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16/12/2025
Ano 29 - Nº 1.487

ARQUIVO
MILTON XIMENES

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Milton Ximenes
A MISSÃO
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De súbito, a solicitação telefônica.
Apresentou-se na luxuosa sala da Diretoria de Administração da Companhia. Logo
sentiu a voz suave do Diretor escondendo, diplomaticamente, autoritária
convocação:
- Estamos precisando da sua colaboração. Você tem carreira
brilhante, é de nossa inteira confiança. Parece que aconteceram estranhas
operações contábeis lá na filial de São Paulo, entende bem o que quero saber,
não?
Nem argumentou, o homem já definira o plano:
- Já convidei gente
do Espírito Santo e de Goiás para se reunir a você lá. Pegue aqui este
relatório das primeiras averiguações, vá estudando. Vocês têm a liberdade de
escolher o método de trabalho melhor, e o pessoal do apoio. Passe na
Secretaria, apanhe as passagens para embarque nesse domingo agora, à noite...
Estranhando, agora, a cidade estranha, ruas agitadas por transeuntes
apressados, trânsito nada silencioso... algumas dificuldades na comunicação
com os novos colegas. Na verdade, os fatos a serem esmiuçados no Banco não
eram tão difíceis de apurar, apenas os comprometimentos dos ocupantes de
determinadas chefias iam se desdobrando em teias de vastos e altos interesses,
obrigando o tempo de trabalho a se alongar e, com isto, novas descobertas,
mais tempo de permanência naquele rude inverno.
A impaciência envolvia
seus pensamentos e atitudes. Família, só por telefone, apesar da proximidade
do Rio: o que pretendia, ficando na cidade, como presidente da sindicância,
era que os fins de semana reforçassem o convívio com os colegas da comissão,
estratégia para um caminho mais rápido para a conclusão dos trabalhos.
Eis que, tempo demorando, aquela mulher de meia idade, traços nórdicos em
magro corpo, olhos azuis por detrás dos redondos óculos de secretária, se
insinuando, se aproximando, confessando-lhe mesmo que vinha apreciando seus
gestos calmos, sua voz tranquila, queria conhecer um homem paciente assim, e
mais ainda, que era virgem... Bem, matutava ele, quanto a isto, só com o tempo
poderia descobrir...
Sexo, estava precisado, não pedira, nada mal se
aventurar nesse encontro sem raízes. Decidiu abrir uma exceção no seu
comportamento, recebê-la no apartamento que a empresa lhe reservara. Exceção
sim, porque tinha receio desses encontros com pessoas de pouco convívio,
lembrava-se de uma outra mulher, ao tempo de solteiro, que lhe dissera na
manhã seguinte à noite de muitas carícias:
- Acordei madrugadinha ainda,
vim à janela fumar um pouco. Depois, te vi dormindo, fiquei admirando teu
corpo tão bonito, em repouso...
Tomou, aí então, consciência do perigo
que correra. Durante aquele período de tempo em que ela se levantara e o
contemplara, estivera praticamente em suas mãos. Desconhecida, poderia fazer
dele o que quisesse, roubá-lo, matá-lo até... desaparecer sem deixar rastro. E
aprendera mais essa.
Outro receio era o aparecimento da esposa. Sabia
que ela vivia mergulhada nos problemas e nas alegrias dos três filhos
adolescentes, entretinha-se bastante com novelas e filmes na televisão, mas
pressentimentos às vezes lhe assaltavam a mente.
Entrou no apartamento,
ajeitou suas roupas no encosto da poltrona da sala, ficou só de sunga, e,
próximo à janela, curtiu lentamente um cigarrinho, enquanto a mulher se
encaminhava para o banheiro. Quando percebeu que ela já se demorava, foi até
lá, encontrou a porta trancada.
- Estou me preparando – ela se justificou.
Reapareceu, enfim, rica lingerie a revelar conservado e claro corpo,
perfumes no ar.
- Comprei isto especialmente para nosso encontro, é da Casa
Orleans, a melhor da cidade, gostou?
Todo cuidados, conduziu
romanticamente palavras e atos, sua experiência costurando emoções e prazeres.
Satisfeitos, e como era cedo, resolveram jantar, em comemoração. Antes de
sair, porém, percorreu todo o apartamento, preocupado em eliminar vestígios da
presença feminina.
Deixou-a, depois, no bairro em que ela morava,
regressou ao apartamento e quando já começava a cochilar ao embalo das imagens
da televisão, o porteiro interfonou:
- Dr. Silva, Dr. Silva! Tem uma
senhora aqui, dizendo que é D. Margarida, que é a sua Senhora, querendo subir.
Pode ser?
Um tanto atordoado, recebeu a esposa, primeiro, com um forte
e longo abraço, depois, com máscara de espanto:
- O que que foi, querida?
Quê que aconteceu?
- Nada, nada, homem de Deus! Surpresa, meu bem! Resolvi
passar o fim de semana com você aqui! E conhecer São Paulo...
- Me
desculpe, querida, isso é que não vai poder ser agora, não... Fica pra depois,
tá bem? Um pouquinho de paciência... Eu é que estava pensando em te ver. Este
lugar aqui acaba me matando de ansiedade, é um tédio só! A gente nunca que
consegue acabar o tal inquérito... Vamos já para o Rio, quero também rever a
nossa garotada!
Praticamente a arrastou para a portaria do prédio, “um
táxi, por favor”, seu José... Pensamentos passeando pelas visões dos prédios e
luzes da noite da cidade atravessada pelo automóvel. Depois de tanto esforço
com uma virgem, era virgem mesmo, minha mulher jamais iria compreender o
porquê de eu, sempre tão solícito à cama, e depois de tanto tempo, me recusar
a transar com ela naquela noite. Com a minha idade, pô, não sou mais herói...
Sorte: ainda alcançaram o último voo da ponte aérea. Sem mala e, além da
roupa imediatamente improvisada, um paletó esporte para defendê-lo do tempo e
do ar mais frio do avião.
(03 de agosto/2012) Revista Rio Total, CooJornal nº 798
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ser enviados diretamente ao autor no email
miltonxili@hotmail.com
Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email: miltonxili@hotmail.com
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