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Estrelas e Natais
Milton Ximenes Lima
Surpreendo-me.
Altas horas, céu límpido naquela madrugada de verão, que, por causa do calor, me
faz procurar a brisa da varanda da minha casa. Mesmo com meus míopes olhos,
surpreendo-me com a estrela que arranhou o espaço da noite, da esquerda para a
direita do meu olhar. Reincorporo-me, imediatamente, às emoções daquele menino
medroso, lá num Cachoeiro de Itapemirim já perdido nas dimensões do tempo,
quando, entre as ramagens das árvores do quintal, vi, pela primeira vez, aquele
desfile estelar. Medroso, sim. Na minha interpretação, cadente era o nome deste
tipo de estrela. E cadente significava cair, e porque não cair sobre a Terra e
decretar o fim da gente, da família, do mundo? Além do mais, era na época da
última guerra, o som alto e ruim do rádio da vizinha assustava a gente com
intercaladas notícias que, na interpretação ingênua do meu cérebro, previam uma
arrasadora invasão alemã, bombas caindo do céu! Corri para o quarto e, pela
primeira vez na vida, cinco para seis anos, senti aquela sensação de uma energia
angustiada a percorrer a coluna vertebral e terminar numa pontada na cabeça. O
nervosismo ficou então arquivado na minha imaginação, escorregou para o meu
arquivo mental.
As
coisas se abrandaram na minha imaginação com o conhecimento do Natal, quando me
foi apresentada festivamente a estrela de Belém, bondosa guia mística dos Reis
Magos na busca do novo Rei, que suas próprias previsões anunciavam. Uma
substituiu à outra, fiquei muito envolvido com as narrativas que cercaram o
nascimento e a vida do Menino Jesus. Tempos de aceitação do tudo, do aprendizado
do catecismo das melhores intenções do catolicismo da época.
Muito mais tarde abracei inteiramente a curiosidade do mistério das estrelas e
acredito que elas escondem de nós, dentro das suas distâncias imensuráveis,
galáxias de conhecimentos inimagináveis a que os homens do futuro, se não
assassinarem a Terra, poderão, um dia, ter acesso.
Por enquanto, porém, sejamos modestos nestas viagens espaciais e, primeiramente,
tentemos aperfeiçoar nossa estrela interior. Para isso, aí está novamente
chegando o Natal para engrandecer nossos pensamentos e gestos com muito amor. O
Natal vai além das comemorações rotineiras do fim de ano, dos procedimentos
mercantilistas induzidos pela mídia, da simples e esperada contemplação da
Sagrada Família nos presépios. É trazer o Menino-Deus para dentro do seu coração
em todos os dias do ano e não só neste período. Não se fiar nas verdades das
pessoas e coisas, por mais que neles se confie. Aprender a se afastar, da melhor
maneira possível, dos pensamentos e emoções negativas, dos hábitos nocivos, das
crenças equivocadas. Descobrir, definitivamente, que a Luz está dentro da sua
alma e, quando você tomar consciência deste tesouro, aí sim, comemorará o seu
próprio e verdadeiro Natal, e... por toda a sua vida!
miltonxili@yahoo.com.br

Revista Rio Total
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