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Bendita Seja a Comemoração do Natal
Irene Serra

Newton passa o ano inteiro em meio a tão diversas atividades, correndo de cá
para lá, num afã de enriquecimento, que nem ao menos se lembra de agradecer por
“poder correr” ou por ter esse “de cá para lá”. A mesa farta o espera quando
retorna ao aconchego da casa, a família reunida planejando para onde viajarão no
Natal.
Fernando não desfruta de tanto, mas sente-se feliz com o que consegue a cada
dia. Ainda não pode pensar no descanso do amanhã, mas não deixa de usufruir
pequenas alegrias. Sua mulher comprou uma enorme árvore, para encanto dos filhos
que ajudaram na composição.
Ricardo, que vivia com dignidade e tudo perdeu, luta por voltar a ser um pouco
do que foi outrora. Só ele e a mulher sabem o que pelejam, o que enfrentam para
chegar ao dia seguinte. Às vezes a fé enfraquece, mas de mãos dadas se juntam em
prece, pedindo a Deus que não os abandone. Quantas coisas lhes restam da época
das vacas gordas! Lisa segura, com carinho, o presépio mais lindo que alguém já
viu (presente de sua mãe), enquanto Ricardo monta a árvore de Natal. Sabem que
ninguém irá visitá-los - estarão sozinhos como sempre, desde que empobreceram -
mas também sabem que por nada deste mundo deixariam de homenagear o grande
aniversariante do ano.
A diversidade faz parte da vida. E, em meio a ela, Newton acredita que venceu
porque é mais forte. Fernando, mais sensato, pensa que aliada à força e
capacidade existe a sorte e o momento oportuno. Ricardo já sofreu o suficiente
para saber que os fracos se sentem acuados e envergonhados, mas que o
esmorecimento indubitavelmente leva ao fracasso.
Três famílias com oportunidades diferentes, irmanadas na alegria da festividade
do Natal. Cada uma doará o que lhe for possível; até Ricardo, com mais
sacrifício de sua parte, contribuirá para ver um sorriso em quem tem menos que
ele.
Sabem que não se trata de, por hipocrisia, ser bom por um dia, apenas no dia do
Natal. É justamente o contrário: é, por solidariedade, tirar um dia de
sofrimento dos mais carentes. Existe coisa mais linda que os pulos e vivas das
crianças ao se sentarem no colo do Papai Noel ou apenas poderem vê-lo? E a
emoção em seus olhos brilhantes, diante de uma vitrine iluminada, o pisca-pisca
das árvores?
Quando poderíamos nos sentar em volta da Lagoa Rodrigo de Freitas e ver aquela
majestosa árvore, cintilando, a bailar na água, se não fosse o Natal? É um
presente para todos!
Alguém tem vergonha de ter subido na vida ou se ressente dos bens que adquiriu?
Tem pejo de viajar, conhecer recantos pitorescos pelo mundo afora, voltar com as
malas abarrotadas de lembranças? Ao contrário, gostam de contar, com minúcias,
como foi a viagem e mostram 1001 fotos para que todos vejam a beleza do que
usufruíram. Nunca ninguém desistiu de viajar por lembrar que há pobres,
doando-lhes o equivalente ao custo da viagem.
Newton, Fernando e Ricardo, ao festejarem os aniversários da família, enfeitam
suas casas, recebem convidados e ganham presentes. Daí não entenderem porque,
justo na época do Natal, muitos se negarem à comemoração que pode unir pobres e
ricos, indistintamente: o nascimento de Jesus. E, se é uma festa para todos os
cristãos, que seja também nas praças, shoppings, ruas e ruelas; farta,
iluminada, com muita música e exuberante, que chame a atenção nos mínimos
detalhes. É fantasia, sonho, devaneio, esperança...
Benditos aqueles a quem a vida privilegiou e que não negam aos humildes esse
prazer de apreciar o belo, aquilo que por si só os infortunados não podem ter em
suas casas; talvez seja o único presente que recebam durante o ano. E, nesse
embevecimento, terão até o próximo Natal para sonhar.
Bendita seja a comemoração do Natal. Esse doar é a verdadeira comunhão em
Cristo.
irene@revistariototal.com.br

Revista Rio Total
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