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Vinicius de Moraes – um artista multifacetado
Cândido Luiz de Lima Fernandes
Atendendo ao pedido de um leitor da revista Rio Total, escrevo hoje sobre o
poeta, diplomata, cantor e compositor Vinicius de Moraes. O leitor quer saber
se, além de compor, Vinicius também cantava suas canções. Sim, ele as cantava
também. Como exemplos temos “Garota de Ipanema”, que compôs com Tom Jobim; ”Samba da Bênção”, parceria com Baden Powell; “Canto de Ossanha”, parceria com
Baden Powell; “Carta ao Tom 74”, parceria com Toquinho; ”Tarde em Itapoã”,
parceria com Toquinho; “A Tonga da Mironga do Kabuletê, parceria com Toquinho;
”O Filho que Eu Quero Ter”, parceria com Toquinho; ”Onde Anda Você”, parceria
com Hermano Silva” e “Minha Namorada”, parceria com Carlos Lyra, dentre dezenas
de outras canções.
Segundo o musicólogo e jornalista brasileiro Zuza
Homem de Mello, “Pela maneira aberta como sempre recebeu jovens para dar
conselhos ou parceiros para colocar letra e música, ele foi um poeta amplo, cuja
extensa obra musical inspirou e cercou de amor, em algum momento, a mais
brasileiros do que qualquer coisa”, como está escrito na contracapa do álbum
“Testamento Vol. 2” lançado logo após a morte de Vinicius em 9 de julho de 1980.
O autor, 45 anos depois, relembra o artista multifacetado que foi Vinicius de
Moraes (1913-1980).
Amplamente reconhecido pelo trabalho realizado na
música popular brasileira, Vinicius foi antes de tudo um exímio poeta. “No poema
você tem uma liberdade de rimas e de métrica que não tem na letra de música,
porque ela está submissa a uma melodia”, afirma Zuza. Segundo ele, fazer poesia
e fazer música são coisas muito diferentes, especialmente na visão dos poetas
que até menosprezaram Vinicius por escolher esse caminho, julgando a composição
musical como inferior à poesia. “Ele já é um poeta consagrado quando começa a
fazer letras de música nos anos 1950, e na época isso foi considerado um
retrocesso.”
Na opinião do musicólogo, letras de música são até mais
trabalhosas de serem feitas, pela necessidade de acompanhar uma melodia
preestabelecida. “Mas a adaptação de Vinicius, do poema para a música, foi
extremamente rápida. Ele já começa fazendo letras sensacionais”, conta Zuza,
lembrando o ano de 1956. Nessa época, Vinicius escreve a peça “Orfeu da
Conceição”, na qual também é responsável pelas letras da trilha sonora, enquanto
Antônio Carlos Jobim se encarrega das melodias. “Essa foi a primeira experiência
daquilo que seria, em algum tempo, a chamada obra da dupla Tom e Vinicius.”
A importância da parceria na canção brasileira se deu em grande parte pela
experiência de Vinicius como poeta. A sofisticação de suas letras o colocava em
uma posição de destaque na época, segundo Zuza. “Isso se deu instantaneamente.
Na primeira parceria dos dois, eles já se colocam em um patamar de
reconhecimento que a maioria dos compositores leva anos para atingir”, afirma o
musicólogo. Daí nasce “Se Todos Fossem Iguais a Você”, a música mais famosa da
peça que inaugura o trabalho conjunto de Tom e Vinicius.
“Depois os dois
fizeram a segunda fornada, que resultou nas canções que compõem um LP
fundamental da história da canção brasileira, chamado “Canção do Amor Demais”,
diz Zuza. O disco, interpretado por Elizeth Cardoso, é composto de músicas como
“Chega de Saudade” e “Eu Não Existo Sem Você”. “Aí também foi a primeira vez que
apareceu o violão de João Gilberto, o que deu um peso importantíssimo para o
LP”, acrescenta o musicólogo. Ainda nesse disco, é possível ver canções feitas
apenas por Vinicius, que também era instrumentista, e outras apenas por Tom, que
também era letrista. Segundo Zuza, isso mostra como a dinâmica deles funcionava,
já que ambos entendiam um pouco do ramo um do outro.
Dentre as
várias características que se notam nesse disco, lançado em 1958, uma é a
magnitude da obra da dupla, que chega aí já mais amadurecida. “Algumas pessoas
qualificam esse disco como sendo o primeiro da bossa nova, mas eu discordo. Ele
tem duas faixas com o violão de João Gilberto, que depois caracterizaria o
estilo musical, mas ainda não é”, afirma o musicólogo. A parceria Tom e Vinicius
dura mais quatro anos, e apresenta outras canções de grande relevância,
incluindo “Garota de Ipanema”, apresentada em 1962 na boate Au Bon Gourmet.
“Quem estava nesse espetáculo assistiu a aquilo que havia de melhor na bossa
nova. Uma apresentação em que Vinicius, além de tudo, também cantou.”
A
parceria acaba quando Tom vai para os Estados Unidos se apresentar no Carnegie
Hall e por lá resolve ficar. Vinicius, no Brasil, começa a fazer parcerias com
outros músicos, como Carlos Lyra e Baden Powell. “A dupla com Lyra gera um outro
espetáculo chamado “Pobre Menina Rica”, em 1963”, conta Zuza. Na trilha sonora
estão músicas como “A Primavera” e “Sabe Você”. No trabalho com Baden ele vai
fazer os afro-sambas, como “Canto de Ossanha”, “Lamento de Exu” e “Bocoché”. “É
um novo Vinicius que se apresenta aqui.”
De acordo com Zuza, esse momento
mostra uma característica importante do artista, que é a de se combinar
perfeitamente com pessoas de uma geração que não é a dele. “É uma espécie de
juventude que está inserida nas letras que ele faz”, conta o musicólogo. Depois
disso, as parcerias de Vinicius começam a ser mais amplas e esporádicas, saindo
do modelo que ele seguiu com Jobim, Lyra e Baden. Até que ele se junta a
Toquinho e, além de compor, se mostra mais presente também no palco, cantando. E
essa é uma fase que perdura até praticamente o final de sua vida.”
Para o
professor Ivan Vilela, que leciona Música Popular Brasileira na Escola de
Comunicações e Artes (ECA) da USP, a grande marca de Vinicius de Moraes foi sua
transformação de uma arte mais clássica para uma mais popular. “Ele fazia parte
do corpo diplomático, então teve muito contato com pessoas desse mundo erudito.
Quando ele vai para a música, é através da parceria dele com Jobim que encontra
um tom mais coloquial”, diz Ivan. Segundo o professor, de certa forma, a música
popular e a forma em que ela é narrada acabaram modificando a forma literária de
Vinicius.
Ainda de acordo com Ivan, a carreira extremamente multifacetada
— diplomata, poeta, cantor, compositor, roteirista — fez com que Vinicius
deixasse também um extenso legado em todas essas áreas. “Mas acho que o maior
deles é essa humildade de alguém que carrega uma bagagem de saber erudito se
encantar e mergulhar nesse mundo do saber popular, conseguindo criar algo a
partir desse encontro.”
Tive a felicidade de conhecer Vinicius de Moraes.
Em 1970 estava estudando com meu colega João Heraldo em sua casa, à rua
Pirapetinga, na Serra, quando escutei a voz do poeta no andar de cima. João me
contou que Vinicius, apaixonado por Ouro Preto, vinha muito a Minas, e antes de
se dirigir a esta cidade, dava uma paradinha em Belo Horizonte para visitar dr.
Eloy e dona Lulu, pais do João. Vinicius foi lhe apresentado pelos escritores
mineiros Fernando Sabino e Hélio Pelegrino, amigos de dr. Eloy desde a juventude
(dr. Eloy foi um dos personagens do romance “O Encontro Marcado”, de Fernando
Sabino). Sua casa tinha uma adega muito sortida, que atraía muito o Vinicius,
apreciador de um bom uísque.
Fiquei pensando: – Estou na mesma casa que o
Vinicius de Moraes e não terei oportunidade de conhecê-lo? João e eu estudávamos
com o rádio ligado para ouvirmos a transmissão dos jogos do Brasil na Copa do
Mundo. Nisso, o poeta desceu a escada e veio ao andar térreo para acompanhar o
jogo que estávamos assistindo. Foi uma emoção muito grande cumprimentar o grande
poeta, compositor e diplomata. Terminado o jogo, Vinicius nos propôs sairmos com
ele para um bar. Entramos no carro de dona Lulu, com o Vinicius na direção.
Chegamos ao Teatro Marília, em cujo mezanino havia um bar frequentado por
intelectuais, o Stage Door. Passamos uma tarde agradabilíssima com o poeta, que,
muito bem humorado, contou-nos diversos casos.
Anos depois estava em
Ouro Preto com alguns amigos no Calabouço, quando o poeta chegou
para acompanhar a roda de violão que ali se apresentava. O violão era tocado por
Tavito, que acompanhou Mônica, da Rua Ramalhete, José Alberto Nemer, Cancando e
outros cantores. Quando chegou a minha vez, cantei o “Samba Saravah”, versão
francesa do “Samba da Bênção”, de Vinicius e Baden, feita por Pierre Barouh e
que fazia parte da trilha do filme “Um Homem, Uma Mulher”, de Claude Lelouch. O
poeta gostou da interpretação e as pessoas que estavam no recinto pediram bis,
ao que eu, na minha timidez de vinte e poucos anos, atendi encabulado.
Coloco-me à disposição para
esclarecer dúvidas e receber sugestões de novos artigos no email
candidofernandes@hotmail.com.
Cândido Luiz de Lima Fernandes é economista e professor universitário em
Belo Horizonte; email:
candidofernandes@hotmail.com

Direção e Editoria
Irene Serra
Revista Rio Total

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