01/08/2026
Ano 30
Semana 1.515



ARQUIVO
de
MÚSICA





 







Jards Macalé



Cândido Luiz de Lima Fernandes



Atendendo ao pedido do leitor da Revista Rio Total, Jonathas Derigo, que deseja saber por que Jards Macalé foi chamado de “maldito”, escrevo hoje sobre esse artista brasileiro – cantor, compositor, multi-instrumentista e ator – presente no cenário cultural do país desde a década de 1960.

Jards nasceu em 3 de março de 1943 na Tijuca, no Rio de Janeiro, nas imediações do Morro da Formiga, e cresceu cercado por música. Do morro vinham os batuques do samba; da casa ao lado, a presença marcante dos vizinhos Vicente Celestino e Gilda de Abreu. Em casa, ouvia foxes, valsas e modinhas tocadas ao piano pela mãe, Lígia, que também cantava, e ao acordeão pelo pai.

Ainda na infância, mudou-se para Ipanema, onde ganhou o apelido de “Macalé” – nome do pior jogador do time do Botafogo à época – por causa de sua irregularidade nas partidas de futebol disputadas informalmente na areia da praia. Na adolescência, formou seu primeiro grupo musical, o duo “Dois no Balanço”. Mais tarde, integrou o conjunto Fantasia de Garoto, dedicado a jazz, seresta e samba-canção.

Em 1969, participou do 4º Festival Internacional da Canção com “Gotham City”, parceria com José Carlos Capinam. A apresentação recebeu uma estrondosa vaia, mas acabou se tornando um dos acontecimentos musicais brasileiros mais célebres daquele ano. O episódio ampliou a projeção de Macalé – que, à época, ainda não usava “Jards” em seu nome artístico – e rendeu-lhe diversas entrevistas, inclusive para jornais como O Pasquim.

Além de cantor e compositor, Macalé atuou no cinema e compôs trilhas sonoras para filmes e espetáculos de teatro. Participou como ator e compositor da trilha de “O Amuleto de Ogum” e “Tenda dos Milagres”, ambos de Nelson Pereira dos Santos. Também escreveu músicas para “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade; “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, de Glauber Rocha; “A Rainha Diaba”, de Antônio Carlos Fontoura; “Se segura, malandro!”, de Hugo Carvana; e “Getúlio Vargas”, documentário de Ana Carolina.

Entre suas canções mais conhecidas estão “Vapor Barato”, “Anjo Exterminado”, “Mal Secreto”, “Movimento dos Barcos”, “Rua Real Grandeza”, “Hotel das Estrelas” e “Poema da Rosa”. Além de José Carlos Capinam, Waly Salomão, Duda Machado e Torquato Neto, Macalé teve como parceiros musicais nomes importantes como Naná Vasconcelos, Xico Chaves, Jorge Mautner, Glauber Rocha, Abel Silva, Vinícius de Morais, Fausto Nilo e Itamar Assumpção.

Suas composições foram gravadas por intérpretes como Gal Costa, em “Hotel das Estrelas”, “Mal Secreto” e “Vapor Barato”; Maria Bethânia, em “Anjo Exterminado” e “Movimento dos Barcos”; Clara Nunes, em “O mais-que-perfeito”; Camisa de Vênus e Os Brazões, ambos com “Gotham City”; e O Rappa, com “Vapor Barato”, entre outros. Embora tenha feito parcerias com Gilberto Gil e Caetano Veloso, rompeu com eles por considerar que o tropicalismo havia sido cooptado pela indústria cultural, perdendo sua independência.

Jards Macalé passou a ser chamado de “maldito” por causa de sua música experimental, de seu som distante dos padrões comerciais e de sua postura rebelde diante da ditadura e do mercado fonográfico. Suas canções misturavam rock, samba, jazz e vanguarda, contrariando a lógica das rádios comerciais da época. Além disso, alguns de seus trabalhos foram censurados ou boicotados durante o regime militar, como ocorreu no contexto de “O Banquete dos Mendigos”. Sua atitude crua e provocadora nos palcos também causava estranhamento no público e nas gravadoras.

Macalé dizia achar maravilhoso o titulo de “maldito”, comparando-se a poetas livres como o francês Baudelaire. Faleceu em 17 de novembro de 2025, aos 82 anos de idade, devido a um choque séptico e insuficiência renal seguidos por uma parada cardíaca. O músico estava internado em um hospital na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro), onde vinha tratando de um quadro de broncopneumonia e enfisema pulmonar..

Coloco-me à disposição para esclarecer dúvidas e receber sugestões de novos artigos no email candidofernandes@hotmail.com.

Cândido Luiz de Lima Fernandes é
economista e professor universitário em Belo Horizonte;
email: candidofernandes@hotmail.com





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Revista Rio Total