A janela do quarto da velha casa, construída sobre uma encosta, é a recordação
primeira. Alto panorama, tornando inúteis os cercados de tábuas de madeira que
o protegiam, o campo do Estrela do Norte Futebol Clube, que, por sinal, ficava
ao sul da cidade e me esverdeava o
olhar. Os fins de semana me gratificavam a curiosidade infantil, a
arquibancada cheia, do outro lado, enquanto no campo aqueles homens buscavam,
em correria, a posse da bola que lhes daria a possibilidade de fazer, ou não,
a alegria dos seus torcedores. Simpatizava eu pela camisa mais colorida que
aparecesse. O que me intrigava era aquele jogador (mais tarde saberia que era
um ponta-esquerda) que corria pelo seu setor sempre chupando uma laranja
descascada, laranja (ou laranjas) cedidas pelo vendedor, cômoda e espertamente
instalado em uma das margens de escanteio do gramado, local, também, de
passagem do público para a arquibancada. Nos dias de chuva, acontecia uma bola
enlameada subir demais e carimbar a parede branca da nossa casa. Várias marcas
marrons lá, sem possibilidade de reclamações...
Aquela casa, um dia,
não se tornou mais confiável, goteiras cascateavam pelos cômodos nos grandes
temporais. Mudança para o lado norte da cidade de Cachoeiro de Itapemirim,
transposto o rio. Lá, subido o morro, na frente da velha Matriz, a descoberta
dos companheiros de pelada, vizinhos da nova rua, as balizas delimitadas por
pedras, paus e camisas. Brincadeira ingênua, simples correria atrás da
massacrada bola, improvisada ou de borracha. E, súbito, a atenção é voltada
para as vozes altas dos rádios, final da década de quarenta, Botafogo e Vasco
por cima, este, então, cedendo numerosos craques para a seleção brasileira.
Depois me assustei com aquela tristeza da perda da Copa do Mundo de 1950, não
entendi bem a emoção do envolvimento daquelas pessoas apaixonadas e, até,
chorosas. Momento certo para adotar um clube.
O Rio de Janeiro, onde
iria estudar, me fez melhor compreender tais sentimentos. A garotada do
bairro, Vila Isabel, lá pelos lados do Corpo de Bombeiros, era dedicada, as
manhãs de domingo eram para maltratar alegremente os pés naquele irregular
campo de terra.
Eu era ruim paca, e, para assumir pouca
responsabilidade, me situava no meio do campo. Se estava em movimento de
defesa, era só despachar a “menina” lá prá frente; se em de ataque, era correr
e, se possível, chutar para a meta. Quando chutasse! O gol feito era surpresa
pra mim, tinha muita gente fominha... Outras vezes me fiz de goleiro, até bem,
fiquei convencido, mas era franzino, e, nos jogos com outros, já rapazes mais
taludos, vinham os companheiros maneirosamente me convencer a ceder o lugar:
“- Bola sobre a área, aquele pessoal vai te empurrar com couro e tudo para
dentro do gol!” Tinham razão, já acontecera até no colégio, quando tínhamos
que enfrentar os empregados da cozinha e da faxina, homens criados.
Pelas mãos do meu tio flamenguista, meu coração vascaíno foi apresentado ao
Maracanã, me viciei, ia com ele ou com companheiros de pelada, sempre um pai
responsável ao lado. O problema era sentar na arquibancada da torcida do
próprio clube, havia a divisão do grupo, promessa de se encontrar em
determinado ponto após o jogo, mas saíamos todos felizes vendo atuar os
jogadores que a gente tanto admirava e tentava imitar.

Maracanã em obras, vazado, com Cristo Redentor no "buraco" feito na
arquibancada. - Foto MXL
E então chegaram
a televisão, a vida adulta, as responsabilidades de uma família e de um
trabalho, este com o detalhe de me obrigar a constantes viagens pelo Brasil.
Correria imensa, só me davam a alegria de, coincidentemente, conhecer clubes e
estádios de outros Estados. Depois, todos sabem, o abandono do nosso estádio
maior, sua insegurança, torcidas violentas. Certa vez, em jogo clássico, tive
que correr, nas arquibancadas, ao sabor da onda da multidão, contra o gradil
que as separava da tribuna de honra. Sensação desagradável da ameaça de ser
imprensado, a não ser que o pulasse. Felizmente, parou bem perto. Em outra,
senti e vi uma garrafa-voadora de cerveja passar por sobre a minha cabeça e
acertar o pescoço do torcedor sentado à minha frente, no degrau inferior. O
homem, mão direita na nuca, radinho de pilha na outra, levantou-se, tonto,
perguntando aos vizinhos o que acontecera, e só quando a mão lhe revelou um
líquido vermelho é que se assustou. A sorte foi a garrafa atingi-lo em posição
deitada, na horizontal! Outro sacrifício: comprar um ingresso, na hora, nos
grandes jogos! A pressão física, agressões, o desrespeito pela ordem, polícia
distante...
Mais idoso agora, penso muito, me cerco de confortos. Pela
televisão estou em todos os gramados do mundo, principalmente vendo os
estragos que os sacanas jogadores brasileiros fazem no orgulho dos
estrangeiros... São pentas com muito merecimento, o sofrido povo brasileiro,
pelo menos, pode curtir essa alegria, conquista que carrega no patriótico e
estufado peito... Mas, cá entre nós, está difícil engolir nossos timecos por
aqui... Que saudade do tempo daqueles campeonatos cariocas repletos de craques
nos surpreendendo e nos alegrando com suas jogadas, recheando os campos com
muitos torcedores em quase todos os jogos!
Meus dois filhos entram na
sala, interrompem meus cochilados pensamentos, após um bom almoço. Querem que
os acompanhe no jogo da semifinal do campeonato carioca, digo-lhes que se
divirtam sozinhos, não arrastem esse velho pai, já meio trambolho, meio
caduco. Eles me censuram, que me levam de carro, que me levam, com jeito até a
arquibancada....
Sempre exageram a atenção para comigo, principalmente
depois daquela tarde, após a manhã de aborrecimento com a mãe deles, ela
sempre me reclamando do seu abandono nos fins de semana por causa das minhas
manias futebolísticas. Então, depois de um almoço intranquilo em família, na
estrada, a caminho de um estádio naquela cidade do interior, uma leve
sonolência interferiu em meus sentidos, minhas mãos deixaram de dominar
momentaneamente o volante, e o automóvel seguiu para uma direção não
aconselhada, nem desejável...
Agora, estão aí, alguns ossos quebrados,
esta minha perna e seu pé direito, justamente o do melhor chute, que teimam em
não mais me obedecer...