16/05/2022
Ano 25
Número 1.272





 

ARQUIVO

PEDRO FRANCO


 


 

 


O politicamente correto


De quando em quando me pego alfinetando o politicamente correto. Então ele me incomoda. Quando algo nos incomoda, há que se estudar bem o incômodo e vou logo a exemplo. Que personagem, que tanto fez rir, do Chico Anysio, sairia incólume do julgamento politicamente correto? Andei perpassando olhos sobre a galeria dos seus hilários tipos e julgo que os do politicamente correto cassariam os mesmos e sem exceções. E as risadas que nos fizeram dar? Já demos, só que se o Chico, ou algum com a verve afiada do Chico, agora não poderia dar vaza à uma brilhante saga de hilários personagens. Então esse tipo de censura aboliria centenas de ótimas gargalhadas, que ainda daríamos, mesmo se houvesse outro Chico Anysio. Vamos a outro, que foi censurado. Seu Lalá, que era Lamartine Babo e em música dizia que, como a cor da mulata não pegava, queria o seu amor. E a música era boa e a belas mulatas eram até chamadas de pancadões, elogio que merecia entrar para o rol dos encômios para lindas em geral. Por exemplo, ao invés das Certinhas do Lalau, leia-se Stanislaw Ponte Preta, ou Sérgio Porto. Seriam As Pancadões do Lalau. E as belas, que não estivessem entre as certinhas, o que o politicamente acharia? Diz o samba, quem acha, vive se perdendo. OK. Como ficariam os críticos de ofício no politicamente correto? Oh ofício ingrato, criticar. Como os políticos gostariam que não houvesse críticos e muitos labutaram pela censura, ainda que não contra “fakes”. Deixemos políticos em paz, que vem eleição por ai e não vejo oponentes conhecendo a liturgia do candidato democrático. Aliás, homenagem ao Grande Otelo, que dizia, aliás, como ninguém. Elogiar o ator pode? E os outros? Assisti Otelo fazer um Sancho Pança espetacular. Parece que o Chacrinha, que jogava bacalhau nos assistentes, avisava que não vinha para explicar e sim para confundir. E por que falei no Chacrinha agora? Foi porque pensei em tumultuar. Nem falo nos tipos do Chico e vou ao Gago do Noel Rosa. Ótima música. Será que os gagos gostaram dela? Será que meninos gagos na escola tiveram seu bullying aumentado com a música? Então ficou a favor do p correto? Os filósofos aconselham que se dê margem sempre à dúvida filosófica. Então tenho certeza disto e vou ficar tendo dúvidas? Viver e pensar são atos complicados. Só que se pesar fatos na balança do bom senso, tudo fica mais fácil. Onde se compra essa balança e quanto custa um quilo de bom senso? E como ficamos com o politicamente correto? Contra, que é censura. 


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Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Consultor da Clínica Médica da Escola de Medicina e Cirurgia da UNI-RIO.
Remido da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Professor Emérito da UNI-RIO. Emérito da ABRAMES e da SOBRAMES-RJ.
contista, cronista, autor teatral

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