01/03/2026
 Ano 29 - Nº 1.497




ARQUIVO
IRENE SERRA











Irene Serra



SUSTO NO DENTISTA

 

Dor de dente não há quem aguente, ainda mais quando se prolonga por várias horas. Sem relutar, lá foi a jovem senhora ao dentista.

De pronto, só de olhar, gostou do profissional, do consultório, da solícita atendente. Ao saber, então, que esta era uma dentista recém-formada e que cursava pós-graduação, sendo seu orientador o próprio dentista, gostou mais ainda. Observava a limpeza de cada canto, os uniformes impecáveis, o esmero no trato.

Começa a consulta:
– Então, D. Fulana, dói aqui?

- Ah ah ah Ah ah!
Como falar com tanto ferrinho na boca, aquele espelhinho incomodando, o sugador dependurado prendendo sua língua, além das mãos da atendente e do próprio dentista?

– E aqui?

– Ah ah Ah Ah!
Será que ele entendia o que a cliente balbuciava ou só estaria sendo atencioso enquanto examinava? Podia ser uma forma de atendimento light para desinibi-la, tirar o estresse da consulta.

Suplício terminado, o dentista senta-se a um computador de ultíssima geração, na sala contígua. A atendente vem com lencinho refrescante e passa-o no rosto da cliente, penteia-lhe o cabelo com os dedos, borrifa-lhe spray perfumado. Com um sorriso perfeito, indaga-lhe se quer passar batom e se precisa de mais alguma coisa. Não? Então vamos para a outra sala!

Pois é, bem que podia passar-lhe a roupa, para sair bem bonitinha. Mas isso certamente estava fora de cogitação, porque não lhe foi oferecido.

E eis que o dentista apresenta a relação do que tem de ser feito. Após o susto – não tanto pelo trabalho em si, mas pelo preço –, marcam a data do início do tratamento (que coincide com a primeira parcela do pagamento, é lógico).

Tratamento a meio, cliente feliz com água gelada e cafezinho quente na chegada e bala de menta na saída, acontece o imprevisto de um provisório se soltar. Telefona pedindo socorro e a secretária manda-lhe ir direto para o consultório, sem marcar hora. Assim que chega, a atendente – que continuava tão solícita quanto da primeira vez – pede-lhe:
– Por favor, D. Fulana. Aguarde um instante que já venho atendê-la. Sou eu mesma quem vai prender o provisório. É só enquanto acabo de lavar a perereca da D. Cicrana...

A cliente quase desmaiou: "Botar a mão na minha boca depois de colocar na perereca? Não vai, não!"


(18 de agosto/2007)
CooJornal nº 542.

 


Irene Vieira Machado Serra
foniatra, editora da Revista Rio Total
RJ
 irene@revistariototal.com.br

Direitos Reservados