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Jards Macalé

Cândido Luiz de Lima Fernandes
Atendendo ao
pedido do leitor da Revista Rio Total, Jonathas Derigo, que deseja saber por que Jards
Macalé foi chamado de “maldito”, escrevo hoje sobre esse artista brasileiro –
cantor, compositor, multi-instrumentista e ator – presente no cenário cultural
do país desde a década de 1960.
Jards nasceu em 3 de março de 1943 na
Tijuca, no Rio de Janeiro, nas imediações do Morro da Formiga, e cresceu cercado
por música. Do morro vinham os batuques do samba; da casa ao lado, a presença
marcante dos vizinhos Vicente Celestino e Gilda de Abreu. Em casa, ouvia foxes,
valsas e modinhas tocadas ao piano pela mãe, Lígia, que também cantava, e ao
acordeão pelo pai.
Ainda na infância, mudou-se para Ipanema, onde ganhou
o apelido de “Macalé” – nome do pior jogador do time do Botafogo à época – por
causa de sua irregularidade nas partidas de futebol disputadas informalmente na
areia da praia. Na adolescência, formou seu primeiro grupo musical, o duo “Dois
no Balanço”. Mais tarde, integrou o conjunto Fantasia de Garoto, dedicado a
jazz, seresta e samba-canção.
Em 1969, participou do 4º Festival
Internacional da Canção com “Gotham City”, parceria com José Carlos Capinam. A
apresentação recebeu uma estrondosa vaia, mas acabou se tornando um dos
acontecimentos musicais brasileiros mais célebres daquele ano. O episódio
ampliou a projeção de Macalé – que, à época, ainda não usava “Jards” em seu nome
artístico – e rendeu-lhe diversas entrevistas, inclusive para jornais como O
Pasquim.
Além de cantor e compositor, Macalé atuou no cinema e compôs
trilhas sonoras para filmes e espetáculos de teatro. Participou como ator e
compositor da trilha de “O Amuleto de Ogum” e “Tenda dos Milagres”, ambos de
Nelson Pereira dos Santos. Também escreveu músicas para “Macunaíma”, de Joaquim
Pedro de Andrade; “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, de Glauber
Rocha; “A Rainha Diaba”, de Antônio Carlos Fontoura; “Se segura, malandro!”, de
Hugo Carvana; e “Getúlio Vargas”, documentário de Ana Carolina.
Entre
suas canções mais conhecidas estão “Vapor Barato”, “Anjo Exterminado”, “Mal
Secreto”, “Movimento dos Barcos”, “Rua Real Grandeza”, “Hotel das Estrelas” e
“Poema da Rosa”. Além de José Carlos Capinam, Waly Salomão, Duda Machado e
Torquato Neto, Macalé teve como parceiros musicais nomes importantes como Naná
Vasconcelos, Xico Chaves, Jorge Mautner, Glauber Rocha, Abel Silva, Vinícius de
Morais, Fausto Nilo e Itamar Assumpção.
Suas composições foram gravadas
por intérpretes como Gal Costa, em “Hotel das Estrelas”, “Mal Secreto” e “Vapor
Barato”; Maria Bethânia, em “Anjo Exterminado” e “Movimento dos Barcos”; Clara
Nunes, em “O mais-que-perfeito”; Camisa de Vênus e Os Brazões, ambos com “Gotham
City”; e O Rappa, com “Vapor Barato”, entre outros. Embora tenha feito parcerias
com Gilberto Gil e Caetano Veloso, rompeu com eles por considerar que o
tropicalismo havia sido cooptado pela indústria cultural, perdendo sua
independência.
Jards Macalé passou a ser chamado de “maldito” por causa
de sua música experimental, de seu som distante dos padrões comerciais e de sua
postura rebelde diante da ditadura e do mercado fonográfico. Suas canções
misturavam rock, samba, jazz e vanguarda, contrariando a lógica das rádios
comerciais da época. Além disso, alguns de seus trabalhos foram censurados ou
boicotados durante o regime militar, como ocorreu no contexto de “O Banquete dos
Mendigos”. Sua atitude crua e provocadora nos palcos também causava
estranhamento no público e nas gravadoras.
Macalé dizia achar maravilhoso
o titulo de “maldito”, comparando-se a poetas livres como o francês Baudelaire.
Faleceu em 17 de novembro de 2025, aos 82 anos de idade, devido a um choque
séptico e insuficiência renal seguidos por uma parada cardíaca. O músico estava
internado em um hospital na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro), onde vinha
tratando de um quadro de broncopneumonia e enfisema pulmonar..
Coloco-me à disposição para
esclarecer dúvidas e receber sugestões de novos artigos no email
candidofernandes@hotmail.com.
Cândido Luiz de Lima Fernandes é economista e professor universitário em
Belo Horizonte; email:
candidofernandes@hotmail.com

Direção e Editoria
Irene Serra
Revista Rio Total

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