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Fafá de Belém

Cândido Luiz de Lima Fernandes
Fafá de Belém, nome artístico de Maria de Fátima Palha de Figueiredo é
uma cantora, compositora, atriz e multi-instrumentista luso-brasileira. É
considerada uma das principais cantoras da Música Popular Brasileira (MPB), com
trinta álbuns gravados e quinze milhões de discos vendidos. Seus estilos
musicais incluem o fado, o sertanejo e a música romântica.
Fafá nasceu
em 9 de agosto de 1956 no município brasileiro de Belém, capital do estado do
Pará, filha do advogado e bancário Joaquim Oliveira Figueiredo, filho de
imigrantes portugueses de Vouzela e Castelo de Paiva, e da dona de casa Eneida
Moreira Palha de Figueiredo, filha de um belenense e uma imigrante portuguesa de
Ponta Delgada. Assim Fafá adquiriu a nacionalidade portuguesa em 2011. É irmã de
Sérgio e Nelson Palha de Figueiredo.
Durante a infância, destacava-se nas
reuniões familiares por conta de sua voz afinada, mesmo não sonhando em ser
cantora, mas sempre fazia apresentações familiares. Dos seis/sete anos de idade
até os nove anos, residiu em São Paulo, retornando em seguida para sua cidade
natal. Em sua formação acadêmica, parte da juventude estudou no Colégio Gentil
Bittencourt.
Em 1970, quando tinha 14 anos sua família se mudou para o
Rio de Janeiro, época em que sua casa "virou um lugar de encontro de música e
músicos". Em 1973, voltou novamente para Belém. Nessa fase, fugia de casa com
amigos para se apresentar em saraus e serestas. Conforme afirmou posteriormente,
pretendia ser psicóloga, pois desejava saber "como as pessoas funcionam e como
determinados mecanismos desencadeiam sobre a gente sem que a gente queira ou
tenha controle sobre eles." No entanto, aos dezesseis anos de idade, iniciou sua
carreira artística ao conhecer o produtor baiano Roberto Santana, (da
Philips/PolyGram responsável por artistas como Caetano Veloso, Maria Bethânia,
Gal Costa, Quinteto Violado, Alcione, Emílio Santiago, etc.) que a aconselhou a
investir na carreira fonográfica.
Em 1973, estreou como atriz no musical
“Tem Muita Goma no meu Tacacá”, que satirizou o cenário político da época, no
principal teatro de Belém, o Theatro da Paz. Em 1974, participou da peça “Os
Sete Gatinhos”. Em 1975, estreou sua carreira como cantora ao assinar com a
Polydor Records e lançar seu primeiro sucesso, “Filho da Bahia” (Walter
Queiroz). A canção, gravada exclusivamente para a trilha sonora da novela global
“Gabriela”, também originou um clipe no programa “Fantástico”, da mesma
emissora. Na mesma época lançou o primeiro compacto, que continha as canções
“Naturalmente” (de Caetano Veloso e João Donato) e “Emoriô” (de Gilberto Gil e
João Donato).
Em 1976, lançou o primeiro disco, “Tamba-Tajá”, pela
gravadora Polydor, com um repertório eclético, mas essencialmente brasileiro e
que trouxe a cantora ainda muito ligada às suas raízes nortistas. No repertório,
destaque, dentre outras canções para os forrós “Haragana” (Quico Castro Neves) e
“Xamego” (Luiz Gonzaga e Miguel Lima), as modinhas “Pode Entrar” (Walter
Queiroz), a faixa-título (Waldemar Henrique) e o carimbó “Este Rio é Minha Rua”
(Paulo André e Ruy Barata). O álbum, que obteve excelente aceitação de crítica e
público, arrebatou críticos como o normalmente exigente José Ramos Tinhorão,
colunista do “Jornal do Brasil”, que a apontou como uma das melhores cantoras
daquela geração.
Em 1977, produziu seu segundo álbum, denominado “Água”,
que vendeu mais de cem mil cópias. O álbum a consagrou como cantora
nacionalmente, produzindo vários sucessos, dentre os quais a regravação do
clássico “Ontem ao Luar” (de autoria de Catulo da Paixão Cearense e Pedro
Alcântara), “Raça” e “Sedução” (ambas de autoria da dupla Milton Nascimento e
Fernando Brant), e “Foi assim” e “Pauapixuna” (ambas dos compositores paraenses
Paulo André e Ruy Barata).
Em 1978, foi publicado o álbum “Banho de
Cheiro”, com destaque, dentre outras, para “Dentro de Mim Mora um Anjo” (Sueli
Costa e Cacaso), “ Maria Solidária” (Milton Nascimento e Fernando Brant) e “Moça
do Mar” (Octávio Burnier e Ivan Wrigg). Em 1979, lançou seu maior sucesso até
hoje, a canção “Sob medida” (Chico Buarque). Esta canção integrou o repertório
de um dos discos considerados melhores em sua carreira: o eclético “Estrela
radiante”, onde se alternou entre canções regionais e urbanas. Outro grande
sucesso deste disco foi a faixa-título, de autoria de Walter Queiroz.
Em
1980, Fafá participou do especial “Mulher 80” (Rede Globo), em um momento
marcante da televisão. O programa exibiu uma série de entrevistas e musicais
cujo tema era a mulher e a discussão do papel feminino na sociedade, abordando
esta temática no contexto da música nacional e da inegável preponderância das
vozes femininas, com Maria Bethânia, Fafá de Belém, Zezé Motta, Marina Lima,
Simone, Rita Lee, Joanna, Elis Regina, Gal Costa e as participações especiais
das atrizes Regina Duarte e Narjara Turetta, que protagonizaram o seriado “Malu
Mulher”.
Também em 1980, lançou o disco “Crença”, com destaque para a
faixa-título (de Milton Nascimento e Márcio Borges), as canções “Sexto sentido”
(Beto Fogaça e Hermes Aquino), “Bicho homem” (Milton Nascimento e Fernando
Brant), “Carrinho de linha” (Walter Queiroz), “Me disseram” (Joyce) e “Para um
amor no Recife” (Paulinho da Viola). Em 1982, do disco “Essencial” (faixa-título
de Joyce), Fafá se tornou famosa pela interpretação de duas canções: “Bilhete”
(Ivan Lins e Vitor Martins), da trilha da novela “Sol de Verão” de Manoel
Carlos, e “Nos bailes da vida” (Milton Nascimento e Fernando Brant).
Em 5
de março de 1981, Fafá de Belém deu à luz sua única filha, Mariana Belém,
nascida do relacionamento com saxofonista Raul Mascarenhas – com quem nunca
chegou a se casar. Com pouco tempo de namoro, Fafá engravidou, e eles foram
viver juntos, mas poucos meses após o nascimento da filha, se separaram. Se
tornou avó da Laura em 2011 e da Julia, em 2016.
Durante a campanha pelas
Diretas-Já, Fafá participou ativamente dos comícios. Se apresentou gratuitamente
em passeatas e comícios, cantando “O Menestrel das Alagoas”, em homenagem a
Teotônio Vilela, e o Hino Nacional Brasileiro. “O Menestrel das Alagoas” foi
lançado em 1983 no seu álbum intitulado “Fafá de Belém” e o Hino Nacional
Brasileiro, lançado em 1985 no álbum “Aprendizes da Esperança”. Durante a
campanha pelas eleições diretas, no final de suas apresentações, Fafá soltava
uma pomba branca, gesto que se tornou símbolo do movimento e a transformou na
"musa" das Diretas Já.
Em 1984 transferiu-se para a independente Som
Livre; o disco que marca sua estreia na nova gravadora leva seu nome. No
repertório deste, destaque para as canções “O Menestrel das Alagoas” (Milton
Nascimento e Fernando Brant), composta em homenagem ao senador Teotônio Vilela,
falecido naquele mesmo ano, e ainda “Você em minha vida” (Roberto e Erasmo
Carlos), “Aconteceu você” (Guilherme Arantes) e “Promessas” (Tom Jobim e Newton
Mendonça). Esta última foi o tema de abertura da última novela de Janete Clair,
“Eu Prometo”.
No decorrer de sua carreira, Fafá de Belém recebeu
avaliações mistas da crítica diante dos trabalhos que variavam dos gêneros mais
popularescos, incluindo a canção romântica e o sertanejo, a outros mais
respeitados, como o fado e a MPB. Na segunda metade dos anos 1980, adicionou ao
repertório músicas relacionadas com os estilos carimbó, siriá, lambada, brega e
guarânia. Alheia às críticas, emplacou um sucesso atrás do outro. Nesse caminho
prosseguiu com “Atrevida” (1986), que vendeu mais de 500 mil cópias graças ao
sucesso da canção “Memórias” (Leonardo Sullivan).
Em 1987, veio “Grandes
Amores”, cujo maior sucesso foi a canção “Meu Dilema” (Michael Sullivan e
Leonardo Sullivan). No ano seguinte voltou à Polygram, onde lançou o também
criticado “Sozinha”, com destaque para “Meu Disfarce” (Chico Roque e Carlos
Colla). Valendo-se ainda do filão engajado da pós-ditadura e feminismo, cantou,
ainda que com uma participação individual diminuta, no coro da versão brasileira
de “We Are the World”. Participou do projeto “Nordeste Já” (1987), que procurou
angariar fundos para combater a enchente que se abatera sobre a região, unindo
155 vozes num compacto, de criação coletiva, com as canções “Chega de Mágoa” e
“Seca d’Água”. Elogiado pela competência das interpretações individuais, o
compacto foi, no entanto, criticado pela incapacidade de harmonizar as vozes e o
enquadramento de cada uma delas no coro.
Em 1989, assinou com a gravadora
BMG, que lançou o álbum “Fafá”, o qual englobou as lambadas “Chorando se Foi” e
“Conversa Bonita” (Chico Roque e Carlos Colla, os sucessos românticos “Nuvem de
Lágrimas” (Paulo Debétio e Resende) e “Amor Cigano” (Michael Sullivan e Paulo
Massadas) e ainda “Coração do Agreste” (Moacir Luz e Aldir Blanc), canção que
integrou a trilha da telenovela “Tieta”.
Em 1991, publicou o álbum “Doces
Palavras”, com destaque para “Águas Passadas” e “Coração Xonado”. A versão deste
em CD trouxe três faixas-bônus, “Eu Daria Minha Vida” (Martinha), “A Luz é Minha
Voz” e “Dê uma Chance ao Coração” (Michael Sullivan e Paulo Massadas). Estas não
haviam entrado no LP original por problemas de espaço. Em 1990, foi lançada a
faixa “Saudade de Portugal” e Fafá foi compositora ao lado de Ed Wilson no LP
“Trem da Alegria”, com a participação especial de Gugu Liberato. Em 1992, gravou
em Portugal o disco “Meu Fado.” Seguem-se os discos “Do Fundo do Meu Coração”
(1993), “Cantiga Pra Ninar Meu Namorado” (1994) e “Pássaro Sonhador” (1996), que
foi um grande sucesso em Portugal. Em 1998, lançou o álbum “Coração Brasileiro”.
Na década de 2000, lançou “Maria de Fátima Palha Figueiredo” (2000), que
trouxe diversas canções consagradas românticas da MPB, bem como as regravações
de “Meu nome é ninguém” (Haroldo Barbosa e Luiz Reis), “Foi assim” e “Sob
medida”. Depois, lançou “Piano e voz” (2002), na mesma linha de “Fafá ao vivo”,
“Fafá de Belém do Pará - O Canto das águas” (2003), que trouxe um repertório
essencialmente brasileiro, destacando culturas nortistas onde todas as canções
são de autoria de compositores conterrâneos seus, sendo que algumas canções ela
já havia gravado anteriormente (“Pauapixuna”), “Este rio é minha rua” e “Bom dia
Belém” - espécie de hino da capital paraense, composta Edyr Proença e
Adalcinda), e “Tanto mar” (2004), um tributo a Chico Buarque que contou com a
participação do próprio na canção “Fado tropical”.
Em 2007, lançou "Fafá
de Belém ao vivo", que rendeu seu primeiro DVD, e foi lançado pela gravadora EMI
- única multinacional que ainda não havia editado um disco de Fafá. Como atriz,
atuou como a personagem Ana Luz na telenovela “Caminhos do Coração”, do autor
Tiago Santiago, na Rede Record. Em 2012, fez parte da bancada de jurados da
última temporada do programa Ídolos, exibido na Rede Record, ao lado de Marco
Camargo e Supla. Inicialmente, a cantora havia recusado o convite por motivo não
divulgado (embora uma sondagem para participação na telenovela Gabriela na Rede
Globo tenha sido apontada como um deles), mas depois mudou de ideia e assinou o
contrato
Em 2011, Fafá de Belém obteve a nacionalidade portuguesa (dupla
nacionalidade). A cantora sempre demonstrou o carinho que tem por Portugal, não
só por ser proveniente de uma família de portugueses, mas também pelo enorme
sucesso e grande popularidade que tem naquele país, sendo considerada uma das
cantoras brasileiras mais admiradas e respeitadas pelos portugueses.
No
ano de 2015, “Do tamanho certo para o meu sorriso” marca seus 40 anos de
carreira, tendo sido lançado após dez anos sem gravar em estúdio. É um álbum que
celebra o brega paraense, reunindo canções clássicas e algumas inéditas, como a
faixa “Asfalto Amarelo” (Felipe Cordeiro, Manoel Cordeiro e Zeca Baleiro). Em
2019, seu disco “Humana” foi eleito um dos 25 melhores álbuns brasileiros pela
Associação Paulista de Críticos de Arte.
Fafá de Belém foi anunciada como
Enredo da Escola de Samba Império de Casa Verde no Carnaval de 2024, com o tema:
“Fafá, a Cabocla Mística em Rituais da Floresta”, de autoria do Carnavalesco
Leandro Barboza e pesquisa do enredista Tiago Freitas. O enredo celebrou os 50
anos de carreira da artista e mostrou a mística relação de Fafá com a Amazônia,
através de suas canções, com elementos da fé cabocla, festejos culturais da mata
e rituais do indigenismo e folclorismo de Belém, do Pará e da região Amazônica,
como um todo.
Além das canções de amor, Fafá também ficou marcada por
valorizar a cultura do Pará e da Amazônia, levando ritmos, tradições e o sotaque
de sua terra natal para os palcos nacionais e internacionais. Mais do que uma
cantora, Fafá de Belém é símbolo de resistência, talento e orgulho. Uma voz que
atravessa décadas sem perder força, emoção e relevância.
Cândido Luiz de Lima Fernandes é economista e professor universitário em
Belo Horizonte; email:
candidofernandes@hotmail.com

Direção e Editoria
Irene Serra
Revista Rio Total

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