01/02/2026
Ano 29
Semana 1.493



ARQUIVO
de
MÚSICA





 






Fafá de Belém



Cândido Luiz de Lima Fernandes

 
Fafá de Belém, nome artístico de Maria de Fátima Palha de Figueiredo é uma cantora, compositora, atriz e multi-instrumentista luso-brasileira. É considerada uma das principais cantoras da Música Popular Brasileira (MPB), com trinta álbuns gravados e quinze milhões de discos vendidos. Seus estilos musicais incluem o fado, o sertanejo e a música romântica.

Fafá nasceu em 9 de agosto de 1956 no município brasileiro de Belém, capital do estado do Pará, filha do advogado e bancário Joaquim Oliveira Figueiredo, filho de imigrantes portugueses de Vouzela e Castelo de Paiva, e da dona de casa Eneida Moreira Palha de Figueiredo, filha de um belenense e uma imigrante portuguesa de Ponta Delgada. Assim Fafá adquiriu a nacionalidade portuguesa em 2011. É irmã de Sérgio e Nelson Palha de Figueiredo.

Durante a infância, destacava-se nas reuniões familiares por conta de sua voz afinada, mesmo não sonhando em ser cantora, mas sempre fazia apresentações familiares. Dos seis/sete anos de idade até os nove anos, residiu em São Paulo, retornando em seguida para sua cidade natal. Em sua formação acadêmica, parte da juventude estudou no Colégio Gentil Bittencourt.

Em 1970, quando tinha 14 anos sua família se mudou para o Rio de Janeiro, época em que sua casa "virou um lugar de encontro de música e músicos". Em 1973, voltou novamente para Belém. Nessa fase, fugia de casa com amigos para se apresentar em saraus e serestas. Conforme afirmou posteriormente, pretendia ser psicóloga, pois desejava saber "como as pessoas funcionam e como determinados mecanismos desencadeiam sobre a gente sem que a gente queira ou tenha controle sobre eles." No entanto, aos dezesseis anos de idade, iniciou sua carreira artística ao conhecer o produtor baiano Roberto Santana, (da Philips/PolyGram responsável por artistas como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Quinteto Violado, Alcione, Emílio Santiago, etc.) que a aconselhou a investir na carreira fonográfica.

Em 1973, estreou como atriz no musical “Tem Muita Goma no meu Tacacá”, que satirizou o cenário político da época, no principal teatro de Belém, o Theatro da Paz. Em 1974, participou da peça “Os Sete Gatinhos”. Em 1975, estreou sua carreira como cantora ao assinar com a Polydor Records e lançar seu primeiro sucesso, “Filho da Bahia” (Walter Queiroz). A canção, gravada exclusivamente para a trilha sonora da novela global “Gabriela”, também originou um clipe no programa “Fantástico”, da mesma emissora. Na mesma época lançou o primeiro compacto, que continha as canções “Naturalmente” (de Caetano Veloso e João Donato) e “Emoriô” (de Gilberto Gil e João Donato).

Em 1976, lançou o primeiro disco, “Tamba-Tajá”, pela gravadora Polydor, com um repertório eclético, mas essencialmente brasileiro e que trouxe a cantora ainda muito ligada às suas raízes nortistas. No repertório, destaque, dentre outras canções para os forrós “Haragana” (Quico Castro Neves) e “Xamego” (Luiz Gonzaga e Miguel Lima), as modinhas “Pode Entrar” (Walter Queiroz), a faixa-título (Waldemar Henrique) e o carimbó “Este Rio é Minha Rua” (Paulo André e Ruy Barata). O álbum, que obteve excelente aceitação de crítica e público, arrebatou críticos como o normalmente exigente José Ramos Tinhorão, colunista do “Jornal do Brasil”, que a apontou como uma das melhores cantoras daquela geração.

Em 1977, produziu seu segundo álbum, denominado “Água”, que vendeu mais de cem mil cópias. O álbum a consagrou como cantora nacionalmente, produzindo vários sucessos, dentre os quais a regravação do clássico “Ontem ao Luar” (de autoria de Catulo da Paixão Cearense e Pedro Alcântara), “Raça” e “Sedução” (ambas de autoria da dupla Milton Nascimento e Fernando Brant), e “Foi assim” e “Pauapixuna” (ambas dos compositores paraenses Paulo André e Ruy Barata).

Em 1978, foi publicado o álbum “Banho de Cheiro”, com destaque, dentre outras, para “Dentro de Mim Mora um Anjo” (Sueli Costa e Cacaso), “ Maria Solidária” (Milton Nascimento e Fernando Brant) e “Moça do Mar” (Octávio Burnier e Ivan Wrigg). Em 1979, lançou seu maior sucesso até hoje, a canção “Sob medida” (Chico Buarque). Esta canção integrou o repertório de um dos discos considerados melhores em sua carreira: o eclético “Estrela radiante”, onde se alternou entre canções regionais e urbanas. Outro grande sucesso deste disco foi a faixa-título, de autoria de Walter Queiroz.

Em 1980, Fafá participou do especial “Mulher 80” (Rede Globo), em um momento marcante da televisão. O programa exibiu uma série de entrevistas e musicais cujo tema era a mulher e a discussão do papel feminino na sociedade, abordando esta temática no contexto da música nacional e da inegável preponderância das vozes femininas, com Maria Bethânia, Fafá de Belém, Zezé Motta, Marina Lima, Simone, Rita Lee, Joanna, Elis Regina, Gal Costa e as participações especiais das atrizes Regina Duarte e Narjara Turetta, que protagonizaram o seriado “Malu Mulher”.

Também em 1980, lançou o disco “Crença”, com destaque para a faixa-título (de Milton Nascimento e Márcio Borges), as canções “Sexto sentido” (Beto Fogaça e Hermes Aquino), “Bicho homem” (Milton Nascimento e Fernando Brant), “Carrinho de linha” (Walter Queiroz), “Me disseram” (Joyce) e “Para um amor no Recife” (Paulinho da Viola). Em 1982, do disco “Essencial” (faixa-título de Joyce), Fafá se tornou famosa pela interpretação de duas canções: “Bilhete” (Ivan Lins e Vitor Martins), da trilha da novela “Sol de Verão” de Manoel Carlos, e “Nos bailes da vida” (Milton Nascimento e Fernando Brant).

Em 5 de março de 1981, Fafá de Belém deu à luz sua única filha, Mariana Belém, nascida do relacionamento com saxofonista Raul Mascarenhas – com quem nunca chegou a se casar. Com pouco tempo de namoro, Fafá engravidou, e eles foram viver juntos, mas poucos meses após o nascimento da filha, se separaram. Se tornou avó da Laura em 2011 e da Julia, em 2016.

Durante a campanha pelas Diretas-Já, Fafá participou ativamente dos comícios. Se apresentou gratuitamente em passeatas e comícios, cantando “O Menestrel das Alagoas”, em homenagem a Teotônio Vilela, e o Hino Nacional Brasileiro. “O Menestrel das Alagoas” foi lançado em 1983 no seu álbum intitulado “Fafá de Belém” e o Hino Nacional Brasileiro, lançado em 1985 no álbum “Aprendizes da Esperança”. Durante a campanha pelas eleições diretas, no final de suas apresentações, Fafá soltava uma pomba branca, gesto que se tornou símbolo do movimento e a transformou na "musa" das Diretas Já.

Em 1984 transferiu-se para a independente Som Livre; o disco que marca sua estreia na nova gravadora leva seu nome. No repertório deste, destaque para as canções “O Menestrel das Alagoas” (Milton Nascimento e Fernando Brant), composta em homenagem ao senador Teotônio Vilela, falecido naquele mesmo ano, e ainda “Você em minha vida” (Roberto e Erasmo Carlos), “Aconteceu você” (Guilherme Arantes) e “Promessas” (Tom Jobim e Newton Mendonça). Esta última foi o tema de abertura da última novela de Janete Clair, “Eu Prometo”.

No decorrer de sua carreira, Fafá de Belém recebeu avaliações mistas da crítica diante dos trabalhos que variavam dos gêneros mais popularescos, incluindo a canção romântica e o sertanejo, a outros mais respeitados, como o fado e a MPB. Na segunda metade dos anos 1980, adicionou ao repertório músicas relacionadas com os estilos carimbó, siriá, lambada, brega e guarânia. Alheia às críticas, emplacou um sucesso atrás do outro. Nesse caminho prosseguiu com “Atrevida” (1986), que vendeu mais de 500 mil cópias graças ao sucesso da canção “Memórias” (Leonardo Sullivan).

Em 1987, veio “Grandes Amores”, cujo maior sucesso foi a canção “Meu Dilema” (Michael Sullivan e Leonardo Sullivan). No ano seguinte voltou à Polygram, onde lançou o também criticado “Sozinha”, com destaque para “Meu Disfarce” (Chico Roque e Carlos Colla). Valendo-se ainda do filão engajado da pós-ditadura e feminismo, cantou, ainda que com uma participação individual diminuta, no coro da versão brasileira de “We Are the World”. Participou do projeto “Nordeste Já” (1987), que procurou angariar fundos para combater a enchente que se abatera sobre a região, unindo 155 vozes num compacto, de criação coletiva, com as canções “Chega de Mágoa” e “Seca d’Água”. Elogiado pela competência das interpretações individuais, o compacto foi, no entanto, criticado pela incapacidade de harmonizar as vozes e o enquadramento de cada uma delas no coro.

Em 1989, assinou com a gravadora BMG, que lançou o álbum “Fafá”, o qual englobou as lambadas “Chorando se Foi” e “Conversa Bonita” (Chico Roque e Carlos Colla, os sucessos românticos “Nuvem de Lágrimas” (Paulo Debétio e Resende) e “Amor Cigano” (Michael Sullivan e Paulo Massadas) e ainda “Coração do Agreste” (Moacir Luz e Aldir Blanc), canção que integrou a trilha da telenovela “Tieta”.

Em 1991, publicou o álbum “Doces Palavras”, com destaque para “Águas Passadas” e “Coração Xonado”. A versão deste em CD trouxe três faixas-bônus, “Eu Daria Minha Vida” (Martinha), “A Luz é Minha Voz” e “Dê uma Chance ao Coração” (Michael Sullivan e Paulo Massadas). Estas não haviam entrado no LP original por problemas de espaço. Em 1990, foi lançada a faixa “Saudade de Portugal” e Fafá foi compositora ao lado de Ed Wilson no LP “Trem da Alegria”, com a participação especial de Gugu Liberato. Em 1992, gravou em Portugal o disco “Meu Fado.” Seguem-se os discos “Do Fundo do Meu Coração” (1993), “Cantiga Pra Ninar Meu Namorado” (1994) e “Pássaro Sonhador” (1996), que foi um grande sucesso em Portugal. Em 1998, lançou o álbum “Coração Brasileiro”.

Na década de 2000, lançou “Maria de Fátima Palha Figueiredo” (2000), que trouxe diversas canções consagradas românticas da MPB, bem como as regravações de “Meu nome é ninguém” (Haroldo Barbosa e Luiz Reis), “Foi assim” e “Sob medida”. Depois, lançou “Piano e voz” (2002), na mesma linha de “Fafá ao vivo”, “Fafá de Belém do Pará - O Canto das águas” (2003), que trouxe um repertório essencialmente brasileiro, destacando culturas nortistas onde todas as canções são de autoria de compositores conterrâneos seus, sendo que algumas canções ela já havia gravado anteriormente (“Pauapixuna”), “Este rio é minha rua” e “Bom dia Belém” - espécie de hino da capital paraense, composta Edyr Proença e Adalcinda), e “Tanto mar” (2004), um tributo a Chico Buarque que contou com a participação do próprio na canção “Fado tropical”.

Em 2007, lançou "Fafá de Belém ao vivo", que rendeu seu primeiro DVD, e foi lançado pela gravadora EMI - única multinacional que ainda não havia editado um disco de Fafá. Como atriz, atuou como a personagem Ana Luz na telenovela “Caminhos do Coração”, do autor Tiago Santiago, na Rede Record. Em 2012, fez parte da bancada de jurados da última temporada do programa Ídolos, exibido na Rede Record, ao lado de Marco Camargo e Supla. Inicialmente, a cantora havia recusado o convite por motivo não divulgado (embora uma sondagem para participação na telenovela Gabriela na Rede Globo tenha sido apontada como um deles), mas depois mudou de ideia e assinou o contrato

Em 2011, Fafá de Belém obteve a nacionalidade portuguesa (dupla nacionalidade). A cantora sempre demonstrou o carinho que tem por Portugal, não só por ser proveniente de uma família de portugueses, mas também pelo enorme sucesso e grande popularidade que tem naquele país, sendo considerada uma das cantoras brasileiras mais admiradas e respeitadas pelos portugueses.

No ano de 2015, “Do tamanho certo para o meu sorriso” marca seus 40 anos de carreira, tendo sido lançado após dez anos sem gravar em estúdio. É um álbum que celebra o brega paraense, reunindo canções clássicas e algumas inéditas, como a faixa “Asfalto Amarelo” (Felipe Cordeiro, Manoel Cordeiro e Zeca Baleiro). Em 2019, seu disco “Humana” foi eleito um dos 25 melhores álbuns brasileiros pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

Fafá de Belém foi anunciada como Enredo da Escola de Samba Império de Casa Verde no Carnaval de 2024, com o tema: “Fafá, a Cabocla Mística em Rituais da Floresta”, de autoria do Carnavalesco Leandro Barboza e pesquisa do enredista Tiago Freitas. O enredo celebrou os 50 anos de carreira da artista e mostrou a mística relação de Fafá com a Amazônia, através de suas canções, com elementos da fé cabocla, festejos culturais da mata e rituais do indigenismo e folclorismo de Belém, do Pará e da região Amazônica, como um todo.

Além das canções de amor, Fafá também ficou marcada por valorizar a cultura do Pará e da Amazônia, levando ritmos, tradições e o sotaque de sua terra natal para os palcos nacionais e internacionais. Mais do que uma cantora, Fafá de Belém é símbolo de resistência, talento e orgulho. Uma voz que atravessa décadas sem perder força, emoção e relevância.

 

Cândido Luiz de Lima Fernandes é
economista e professor universitário em Belo Horizonte;
email: candidofernandes@hotmail.com





Direção e Editoria
Irene Serra
Revista Rio Total