01/05/2025
Ano 28 - Nº 1.415

 

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Pedro Franco





 

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CORRUPÇÃO

E ainda que o tema seja supimpa, caminhar nele é procurar não pesar, pois se anda em gelo fino, isto é, o tema abordado. Gelo finíssimo e com muitos olhares atentos. E o tema tem autor de peso e que foi intimorato pelos passos no tal gelado. Padre Antônio Vieira proferiu em 1665 o “Sermão do bom ladrão”. E o completou com o Sermão da Sexagésima e vide que esse foi pregado na Capela Real e como o anterior, em 1655. Se o primeiro foi ao culto na Capela da Misericórdia em Lisboa, a Sexagésima ocorreu no mesmo ano. Desta escolho: “Semen est verbum Dei” Não seja mais assim por amor de Deus, e de nós. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o Céu, que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus; saiba a mesma terra, que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum.”

Fiquemos ainda em tesouros vindos do ”Jardim da Europa a beira mar plantado” (poeta Tomas Ribeiro). E muitos anos depois e o transcrito vem das “Farpas”, 1871, quando Eça de Queiroz e Ramalho publicavam o referido suplemento literário, sendo de Eça, o que é transcrito, e refazia os ditos de Vieira. Continuavam os dois expoentes lusófonos, caminhando no tal gelo, valendo apregoar que o de Queiroz já romanceara e com soberba arte sobre os meandros da Igreja (O crime do Padre Amaro), da família (O Primo Basílio), a derrocada da burguesia (A ilustre casa dos Ramires), o incesto (Os Maias) e no póstumo Alves & Cia. desanca a moral para continuar com lucros comerciais (magnífico ridendo castigat mores).. E eis o trecho das Farpa, vide: “O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção (aceite copy desk) fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido!” Eça de Queiroz, em “As Farpas”. 1871

Sendo ladroagem problema mundial, vale contar ideias de amigo, possivelmente primo do Crioulo Doido, tipo criado porá fazer samba enredo, por Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)., Com suas ideias, que se seguem, deve o autor das mesmas ter parentesco com o tal Doido. As ideias. Seu inventado País teria bandeira e sempre defendeu dísticos em tremulantes. Seria “Honestidade é Progresso”. É cada proposição! Outra das geniais concepções seria que as crianças cantassem como hinos, o da Marinha, de fato lindo, quando fala no cisne brando em noite de lua. Também apregoava que as crianças cantassem nos pátios das escolas a música a “Banca do distinto”. No dizer deste “soi dizant” inovador, a letra de Billy Blanco é verdadeiro hino contra a soberba e em sua cachola a soberba leva à corrupção e esta à pobreza dos povos. É cada maluquice! Vale procurar e ler a referida música. E lembrar que, à época da feitura da letra, não havia cremações.

Haverá fim melhor do que voltar a trecho do Sermão do Bom Ladrão e com citação do gênio Padre Antônio Vieira “E especificou melhor S. Francisco Xavier, dizendo que conjugam o verbo rapio por todos os modos. O que eu posso acrescentar, pela experiência que tenho, é que não só do Cabo da Boa Esperança para lá, mas também das partes daquém, se usa igualmente a mesma conjugação. Conjugam por todos os modos o verbo rapio, porque furtam por todos os modos da arte, não falando em outros novos e esquisitos. Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque como têm o mero e misto império, todo ele aplica despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam; e para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos.
 
E que cada ser se tranque em aposento, onde estiver só e em frente a espelho, Pergunte. Sou honesto? Se a reposta for não, chore lágrimas de esguicho (vide Nelson Rodrigues) e pense no mal que faz aos outros e inclusive por tabela a alguém que ame. Você não acredita nessas baboseiras. Lamento, muito lamento e todos de alguma forma lamentam, ou lamentarão.

Item Brasil e quase a um lustro. A demagogia está para a Democracia, como o vício para a virtude. Se vivo, só coloque a carapuça, se lhe aprouver. Veja que falei em lustro, isto é, cinquenta anos. Se quiser, volte ao Império e não se esqueça do Chalaça. Cito péssimo autor, só que com frase de respeito. Benito Mussolini. Não é difícil governar a Itália. É impossível. Vide Brasil. Na Bota há mafiosos, aqui milicianos.

Enfim. “A vaidade é um princípio de corrupção.” Machado de Assis, em Dom Casmurro, (1899).
 
 

Comentários sobre os textos podem ser enviados ao autor, no email pdaf35@gmail.com 



Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Emérito UNIRIO.
634 prêmios literários, sendo 25 fora do Brasil. 28 livros publicados/ Em Medicina, 105 publicações. E bisavô.
contista, cronista, autor teatral

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