube Naval e lá uma lourinha, depois soube que se chamava Cibele, pareceu-me interessante e a tirei para dançar. Se julgarem algo fora de moda, vale avisar que estávamos em 1952. Nos primeiros passos, como era praxe, perguntei-lhe o nome. Dançava bem. Cibele. Era hora dela perguntar qual o meu nome? Nada de perguntar. Não quer saber meu nome, perguntei já meio ofendido. Deu-me nome inteiro, endereço, até o número da camisa do Grajaú Tênis Clube, onde jogava basquete e terminou com um sou sua fã. E entra o torturante “bandeide” no calcanhar. Percebo que Cibele começa a lacrimejar. Que foi? O “bandeide” no calcanhar entra em cena. Vamos parar de dançar então. Não vamos parar, pois Cecília, que já dançou com você nas domingueiras no Grajaú Tênis, contou que você gosta muito de dançar e não perde música. Fiz questão de parar, prometendo que, após ela e o “bandeide” se acertarem, continuaríamos a dançar. E assim foi e até a orquestra dar o proverbial intervalo. E aí ela entornou o caldo. Quero apresentá-lo a mamãe. Ser apresentado à mãe estava fora dos meus planos. Ainda que saísse, me divertisse, namorada firme tinha e não estava ali para enganar alguém. Além de tudo Cibele parecia boa moça e pior, estava encantada com sua pretensa conquista. Muito prazer, minha Senhora etc e tal. Morávamos no mesmo bairro e na próxima dança Cibele pergunta, se poderiam, ela e mãe, voltar ao Grajaú comigo. Ela sabia que eu tinha um Ford inglês e até placa. Pedi desculpas e avisei que estava já com o carro lotado por amigos, que tinham vindo comigo. Patranha, só tinha trazido um colega. E de automóvel ao fim da última dança, nos despedimos e de propósito fui rápido no até mais ver. Ela morava com a mãe no Grajaú e há pouco tempo. Era praxe de madrugada ficarmos em esquina e éramos uns oito rapazes, que contavam suas aventuras naquela noite. Passam por nós Cibele e mãe. Cumprimentam. Passadas, foram assunto de perguntas e com elogios. De fato não era de se jogar fora, só que eu não estava a fim de namoros. Era aparentemente nova no bairro e foi elogiada. E tinha minha ficha toda. 'Tou fora. Nada de namoros, que já tenho namorada e firme, como se dizia a época.' E de fato fomos casados durante 66 anos, até que aconteceu o pior da vida. Voltemos à Cibele. Telefone na segunda-feira. Meu nome e vou botar nossa música para tocar. Tínhamos música e não sabia. Colocou música. Qual? De fato não me lembro. Tinha simpatizado com a moça e nada a ver com o bloco Simpatia é quase amor. Amor não tinha para lhe dar e queria sair sem magoar. Que maldade, apesar de não ser esta a intensão! Desliguei o telefone. Novo telefonema. Você é um grosso. Nunca mais ligo para você. E nunca mais me ligou e me parece que mudou de bairro, pois nunca mais ouvi falar dela, ainda que tenha ficado a história do “bandeide” no calcanhar. Então você foi o terror das meninas do bairro? Não. A história do “bandeide” é caso raro, pois comecei a namorar Maria Helena aos dezesseis anos. E estivemos casados por 66 anos e com 72 de conhecimento. E então...
 
 
- Comentários sobre os textos podem ser enviados ao autor, no email pdaf35@gmail.com 



Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Emérito UNIRIO.
634 prêmios literários, sendo 25 fora do Brasil. 28 livros publicados/ Em Medicina, 105 publicações. E bisavô.
contista, cronista, autor teatral

Conheça um pouco mais de Pedro Franco

Direitos reservados. É proibida a reprodução deste artigo sem autorização do autor.