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Irene Serra
ÍNDOLE PRETENSIOSA
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Adolescente
metido a bonitão, o que sabe tudo, Teobaldo se aproxima com um jeito largado
no andar.
– Mãe, hoje não vou à escola. Só hoje, não. Não vou nunca
mais.
– Que isso, meu filho? O que aconteceu? Está passando mal?
– Não quero ir. A escola é muito chata. Ninguém entende os meus valores.
– O quê??? (A mãe deduz que a situação é bem pior do que pensara!)
– A professora não me deu nota 10 na redação. E era a melhor redação da
turma.
– Bem, eu vi que você a fez com o maior capricho, corrigiu os
erros, procurou sinônimos no dicionário, foi criativo. Mas, meu filho, daí a
dizer que era a melhor, isso você não deve, nem pode. Gostar ou não do que outro
escreve é subjetivo.
– Posso sim, porque sei que sou o melhor aluno
nessa matéria, mesmo sem saber o que é subjetivo. E não quero que me
explique, não fala nada porque não estou ouvindo!
– Concordo que você
é bom (a esta altura a mãe já nem pensa tanto assim), mas leu a redação de
pelo menos um colega, ou olhou só para o seu umbigo?
– A teacher
leu
três redações, mas não disse de quem são. Aliás, é o que ela faz sempre. Diz
que é para conhecermos outros valores. Que valores? Valor é o meu, que sei o
que faço. Os outros são todos iniciantes.
– ???
– É isso mesmo.
Escrevo desde que aprendi a segurar o lápis. E agora vem a teacher e não me
dá importância nenhuma, não mostra minha redação para a escola? Nem falo em
turma, porque ela já é pequena para mim. Falo mostrar para a escola toda,
colocar no mural de avisos, ler no microfone. Talvez, mandar para os jornais.
Ela tem, até, obrigação de me inscrever em algum concurso.
– Teobaldo,
você está passando dos limites! Já está na hora de amadurecer e ver que não é
o dono da verdade. Precisa melhorar seu português, estudar mais, ser menos
pretensioso. E, se deixar de estudar, azar o seu. Aí, sim, é que não vai se
aprimorar para ser o escritor que tanto quer ser. Ou acha que é só a vontade
que faz um escritor? Tem que ler muito, escrever demais, ter talento! E ser
humilde o suficiente para perceber que vai aprender a vida inteira, errar e
continuar aprendendo. Você está se dando uma importância que não tem! Sua
escola é das melhores que encontramos e você fez teste de seleção para dela
participar. Ou prefere deixá-la e ir para uma escola pública? Antigamente,
estas eram excelentes, procuradas a peso de ouro! Hoje, a situação é bem
diferente – basta observar a degradação da educação. Muitas escolas têm
baixa qualidade de infraestrutura, com salas que não suportam o excesso de
alunos, não há material didático a ser distribuído, sem contar com o
despreparo e desmotivação dos professores devido à baixa remuneração. Alunos
que desvalorizam professores, chegando a agredi-los, o que passou a ser
corriqueiro, principalmente nas turmas mais adiantadas. Raras são as exceções! Você acha vai ser percebido, em
meio a tanta gente?
Parou de falar, vendo que de nada adiantava.
Teobaldo, virando as costas, grita do final do corredor, tapando os ouvidos:
– Nem tô ouvindo. Você falou pras paredes.
Que falta faz uma palmada
bem dada, como antigamente... Em vez de melhorar, estamos piorando!
Irene Vieira Machado Serra foniatra, editora da Revista Rio Total RJ irene@revistariototal.com.br
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