Francisco Simões

Como entramos agora no mês de Dezembro eu
decidi escrever algo a respeito do Natal, embora eu não seja a pessoa mais
indicada para isso. Afinal mesmo sendo católico tenho outros conhecimentos
na área religiosa que balançam meu status de católico.
Convivo muito
bem com bons amigos sejam eles espíritas, sejam ateus, ou que participem de
outras religiões. Tenho ótimas recordações do meu tempo de criança em casa
com meus pais e avós quando comemorávamos o Natal, mas também eles não
esqueciam além do aspecto religioso de comporem todo um cenário festivo
referente ao nascimento do Menino Jesus.
Costumávamos ter todo ano
bela árvore de Natal, além do lindo presépio. Eu, ainda garoto, lembro-me
bem de escondido atrás da porta do meu quarto bisbilhotar os presentes que
meu pai, minha mãe e minha madrinha Carmita, colocavam ao pé da árvore
natalina.
Mais tarde já com todos da casa acordados, e eram muitos, pois
sou o mais velho de 10 irmãos e irmãs, e após tomarmos o café da manhã eles
nos levavam à grande sala para vermos os presentes e pegarmos cada um o seu
claro. Achávamos em nossa ingenuidade que fora Papai Noel que ali deixara os
presentes em resposta a cartinhas que escrevíamos.
Eu, como o mais
velho, já desconfiava de tudo, mas preferia manter a expectativa e
participar do ambiente festivo tido por eles, para nós, como de fundo
religioso. Assim foram-se muitos os nossos Natais naquela grande casa em que
morávamos no bairro do Marco em Belém do Pará. Sou paraense sim com muita
honra.
Hoje só me restam as boas lembranças de outrora, afinal já
estou nos 84 anos de vida e terceiro casamento. Nossos Natais atualmente têm
sido menos ricos se comparados com aqueles quando eu era criança ainda.
Procuramos guardar o mesmo espírito de outrora, todavia numa realidade bem
diferente em que hoje vivemos.
Há pouco mais de uns 20 anos eu
recomecei a escrever textos que divulguei e ainda divulgo no CooJornal da
revista Rio Total de Irene Serra. Muitos outros eu também divulguei em
outros sites literários dos quais depois me afastei e fiquei somente na
revista Rio Total.
Participei de diversos Concursos e Mostras tanto
com textos como também com poesias. Logrei ganhar diversos prêmios em ambos
os campos. Um dos poemas que mais me renderam prêmios foi justamente o “É
Natal” que agora vou reapresentar aos amigos e amigas que me prestigiam com
sua atenção.
Desejo a todos vocês um Feliz Natal junto com seus
amigos e familiares. Que Deus os abençoe a todos. Até a próxima.
Abaixo meu
premiado poema “É Natal”.

É NATAL
É Natal,
Mas talvez nem todos saibam,
Talvez porque
não caibam
No Natal.
Seu nome é José,
Ele não tem Maria
Já
teve um dia
Hoje é só o Zé.
O Zé lá da praça
Que fala sozinho
Ou
fala com os anjos,
Que fala baixinho
E sorri pra menina
Um anjo que
passa
Que não fala com o Zé.
Ninguém sabe quem é,
As flores, o
vento,
Os grãos de areia
Entendem José.
Os pássaros também.
A
praça limita seus passos
Mas não seus pensamentos.
Sua mente alceia,
alceia,
E passeia muito além.
Ninguém conhece o José,
José não
conhece Belém.
A árvore de Natal na praça
Para José não passa
De
uma alegria iluminada
Que pisca e pisca pra ele,
Que pisca e pisca,
mais nada.
Seu nome é Maria
Da porta da igreja,
Está ali todo
dia,
Talvez só Deus a veja.
A igreja é de Deus.
Ela ouviu a
história
Dos bondosos Reis Magos.
Eles passam pra lá,
Eles passam
pra cá,
Sem mirra, incenso ou ouro.
Para ela são Reis Magos
Que não
lhe dão afagos,
Que não lhe dão presentes.
Nada ouvem por mais que
peça
Pois, toda aquela gente
Leva nos pés muita pressa.
Sem pressa
tocam os sinos
O seu anúncio etéreo:
“Nasceu o Deus-Menino”.
Plantam-se ceias nas mesas,
Ouvem-se coros, orquestras,
Mas Maria não
tem mesa,
Maria nem tem janela
Só tem a porta da igreja
E uma
natalina certeza
De que a noite que agora boceja
Vai dormir sem lhe
trazer festa.
Seu nome é Jesus,
Jesus, menino, 10 anos.
Ele não
tem segredos
Apenas certezas miúdas
E muitas mágoas graúdas
Que
esmagam a criança
E constroem sua cruz.
A boca gelada de silêncio,
Silêncio que grita mais alto
Que a voz das passeatas,
Que esconde o
seu medo.
Escolaridade: mendicância.
Ele povoa a cidade
Entre
tantos Jesus,
Entre tantos contrários,
Sem manjedoura, sem berçário,
Carregando sua fragilidade
Sem cobrar o que a vida
Há muito lhe deve:
a infância.
Jesus, 10 anos, menino,
Por ele passam os sonhos
De
tantos que levam planos
Na cabeça, nos passos,
No olhar, no
sobressalto.
Nas mãos de Jesus uma lata
Onde cabe o seu espaço,
Onde fecha o seu destino.
É Natal
Mas eles não sabem,
Talvez
porque não cabem
No nosso Feliz Natal.
Dezembro / 1998
(Esta poesia ganhou o prêmio de Melhor Crítica Social na 4ª e na 6ª edições
do Concurso “Expressão da Alma”, no Rio de Janeiro,
além de diversos
outros prêmios importantes em vários concursos literários)
fm.simoes@terra.com.br

Revista Rio Total