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CORRUPÇÃO |
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E ainda que o tema seja supimpa, caminhar nele é procurar
não pesar, pois se anda em gelo fino, isto é, o tema abordado. Gelo finíssimo e
com muitos olhares atentos. E o tema tem autor de peso e que foi intimorato
pelos passos no tal gelado. Padre Antônio Vieira proferiu em 1665 o “Sermão do
bom ladrão”. E o completou com o Sermão da Sexagésima e vide que esse foi
pregado na Capela Real e como o anterior, em 1655. Se o primeiro foi ao culto na
Capela da Misericórdia em Lisboa, a Sexagésima ocorreu no mesmo ano. Desta
escolho: “Semen est verbum Dei” Não seja mais assim por amor de Deus, e de nós.
Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os
ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as
sensualidades. Veja o Céu, que ainda tem na terra quem se põe da sua parte.
Saiba o inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de
Deus; saiba a mesma terra, que ainda está em estado de reverdecer e dar muito
fruto: Et fecit fructum centuplum.”
Fiquemos ainda em tesouros vindos do
”Jardim da Europa a beira mar plantado” (poeta Tomas Ribeiro). E muitos anos
depois e o transcrito vem das “Farpas”, 1871, quando Eça de Queiroz e Ramalho
publicavam o referido suplemento literário, sendo de Eça, o que é transcrito, e
refazia os ditos de Vieira. Continuavam os dois expoentes lusófonos, caminhando
no tal gelo, valendo apregoar que o de Queiroz já romanceara e com soberba arte
sobre os meandros da Igreja (O crime do Padre Amaro), da família (O Primo
Basílio), a derrocada da burguesia (A ilustre casa dos Ramires), o incesto (Os
Maias) e no póstumo Alves & Cia. desanca a moral para continuar com lucros
comerciais (magnífico ridendo castigat mores).. E eis o trecho das Farpa, vide:
“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão
dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos. A prática
da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja
desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos
homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se
progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os
serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado
na sua acção (aceite copy desk) fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a
parte: o país está perdido!” Eça de Queiroz, em “As Farpas”. 1871
Sendo
ladroagem problema mundial, vale contar ideias de amigo, possivelmente primo do
Crioulo Doido, tipo criado porá fazer samba enredo, por Stanislaw Ponte Preta
(Sérgio Porto)., Com suas ideias, que se seguem, deve o autor das mesmas ter
parentesco com o tal Doido. As ideias. Seu inventado País teria bandeira e
sempre defendeu dísticos em tremulantes. Seria “Honestidade é Progresso”. É cada
proposição! Outra das geniais concepções seria que as crianças cantassem como
hinos, o da Marinha, de fato lindo, quando fala no cisne brando em noite de lua.
Também apregoava que as crianças cantassem nos pátios das escolas a música a
“Banca do distinto”. No dizer deste “soi dizant” inovador, a letra de Billy
Blanco é verdadeiro hino contra a soberba e em sua cachola a soberba leva à
corrupção e esta à pobreza dos povos. É cada maluquice! Vale procurar e ler a
referida música. E lembrar que, à época da feitura da letra, não havia
cremações.
Haverá fim melhor do que voltar a trecho do Sermão do Bom
Ladrão e com citação do gênio Padre Antônio Vieira “E especificou melhor S.
Francisco Xavier, dizendo que conjugam o verbo rapio por todos os modos. O que
eu posso acrescentar, pela experiência que tenho, é que não só do Cabo da Boa
Esperança para lá, mas também das partes daquém, se usa igualmente a mesma
conjugação. Conjugam por todos os modos o verbo rapio, porque furtam por todos
os modos da arte, não falando em outros novos e esquisitos. Tanto que lá chegam,
começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem
aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar
tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque como têm o mero e misto império, todo
ele aplica despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo,
porque aceitam quanto lhes mandam; e para que mandem todos, os que não mandam
não são aceitos. E que cada ser se tranque em aposento, onde
estiver só e em frente a espelho, Pergunte. Sou honesto? Se a reposta for não,
chore lágrimas de esguicho (vide Nelson Rodrigues) e pense no mal que faz aos
outros e inclusive por tabela a alguém que ame. Você não acredita nessas
baboseiras. Lamento, muito lamento e todos de alguma forma lamentam, ou
lamentarão.
Item Brasil e quase a um lustro. A demagogia está para a
Democracia, como o vício para a virtude. Se vivo, só coloque a carapuça, se lhe
aprouver. Veja que falei em lustro, isto é, cinquenta anos. Se quiser, volte ao
Império e não se esqueça do Chalaça. Cito péssimo autor, só que com frase de
respeito. Benito Mussolini. Não é difícil governar a Itália. É impossível. Vide
Brasil. Na Bota há mafiosos, aqui milicianos.
Enfim. “A vaidade é um
princípio de corrupção.” Machado de Assis, em Dom Casmurro, (1899).
Comentários sobre os textos podem ser enviados ao autor, no email
pdaf35@gmail.com
Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Emérito UNIRIO. 634
prêmios literários, sendo 25 fora do Brasil. 28 livros publicados/ Em Medicina,
105 publicações. E bisavô. contista, cronista, autor teatral
Conheça um pouco mais de Pedro Franco
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