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Cássia Eller

Cândido Luiz de Lima Fernandes
Atendendo ao pedido
de um leitor da revista Rio Total, escrevo sobre a cantora e
multi-instrumentista Cássia Eller, que teve grande sucesso na década de 1990 e
início dos anos 2000, tendo falecido em 29 de dezembro de 2001.
Cássia Rejane
Eller era filha do casal Nanci Ribeiro, dona de casa, e Altair Eller, sargento
paraquedista, que tiveram cinco filhos. Embora não tenha chegado a concluir o
segundo grau, Cássia Eller, em seus anos formativos, teve o privilégio de ser
exposta a várias culturas, dadas as mudanças na lotação de seu pai militar Por
conta do serviço do pai, que serviu em vários estados do Brasil, passou a
infância e a adolescência em diferentes cidades, como Brasília, Belo Horizonte,
Santarém e Rio de Janeiro, onde passou a adolescência no bairro do Lins de
Vasconcellos. Do Rio de Janeiro retornou para Belo Horizonte, quando decidiu
construir trajetória longe da casa de origem. Já trazia em sua bagagem ricas e
diversificadas experiências de trabalhos, seja em corais, óperas, grupos de
samba e forró, teatros, trio-elétrico e bares, cantando ou tocando.
Aos 14
anos ganhou de presente seu primeiro violão, e, aos 18, quando mudou-se para
Brasília, começou a cantar em corais e a fazer testes para musicais e óperas.
Tentou o canto lírico, porém a rígida disciplina desse estudo e sua paixão por
música popular a fizeram desistir, permanecendo somente seis meses nos estudos.
Foi garçonete, cozinheira, secretária do Ministério da Agricultura, redatora,
tradutora e ajudante de pedreiro, mas depois dessas experiências optou
definitivamente pela carreira artística. Em 1993, decidiu ter um filho e deu à
luz um menino, Francisco Ribeiro Eller (Chico Chico), fruto de uma relação com o
baixista Tavinho Fialho (falecido em acidente de carro). Oito meses depois do
nascimento do filho, já estava de volta aos palcos. Cássia era, antes de
tudo, uma mulher com as marcas do seu tempo e lugar – das lutas das mulheres por
autonomia e das pessoas então chamadas apenas como “homossexuais”, por
visibilidade e respeito.
Embora em 1997 ela fosse citada como uma artista que
se recusava a falar sobre sua sexualidade com jornalistas, em 2001 já havia
assumido publicamente sua orientação sexual e o seu relacionamento homoerótico
com Maria Eugênia Vieira Martins, sua companheira desde 1986. Tornou-se, com
isso, das raríssimas lésbicas da MPB a assumir publicamente a sua lesbianidade,
atitude inaugurada, ainda nos anos de 1970, com Leci Brandão.
Em maio de
2001, declarou em uma entrevista que “Sou mulher, sou pobre, sapatão, mãe
solteira (…). Tenho de saber lidar com o preconceito.
Em 1993, em entrevista
para a Manchete, Cássia declarou que “Eu estudei um tempo com o pessoal da
Universidade de Brasília e participei da montagem de duas óperas, uma em
Brasília e outra em Belo Horizonte”. Mas sua grande referência teria sido mesmo
os Beatles: “Quando eu tinha 13 para 14 anos os Beatles mandavam na minha vida,
eu lia e ouvia tudo deles“, contou, na mesma entrevista para a Manchete,
acrescentando que depois de conhecê-los tornou-se “uma tremenda rebelde”.
Sua
carreira artística começou em Brasília em 1981, quando participou de um
espetáculo de Oswaldo Montenegro. Nessa época, atuou também como cantora em
grupo de forró e participou do primeiro trio-elétrico de Brasília, o Massa Real,
no qual cantou por dois anos. Cantou em vários bares de Brasília, entre eles o
Bom Demais. Cantou ópera e tocou surdo em um grupo de samba e trabalhou na
noite, cantando e tocando em bares de Brasília. Todavia, somente em 1989 sua
carreira decolaria. Com a ajuda de um tio, gravou uma fita demo com a música
“Por enquanto” (Renato Russo), levada pelo tio à gravadora PolyGram. Contratada
pela gravadora, sua primeira participação em disco foi no LP “Baobab”, de Wagner
Tiso, em 1990. Nesse mesmo ano lançou o primeiro LP “Cássia Eller”, cujo maior
sucesso foi “Por enquanto”, de Renato Russo, fazendo com que o disco vendesse 60
mil cópias. Outros destaques foram as regravações de “Rubens” (Mário Manga), do
grupo “Premeditando O Breque”, uma versão reggae para “Eleanor Rigby”, dos
Beatles, “Já deu prá sentir – tutu” (Marcus Miller e Itamar Assumpção),
“Barraco” (Roberto Frejat e Jorge Salomão) “Que o Deus venha” (Roberto Frejat,
Clarice Lispector e Cazuza) “Otário” (Bocato), “O Dedo de Deus” (Mário Manga e
Arrigo Barnabé), “Não sei o que quero da vida” (Hermelino Neder e Arrigo
Barnabé) e uma composição de sua autoria, “Lullaby”, em parceria com o
brasiliense Márcio Faraco.
No ano de 1992, lançou o segundo disco “O
marginal”, que vendeu 40 mil cópias. Dentre as faixas que se destacaram estão
“Caso você queira saber” (Beto Guedes e Márcio Borges), “Sonhei que viajava com
você” (Itamar Assumpção), “Sensações” (Luiz Melodia), “Teu bem” (Paulo Barnabé)
e “Amnésia” (Cláudio Lobato e Luiz Melodia).
Apareceu como compositora no CD
“Eles”, em uma parceria com o baixista Tavinho Fialho e o letrista Luís
Pinheiro; e ainda na faixa-título “O marginal”, em parceria com os músicos
Hermelino Neder, o tecladista Zé Marcos e ainda com letra de Luís Pinheiro.
Neste mesmo ano de 1992 interpretou “Oriente” (Gilberto Gil) no songbook de
Gilberto Gil. Ainda no mesmo ano gravou com o guitarrista argentino,
naturalizado brasileiro, Victor Biglione o disco “Victor Biglione e Cássia Eller
in blues”, destacando-se o duelo blueseiro da cantora com o guitarrista em
“Mercedes Benz” (Janis Joplin e M. McClure), além de “Im your Hoochie Coochie
man” (Willie Dixon), “I aint supersticious” (Willie Dixon), “Same old blues”
(Freddie King), “When sunny gets blue” (Marvin Fisher e Jack Segal), “I ain t
got nothing but the blues” (Duke Ellington), “If six was nine” (Jimi Hendrix) e
“Got to get into my life” (Lennon e McCartney). Sobre esse disco, ainda inédito
em 2008, a escritora e poeta Beatriz Helena Ramos Amaral no livro “Cássia Eller
– Canção na voz do fogo”, lançado pela Editora Escrituras em 2002, escreveu:
“As razões pelas quais foi o álbum engavetado não são completamente conhecidas.
Muito se escreveu a respeito. Publicou-se que a gravadora não teria achado
conveniente para a carreira de Cássia, que se iniciava, o lançamento de um CD
exclusivamente de blues, o que poderia rotulá-la e afastar a possibilidade de
sua penetração cada vez maior no mercado mais popular. Escreveu-se, também, que
a objeção partira do empresário da cantora, à época Rafael Borges, por temer que
o lançamento precoce do álbum pudesse vir a confundir a imagem de Cássia no
mercado fonográfico”.
Ainda sobre o disco e a parceria inusitada do
guitarrista e a cantora em um trabalho exclusivamente de blues, Victor Biglione
declarou a repórter Regina Ricca, do Jornal da Tarde, em 18 de setembro de 1992:
“Nunca fui um guitarrista de fusion. Isso foi um rótulo que me puseram. Eu toco
guitarra, qualquer que seja o estilo, jazz, rock, mpb, blues. E a Cássia canta.
E bem. Precisa mais que isso?”.
No ano seguinte, em 1993, a cantora viria a
participar do songbook de Vinicius de Moraes, no qual cantou em dueto com Nelson
Faria a faixa “Garota de Ipanema”, de Tom e Vinicius.
Em 1994, no disco
“Cássia Eler”, interpretou “Malandragem”, de Frejat e Cazuza, faixa que se
tornou um dos maiores sucessos da cantora. A música havia sido feita pela dupla
Frejat e Cazuza para Angela Rorô anos antes, contudo, os compositores acharam
que também era a “cara” de Cássia Eller e a ofereceram à cantora que prontamente
a tornou em um grande sucesso, fazendo com que sua carreira desse um salto e as
vendagens desse trabalho chegassem a 160.000 cópias. Outras músicas também foram
responsáveis por sua projeção nacional, destacando-se “E.C.T.” (Carlinhos Brown,
Marisa Monte e Nando Reis), “1º de Julho” (Renato Russo), “Na cadência do samba”
(Paulo Gesta e Ataulfo Alves), “Lanterna dos afogados” (Herbert Vianna), “Coroné
Antônio Bento” (Luiz Wanderley e João do Vale), “Metrô linha 743” (Raul Seixas),
“Socorro” (Arnaldo Antunes e Alice Ruiz), “Música urbana” (Renato Russo) e
“Pétala”, de Djavan, sendo considerado este disco, um dos mais trabalhados na
carreira da cantora.
Ainda em 1994 fez dueto com Marco Pereira na faixa
“Dora” (Dorival Caymmi) no songbook de Dorival Caymmi. Neste mesmo ano cantou
“Saudade de um samba” (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes) no songbook de Carlos
Lyra. No ano posterior, em 1995, interpretou “Blues da piedade” (Frejat e
Cazuza) na coletânea “Som Brasil Cazuza”.
Em seu primeiro disco ao vivo, de
1996, resultado de shows no Rio de Janeiro e em São Paulo, interpretou músicas
de Cazuza, Rita Lee e Lobão, já mostrando uma tendência para o pop-rock
brasileiro. Entre as novas faixas do CD destacaram-se “Eu sou neguinha” (Caetano
Veloso), “Nós” (Tião Carvalho) e “Música urbana II”, de Renato Russo, todas
muito executadas na época, além das regravações de “E.C.T.”, “Coroné Antônio
Bento”, “Socorro” e “Na cadência do samba”, entre outros sucessos anteriores.
Com esse trabalho atingiu a marca de 180 mil cópias vendidas.
Em “Veneno
antimonotonia”, de 1997, composto apenas por músicas de Cazuza (e parceiros)
vendeu 120.000 cópias. Do disco fizeram parte “Brasil”, “Blues da Piedade”,
“Obrigado”, “Menina mimada”, “Todo amor que houver nessa vida”, “Billy Negão”,
“Bete Balanço”, “A orelha de Eurídice”, “Só as mães são felizes”, “Ponto fraco”,
“Por que a gente é assim?”, “Preciso dizer que te amo”, “Mal nenhum” e “Pro dia
nascer feliz”. No ano seguinte foi convidada para abrir os dois shows da turnê
brasileira dos Rolling Stones. Nesse mesmo ano lançou o segundo disco ao vivo:
“Veneno vivo”, disco que vendeu somente 50 mil cópias, destacando-se apenas as
faixas “Amor destrambelhado” (Márcio Mello), “Vida bandida” (Lobão e Bernardo
Vilhena), “Geração Coca-cola” (Renato Russo) e “Eu queria ser Cássia Eller”, de
Péricles Cavalcanti. Ainda em 1998 participou do disco “Acústico Rita Lee” no
qual interpretou em dueto com a anfitriã a música “Doce vampiro” (Rita Lee).
Neste mesmo ano interpretou “Malandragem” (Frejat e Cazuza) na coletânea
“Codinome Cazuza” e ainda “Não deixe o samba morrer” (Édson e Aloísio), em dueto
com Alcione, no disco “Celebração”, de Alcione.
No ano de 1999 lançou o CD
“Com você… Meu mundo ficaria completo”, produzido por Nando Reis e do qual se
destacaram “O segundo sol” (Nando Reis), “Maluca” do compositor niteroiense Luís
Capucho e ainda “Gatas extraordinárias” de autoria de Caetano Veloso. O disco
deu uma virada na carreira da cantora e chegou à marca de 110 mil cópias
vendidas logo nos primeiros meses. Também foram muito executadas na época as
faixas “Meu mundo ficaria completo com você” (Nando Reis), “Palavras ao vento”
(Marisa Monte e Moraes Moreira) e “Esse filme eu já vi”, de Renato Piau e Luiz
Melodia).
No ano seguinte, em 2000, participou como convidada do disco
“Momentos que marcam demais”, de Sandra de Sá, interpretando com ela a canção
“Um tiro no coração”, de Nando Reis e ainda do disco do Sítio do Picapau
Amarelo, gravando o tema da personagem Cuca “A Cuca te pega” de autoria de Dori
Caymmi e Geraldo Casé. Neste mesmo ano, ao lado de Martinho da Vila, Leila
Pinheiro, Leci Brandão, Caetano Veloso, Walter Alfaiate, Ivete Sangalo, Jorge
Aragão, Zeca Pagodinho, João Bosco e Dudu Nobre, entre muitos outros, participou
do disco “Casa de samba 4”, produzido por Rildo Hora. Neste CD interpretou “Você
passa, eu acho graça” (Ataulfo Alves e Carlos Imperial) em dueto com o cantor
Noite Ilustrada. Por essa época, gravou com Luiz Melodia “Juventude transviada”
(Luiz Melodia). Apresentou-se no “Rock In Rio III”, num show em que baião, samba
e clássicos da MPB foram cantados em ritmo de rock. Na apresentação, mostrou os
seios à platéia e saiu ovacionada do palco.
Em 2001, nos antigos estúdios da
Rede Manchete na Vila Leopoldina, em São Paulo, gravou o disco “Acústico MTV”, o
terceiro disco ao vivo de sua carreira. Com produção do titã Nando Reis e do
guitarrista Luiz Brasil, a cantora fez uma releitura de alguns seus sucesso
“ECT” (Carlinhos Brown, Marisa Monte e Nando Reis); “Malandragem” (Frejat e
Cazuza); “Por enquanto” (Renato Russo); “Todo amor que houver nessa vida”
(Frejat e Cazuza), “O segundo sol” (Nando Reis); “Nós” (Tião Carvalho) e incluiu
novas como “Vá morar com o diabo” do compositor baiano Riachão; “Queremos saber”
(Gilberto Gil); “Partido alto” (Chico Buarque) e “Top, top” (Mutantes e
Liminha), além de regravações como “Primeiro de julho”, composta para ela por
Renato Russo e ainda “Relicário” (Nando Reis). O disco ainda contou com as
participações do rapper paulista Xis na faixa “Da esquina” (Xis) e de três
integrantes do grupo Nação Zumbi na faixa “Quando a maré encher” (Fábio Trummer,
Roger Man e Bernardo Chopinho). O CD vendeu inicialmente 500 mil cópias. Ainda
em 2001, apresentou-se no “Projeto Luz do Solo”, no ATL Hall, gravando seu
quarto disco ao vivo no qual foram incluídas “Doce mar” (Arnaldo Antunes e
Carlinhos Brown), “Socorro” (Arnaldo Antunes e Alice Ruiz), “Espaço” (Vítor
Ramil) e “Vila do Sossego”, de autoria de Zé Ramalho, entre outras, sendo o CD e
DVD lançado após a sua morte. Ao lado de Lobão, Gilberto Gil, Nando Reis, Moska,
Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Celso Fonseca, Arnaldo Baptista, Andreas Kisser
(Sepultura), Charles Gavin e João Barone, participou do disco-tributo “Dê uma
chance à paz – John Lennon, uma homenagem”, no qual interpretou “Woman is the
nigger of the world”. Convidada por Djavan, participou do CD “Milagreiro”, no
qual interpretou com o cantor e compositor a faixa-título “Milagreiro” (Djavan e
Flávia Virgínia). Ainda neste ano, em dueto com Guilherme de Brito, interpretou
“Erva daninha” (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) no disco “Samba
guardado”, de Guilherme de Brito e ainda participou da trilha sonora do filme
“Bufo & Spallanzani”, composta por Dado Villa-Lobos, na qual interpretou a faixa
“Bufo & Spallanzani: dentro de ti”, de Humberto Effe e Dado Villa-Lobos. Em
setembro de 2001, participou ao lado das bandas Cidade Negra, Jota Quest,
Garotos da Praia, Superfly, Casaca e O Surto do 1º Vitória Pop Rock, no Espírito
Santo. Nesse mesmo ano, participou do festival Pop Rock Brasil em Belo
Horizonte, que foi lançado em CD e no qual foi incluída sua interpretação para
“Bichos escrotos” (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Nando Reis), sucesso do
grupo Titãs. Entre maio e dezembro de 2001 a cantora fez 95 shows. Em dezembro
iria se apresentar na Praça do Ó, na Barra da Tijuca, nas comemorações do
réveillion, sendo substituída pela cantora Luciana Mello, em virtude de sua
morte repentina. Houve um minuto de silêncio em vários pontos do Rio de Janeiro
durante a comemoração da passagem do ano. Vários artistas prestaram homenagem à
cantora em seus shows na virada do ano.
Durante o ano de 2002, a gravadora
PolyGram lançou alguns títulos de um pacote com diversas gravações da cantora.
São músicas (quase duas horas de out-takes) que não foram aproveitadas em discos
anteriores. Um dos primeiros discos desse pacote lançado foi “Cássia Eller e
convidados”, CD que traz a participação de diversos artistas em faixas
recolhidas em participações especiais da cantora. Entre os artistas estão
Djavan, Xis, Nando Reis e Alcione. Ainda em 2002, a faixa “Juventude transviada”
interpretada em dueto com Luiz Melodia, foi incluída no CD “Os melhores do ano
III”, coletânea da gravadora Índie Records. Neste mesmo ano, o ex-Titã Nando
Reis produziu o CD “Dez de dezembro” com 11 gravações inéditas da cantora
(sobras de estúdio). No disco foram incluídas “Fiz o que pude”, “All star”, “No
recreio” e “Nenhum Roberto”, as quatro de autoria de Nando Reis, além de “Vila
do Sossego” (Zé Ramalho), “Júlia” (The Beatles), “Eu sou neguinha” (Caetano
Veloso), “Só se for a dois” (Cazuza) e “Little wing” (Jimi Hendrix). O CD ainda
trouxe participações especiais: Zélia Duncan em “Get back”, retirada do
repertório dos Beatles; Bi Ribeiro e João Barone (baixo e bateria), Fabão em
“Nada vai mudar isso” e Gilberto Gil em “Fiz o que pude”. Foi lançada a
coletânea “Houve uma vez dois verões”, com temas gravados para cinema, na qual
aparece a regravação de “Born to cry” (Nasci para chorar), versão feita por
Erasmo Carlos. Neste mesmo ano de 2002 foi lançado o ensaio biográfico “Cássia
Eller – Canção na voz do fogo”, de Beatriz Helena Ramos Amaral, pela Escrituras
Editora.
No ano de 2003 Lucinha Araújo recebeu em seu nome os prêmios de
“Melhor Cantora Pop-Rock” e “Cantora” (pelo voto popular) no “Prêmio Tim de
Música”, no teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Cássia Eller havia declarado
em entrevista o desejo de deixar estabelecido tanto os direitos de Eugênia
quanto a vontade de que, em caso de alguma eventualidade, a guarda do filho
Chico Chico ficasse com ela. Mas não o fez. Em 2001, iria participar da festa de
réveillon na Barra da Tijuca na virada do ano, mas no dia 29 de dezembro foi
internada na Clínica Santa Maria, em Laranjeiras com intoxicação exógena e após
três paradas cardíacas e veio a falecer neste mesmo dia, numa emergência
cardiológica (ela era cardiopata). Na imprensa, apressadas e irresponsáveis
afirmações de que teria sido por uso de drogas. Porém Cássia já estava em
abstinência de álcool e drogas. Havia se submetido a anos de tratamento, após
reconhecer o que amigos e Eugênia advertiam: estava destruindo sua vida e
carreira. Eugênia recorreu ao Judiciário para provar a causa da morte. E
conseguiu: não foram encontrados quaisquer vestígios de droga ou álcool na urina
ou vísceras dela, disse o laudo pericial do Instituto Médico Legal. Mas não
havia feito o testamento ou a escritura de contrato de parceria civil.
Foi
sepultada no cemitério Jardim da Saudade, no bairro de Sulacap, no Rio de
Janeiro. Deixou o filho Francisco Ribeiro Eller (Chico Chico) e Maria Eugênia
Viera Martins, companheira de 14 anos de convivência e com quem pretendia se
casar, como declarou em entrevista à revista Marie Claire, caso o projeto de lei
de reconhecimento de união civil de homossexuais fosse aceito no Congresso
Nacional. A guarda provisória de Francisco Ribeiro Eller foi dada à Maria
Eugênia. Após disputa com Altair Eller, pai da cantora, Maria Eugênia, ganhou a
guarda definitiva do menino, transformando-se em caso único na justiça
brasileira.
Seu pai havia ajuizado pedido de guarda do neto, ignorando
completamente os vínculos afetivos consolidados entre a mãe Eugênia e a criança,
então com oito anos de idade. A classe artística, a mãe, os irmãos de Cássia
Eller e o movimento LGBT, se solidarizaram com Eugênia. Destacavam os laços
construídos entre Chico Chico e Eugênia, também mãe, desde a gestação. A
repercussão do caso fez com que a sociedade brasileira enfrentasse a discussão
sobre o necessário reconhecimento dos direitos das conjugalidades homoafetivas.
Em 31 de outubro de 2002, o juiz Luiz Felipe Francisco, da 2ª Vara de Órfãos e
Sucessões da Capital do RJ, encerrou o caso. Após ouvir a criança, conseguiu que
o avô concordasse na fixação da tutela de Francisco Ribeiro Eller (nome
artístico Chico Chico) para Maria Eugênia. Ao avô foi garantido o direito de
visitá-lo duas vezes no ano.
Somente em maio de 2011, em decorrência de ação
ajuizada pelo governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, por
iniciativa de Carlos Tufvesson (ADPF 132, encampada posteriormente pela ADI nº
4.277), o STF reconheceu a isonomia entre as conjugalidades homo e
heterossexuais. O efeito de tal reconhecimento era, conforme determinação
constitucional, o mesmo tratamento jurídico prescrito para as uniões estáveis
heterossexuais. Isto é, o dever de o estado facilitar a sua conversão em
casamento. Como vários cartórios se recusassem a cumprir a sentença, o CNJ, por
provocação de entidades do movimento LGBT, baixou, em 2013, Resolução
determinando o cumprimento integral dos efeitos da sentença, em todo território
nacional (Resolução n. 175/2013).
Em 2013, segunda a produtora
cinematográfica Carolina Castro, foram iniciadas as filmagens do documentário em
longa metragem “Cássia”, de Paulo Henrique Fontenelle. Neste mesmo ano de 2013
começaram os ensaios do espetáculo “Cássia Eller, O Musical”, com direção de
Ernesto Piccolo, roteiro de Patrícia Andrade, produção de Gustavo Nunes e
direção musical de Lan Lan.
Em Brasília, seu nome foi dado à Sala Funarte,
como homenagem a uma das cantoras mais conhecidas da cidade.
No ano de 2025
foi lançado o volume intitulado “Eu Queria Ser Cássia Eller – Uma Biografia”, do
jornalista Tom Cardoso, pela Editora Harper Collins.
No livro foi traçada a
trajetória da cantora desde a infância no Rio e em Belo Horizonte até o
estrelato nacional, incluindo depoimentos de familiares, amigos e parceiros de
trabalho.
Do prefácio de Maria Eugenia Vieira Martins, destacamos o seguinte
trecho: “O livro Eu queria ser Cássia Eller apresenta ao leitor a deusa que
encarnou nessa terra entre os anos de 1962 e 2001. Um abalo sísmico na vida de
todos que conviveram e que se encantaram por ela. A menina tímida, a filha, a
ovelha negra da família, a lésbica, a amante, a mãe, a cantora, a amiga, tudo
junto e misturado.”
Em 2011 a gravadora Universal Music, em homenagem à
cantora pelos 10 anos de falecimento e 50 de nascimento, lançou a coletânea
“Relicário”, integrada somente por músicas que a cantora interpretou de autoria
de Nando Reis, incluindo três composições inéditas como “Baby love”, “Um tiro no
coração” e “As coisas tão mais lindas”, as duas últimas interpretadas em dueto
por Cássia Eller e Nando Reis. O disco foi produzido por Nando Reis e Fellipe
Cambraia, contando ainda com a percussão de Chicão, filho da cantora. Ainda em
2011 a gravadora Universal Music lançou uma caixa com nove CDs e um DVD que
abrangem toda a obra da cantora na gravadora. Dois anos depois, em 2013, seu
filho Francisco Eller, também conhecido como Chico Chico, administrador do
acervo da mãe, deu início à produção e lançamento de vários trabalhos da
cantora, entre os quais o CD e DVD “Do lado do avesso” (coproduzido pelo músico
Rodrigo Garcia) com a gravação de sua apresentação, em 2001, no ATL Hall (depois
Citibank Hall) no projeto “A Luz do Solo”, espetáculo no qual a cantora
apresentou-se apenas acompanhada por seu violão e interpretou as composições
“Eleanor Rigby” (Beatles), “Cherokee Louise” (Joni Mitchel), “Gatas
extraordinárias” (Caetano Veloso), “Doce do mar” (Carlinhos Brown e Arnaldo
Antunes), “All Star” e “Luz dos olhos” (ambas de Nando Reis), “Primeiro de
julho” (Renato Russo), “I aint got nothing but the blues” (Duke Ellinton”,
“Relicáro” (Nando Reis), “Maluca” “Rubens”, “Queremos saber”, “Vila do Sossego”
(Zé Ramalho), “Espaço” (Vitor Ramil), “Diamante verdadeiro” (Caetano Veloso) e a
inédita, a faixa-título “Do lado do avesso”, música instrumental de autoria da
cantora. Em apenas uma faixa deste trabalho, “Youve changed”, foi acompanhada
pelo saxofone de Fábio Meneghesso. Neste mesmo ano de 2013 Chicão Eller e
Rodrigo Garcia também produziram o single “Flor do sol”, com a composição
homônima escrita por Cássia Eller, aos 19 anos de idade, em parceria com a
letrista Simome Saback. Na faixa a dupla de produtores mantiveram o violão e a
voz da cantora, anteriormente gravados em cassete pela parceira Simone Saback,
mas, adicionaram vários outros instrumentos: Chicão Eller (violão), Miguel Dias
(baixo – filho da flautista e amiga Andréa Ernest), Lan Lan (percussão),
Waltinho Villaça (guitarra), Alex Merlino (bateria), Jander Ribeiro (viola
caipira) e Jussara Silveira e Júlia Vargas (vozes), além de Rodrigo Garcia ao
violão. O single é o primeiro trabalho da cantora lançado pelo selo musical
Porangareté, criado por Chicão e Rodrigo para lançar os trabalhos da cantora,
tais como um CD e DVD, inéditos, com uma apresentação ao vivo, no Circo Voador,
no ano de 1993. Também finalizado em 2013 o CD “Cássia em Brasília” (Selo
Porangareté) com gravações dos primeiros anos da cantora quando ainda residia na
capital brasileira. Ainda em 2013, do baú artístico da cantora, está para ser
lançado pelo mais um disco inédito, o CD “Victor Biglione e Cássia Eller in
blues: If Six Was Nine”, gravado em 1992 com sete faixas nas quais a cantora
interpretou Jimi Hendrix, Jimmy Page, Beatles, Willie Dixon e Duke Ellngton,
entre outros, acompanhada pela guitarra de Victor Biglione.
No ano de 2015
estreou o espetáculo “Cássia Eller – O Musical”, no Teatro Clara Nunes, no
Shopping da Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O papel principal ficou por
conta da cantora e atriz curitibana Tacy de Campos, escolhida entre mais de mil
candidatas para audição. Neste mesmo ano foi lançado o longa-metragem “Cássia”,
documentário no qual o diretor Paulo Henrique Fontenelle reuniu imagens caseiras
e do início da carreira da cantora em bares e pequenas apresentações, além de
atuações como atriz e cantora de trio elétrico de Brasília.
Durante a
carreira de 11 anos como cantora lançou oito discos, sendo três ao vivo. Seu
derradeiro CD “Acústico MTV” contabilizou em 2005 a vendagem de 900 mil discos
vendidos.
No ano de 2019 a gravadora Universal Music lançou o CD “Todo veneno
vivo”, disco inédito gravado em show no Teatro Rival, no Rio de Janeiro, em
1997, dirigido e produzido pelo poeta Waly Salomão. No CD, com 24 faixas, a
cantora interpretou no referido espetáculo dez composições em versões inéditas
de seu disco “Veneno vivo”, inclusive, faixas que não entram neste trabalho
lançado pela gravadora em 1998, tais como “Bete Balanço” (Frejat e Cazuza),
“Blues da Piedade” (Frejat e Cazuza) e “1º de julho” (Renato Russo), além de
declamar trechos do poema “Querido diário – tópicos para uma semana utópica”, de
Cazuza. Também interpretou, com outros arranjos, as composições “Por que a gente
é assim?” (Frejat, Ezequiel Neves e Cazuza); “Mal nenhum” (Lobão e Cazuza); “Pro
dia nascer feliz” (Frejat e Cazuza); “Só as mães são felizes” (Frejat e Cazuza);
“Ponto fraco” (Cazuza); Billy Negão” (Cazuza); “Geração Coca-Cola” (Renato
Russo); “Vida bandida” (Lobão e Bernardo Vilhena); “Farrapo humano” (Luiz
Melodia); “A orelha de Eurídice” (Cazuza); “Menina mimada” (Cazuza); “Preciso
dizer que te amo” (Cazuza, Dé e Bebel Gilberto); “Todas as mulheres do mundo”
(Rita Lee) e “Mis penas lloraba yo”, do cantor e compositor espanhol Camarón de
La Isla.
Em dezembro de 2021, marcando os 20 anos da morte de Cassia Eller,
Chico Chico (filho de Cassia), Nando Reis e Lan Lahn fizeram um tributo à
cantora durante o prêmio Multishow. O filho cantou a música autoral “Mãe”, que
fez arte de seu álbum “Pomares”. Nando Reis e Lan Lanh tocaram a música “All
Star”. Ainda em 2021, a partir de um registro em K7 da voz da cantora, foi
lançada a faixa inédita “Espírito do som” (Péricles Cavalcanti/Chico
Evangelista), produzida por Chico Chico, Rodrigo Garcia e Pedro Fonseca. Em
julho de 2022 foi lançado o projeto “Cássia Reggae”. O álbum, que tem músicas do
repertório de Cássia Eller em ritmo de reggae, foi lançado em celebração aos 60
anos da cantora que seriam completados em dezembro do mesmo ano. O trabalho tem
a participação de Nando Reis cantando “Lanterna dos Afogados”; Gilberto Gil em
“O Segundo sol”; Chico Chico e Jorge Du Peixe em “Coroné Antônio Bento”; Lan
Lanh e Marcio Mello em “Amor Destrambelhado”; Toni Garrido em “Palavras ao
Vento”; Margareth Menezes e Maestro Tiquinho em “Malandragem” e Zé Ricardo em
“Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você)”. O projeto foi produzido por Sergio
Fouad e Fernando Nunes para a Universal Music. A música escolhida para promover
o álbum foi “Segundo Sol” cantada por Gilberto Gil.
Em dezembro de 2022, nos
60 anos de Cássia Eller, foi lançado, nas plataformas digitais, o álbum “Cássia
Eller e Victor Biglione in Blues”, com regravações de clássicos do blues e do
rock. O trabalho foi gravado em 1991 mas não havia sido lançado. O projeto foi
criado por Biglione, que selecionou o repertório e, por sugestão da produtora
Ligia Alcantarino, chamou a então iniciante Cássia Eller para ser a voz. Na
época o disco não saiu, mas a dupla fez alguns shows com o repertório no Circo
Voador e no Free Jazz Festival de 1992 na mesma noite de Albert King e Robben
Ford. As dez faixas incluídas no ábum foram “I’m Your Hoochie Coochie Man”; “Got
to Get You Into My Life”; “Same Old Blues”; “When Sunny Gets Blue”; “Blues
Medley II”( “Oh, Well, Quadrant”, “Lazy”); “If Six Was Nine”; “Prison Blues”; “I
Ain’t Superstitious”; “I Ain’t Got Nothing But the Blues” e “Blues Medley I” (
“Need Your Love So Bad”/ “You Shook Me”/”The Flash Door”). Os músicos que
tocaram no disco foram André Gomes (baixo elétrico), André Tandeta (bateria),
Marcos Nimrichter (órgão, Ricardo Leão (teclados) e Nico Assumpção (baixo
acústico), Zé Nogueira (sax alto e soprano), Zé Carlos Ramos, o Bigorna (sax
alto), Chico Sá (sax tenor), Bidinho (trompete) e Serginho Trombone (trombone). A
captação, mixagem e masterização foram feitas por Sérgio Murilo. A masterização
nos parâmetros técnicos de execução nas plataformas de streaming foi feita por
Ricardo Garcia.
Ganhou, postumamente, com o álbum “Cássia Eller & Victor
Biglione in Blues”, feito em parceria com Victor Biglione, o prêmio na categoria
Melhor Lançamento em Língua Estrangeira na edição de 2023 do “Prêmio da Música
Brasileira”.
Cândido Luiz de Lima Fernandes é economista e professor universitário em
Belo Horizonte; email:
candidofernandes@hotmail.com

Direção e Editoria
Irene Serra
Revista Rio Total

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