Pedro Franco
Personagens:
Avó
Margarida: entre sessenta e setenta anos. Vestida de forma moderna, carinhosa e
com ampla comunicação com os dois netos, que ajudou a criar, sabendo que deve
ter papel secundário na educação dos mesmos, que primordialmente cabe aos pais.
Maria Maiara: treze anos, bonita, esperta e vestida com calça jeans e camiseta,
tênis raso, cabelos compridos, que em todo momento são ajeitados.
João
Rodrigo: um ano mais moço que a irmã. Está de bermudão colorido e camiseta com
estampa vistosa e tênis pesado com meia de cano curto.
Papai Noel: uma
criança vestida de Papai Noel. Não dirá uma palavra e não será visto pelos três
personagens. Entra, senta-se e apenas sorri e balança a cabeça, quando está de
acordo com o enredo. O personagem mostra permanente alegria contida
Época
Atual, na cidade do Rio de Janeiro.
Cenário
A sala está enfeitada com gosto para o Natal
e chama a atenção a Árvore de Natal, que se destaca.
Quando a cena se abre, a
avó está sentada na poltrona na sala do apartamento, mobiliado com gosto, lendo.
Levanta-se e vai ajeitar alguns dos enfeites da Árvore. E então os netos
irrompem pela sala e risonhamente a avó interrompe sua atenção para com os
enfeites da Árvore e dá plena atenção aos netos, que de fato estão alvoroçados.
Maria – Vovó, Vovó, tivemos uma grande ideia para este Natal e você vai nos
ajudar, não vai? Contamos com você, pois os outros adultos são mais complicados.
João – vai ser diferente, mas você vai vender a ideia aos outros. Papai diz
sempre que temos que vender as ideias. Quando papai cisma com uma frase, repete
muitas vezes. Diz que a repetição é didática.
Maria alvoroçada. – você nos
ajuda?
Avó – só posso ajudar se souber do que se trata, mas em princípio
estou com vocês. Confio muito no taco dos dois e não apoio muito os adultos
sempre didáticos, ainda que educar seja o trabalho mais difícil de uma vida.
Maria fazendo cara de mistério – é uma mudança na Ceia do Natal...
João –
mudança importante
Maria – fundamental e completamente caridosa.
Avó – não
vão me dizer que não gostaram de trechos da Bíblia, lidos como se fossem um
jogral. A ideia foi do Vovô e achei ótima. Achei que o João não gostou muito da
ideia...
João – gostei muito, só que fiquei nervoso e com medo de não ler
direito. Maria, que é mais exibida deu um “show” de bola.
Maria _ eu não sou
exibida, Gosto de fazer tudo direito e de fato capricho e “show” de bola é
elogio de futebol. E você fez cara feia para a tal carta de São Paulo aos
Corintos.
João – nada disso. Desde que o Vovô não escolha trechos longos,
pois estou sempre com fome.
Maria – João, vamos vender nosso peixe novo e
depois discutimos nossos comportamentos. Vovó, é a introdução de um novo
personagem na. Ceia de Natal. Adivinhe quem?
João – Vó, você é esperta, mas
não vai acertar! Pode queimar a “mufa”, que não vai acertar!
Papai Noel entra na sala e senta-se em cadeira de balanço. Os três personagens
não dão conta da entrada e os netos continuam alvoroçados, expondo sua novidade
para a Ceia de Natal.
Avó – Vão introduzir um Papai Noel na Ceia?
Maria e João
em uníssono – não. Errou. Errou!
João – tente de novo e vai errar. Nossa
ideia é formidável e você vai comprar logo.
Avó – um amiguinho pobre de
vocês?
Maria – esquentou, mas errou.
João – bateu na trave. Vai acabar
acertando...
Avó – então não sei. Digam logo.
João – é um menino...
Maria – João, deixa contar tudo direitinho. O pai do Filhinho, aquele colega do
João, vai a um orfanato e escolhe um menino para a Ceia. Dão roupas e brinquedos
ao menino, ele dorme na casa do Filhinho e na manhã do dia vinte e cinco é
levado para o orfanato e cheio de presentes. Nós, neste 2012, vamos dar a ele um
Natal que nunca vai esquecer. No ano seguinte fazemos isto com outro menino, ou
menina. Que tal?
João – não gostei da sua cara da Vovó. É cara de não.
Estávamos certos que você ia comprar a ideia e ajudar a vender.
Avó rindo –
por que não é uma menina?
Maria – foi sorteio e perdi. No outro ano fazemos
novo sorteio. Combinamos tudo já. Só falta você aceitar e nos ajudar, expondo
com sua classe aos outros da família, que são mais conservadores. A vovó Alzira
faz absoluta questão de ser chamada de Senhora e quer que se tome “bença”. Você
é mais liberal. E agora faz cara de não!
João – e você é mais caridosa e
pensa sempre nos pobres. Logo...
A avó coça a cabeça. Os netos fitam-na
espantados.
Avó - sentem-se, pois temos que refletir. Eu já li sobre esta
conduta e acho a ideia de vocês excelente.
João – ainda bem, Vó!
Maria,
virando-se para o irmão – Conheço-a, lá vem um mas...
Avó – vou resumir o que
li em uma crônica do Dr. Pedro, que cuida do coração do Vovô e da Vovó, sobre
este assunto. Quando era estudante, trabalhava no Hospital Miguel Couto com um
médico muito caridoso, que no Natal agia da mesma forma que o pai do Filhinho.
Apanhava um órfão e vocês sabem o resto.
João - ´ta vendo. O pai do Filhinho
não tem cara de inventar nada e ele fica “cartando”.
Maria – deixa Vovó
falar, João, pois a bomba está para vir.
Avó – o tal médico contou ao Dr.
Pedro o que fazia e este, que tinha muita admiração pelo médico e com a
liberdade que a amizade permitia, ponderou que o menino via como era a
existência da família do Doutor, feliz e alegre, mas no vinte e cinco de
dezembro voltava para sua vida de órfão. Podia ficar mais triste então, fazendo
a comparação entre os dias no orfanato e os na casa do Doutor... O tal médico
mudou sua conduta nos anos seguintes. Na vida há que pensar bem no tipo de
caridade que vamos fazer
João – Mana, que bola fora íamos fazer. Mamãe diz
que de boas intenções o inferno está cheio.
Maria – que droga de ideia. Ainda
bem que você fez a gente refletir, Vovó.
Papai Noel bate a cabeça
afirmativamente. E continua muito risonho, como se esperasse o resto da fala da
avó.
As crianças ficam tristes.
Maria - uma vez Tia Marocas disse que de
boas intenções o inferno está cheio. E de fato mamãe já repetiu esta frase, que
cabe bem na nossa ideia.
Avó – pior é ter má intenção. Mas no fundo achei a
ideia de vocês brilhante e muito útil e profundamente caridosa.
Maria – Vó,
você está querendo dourar a pílula.
João – a ideia foi uma droga e só não
digo merda, porque você não gosta.
Avó – a ideia foi ótima, mas sugiro fazer
uma pequena modificação.
João – chamar um prisioneiro bem malvado, para ele
ficar depois bem chateado na cadeia. Ele vem algemado e como bolas de ferro nos
pés.
Maria – que coisa mais infantil, João. Absurda até.
João – absurda
foi sua ideia de achar que ideia do pai do Filhinho era ótima.
Avó – não
briguem e vamos ao plano de vocês modificado, pois temos que vender nosso
projeto aos seus pais, ao Vovô e aos que fazem a Ceia de Natal conosco. Vocês
precisam me ajudar, pois a novidade vai quebrar a tradição e muita gente não
gosta de quebrar tradições.
João – desembucha, Vó!
Maria – acho que
peguei a ideia.
Avó – desembucha então, Maria.
Maria fala de forma
precavida – levar a Ceia para o orfanato?
João – orfanato de meninos neste
ano. Grande Vó. Porreta!
A avó ri. Os meninos eufóricos batem palmas. Papai
Noel levanta-se, risonho, faz sinal de positivo para a plateia e sai de cena.
Maria – será que a gente consegue vender o projeto? Alguns da família não vão
gostar. Tia Marocas e Tio Oscar vão ser do contra.
João – a ceia tem que ser
de arromba e com presentes para todos os órfãos.
Maria – vou fazer uma
campanha na escola e na academia de balé, para angariar presentes. Não aceito
dinheiro, só presentes. Não quero confusões depois. Vamos montar nosso presépio
no orfanato.
João – vou fazer o mesmo na escolinha de futebol e o Filhinho
vai ver que a ideia do pai dele é uma maldade.
Avó – precisamos vender a
nossa novidade e sem ser didática creio que as notas de fim de ano de vocês
podem ajudar. Procurem cavar bem neste segundo semestre. Eu fico encarregada de
falar com o Vovô.
Maria – eu com Papai.
João – eu com a Mamãe.
Avó –
como diz o pai de vocês, temos que vender bem nossa ideia, que é cristã e de
acordo com os princípios mais puros de fraternidade. Vocês têm razão, precisamos
dar uma sacudida positiva na nossa Ceia de Natal. Vai dar pano para muitas
reflexões e rezas. Vocês são ótimos.
Os três se abraçam. As crianças
alvoroçadas, a avó emocionada.
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Revista Rio Total