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Taiguara (1945-1996)
Cândido Luiz de Lima Fernandes
Taiguara Chalar da Silva (Montevidéu, 9 de outubro de 1945 —
São Paulo, 14 de fevereiro de 1996) foi um cantor, compositor e instrumentista
radicado brasileiro. Taiguara nasceu em Montevidéu, no Uruguai, em 1945, filho
de pai brasileiro, o bandoneonista e maestro Ubirajara Silva e mãe uruguaia,
Olga Chalar, cantora de tango. Foi casado com Eliane Potiguara, de 1978 a 1985,
com quem teve três filhos.
Ainda durante sua infância, em 1949, sua família
transferiu-se para o Rio de Janeiro e posteriormente para São Paulo, em 1960. A
primeira vez em que se apresentou em público foi em 1964, acompanhado por
Vinícius de Moraes.
Mostrando aptidão para a música, decidiu largar o curso
de Direito, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em seus primeiros anos de
estudo, em 1965, para dedicar-se à carreira musical. Retornou, então, ao Rio de
Janeiro para gravar seu primeiro álbum, “Taiguara!”, lançado pela Philips, com a
produção de Armando Pittigliani e fortemente marcado pela influência
predominante da Bossa Nova. Os arranjos do álbum possui autoria de Luiz Chaves,
contrabaixista do Zimbo Trio. Na capa e na contracapa do LP, lê-se recomendações
de Edu Lobo, Alayde Costa e Luizinho Eça.
Notabilizou-se como cantor e
compositor na década de 60, tendo se apresentado nos festivais de música popular
brasileira desta época e composto canções inesquecíveis como “Universo do seu
corpo” e “Que as crianças cantem livres”. Estabeleceu seu nome na Música Popular
Brasileira junto a nomes como Chico Buarque e Toquinho. Já nos primeiros anos da
década de 1960 participou de vários festivais musicais (como o Festival de
Música Popular Brasileira e o Festival Internacional da Canção) e programas de
televisão. Datam desta época os álbuns ” Taiguara!” (1965) e “Taiguara” (1968),
com canções que marcaram sua primeira fase, como "Helena, Helena, Helena" e
"Hoje”.
Seu segundo álbum de estúdio também saiu pela gravadora Philips e
pela produção de Pittigliani. Nele Taiguara gravou diversos clássicos da MPB
destes primeiros anos da década de 1960, por vezes de sua composição, por vezes
de Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Baden Powell. Estas faixas apareceram
reunidas posteriormente nos álbuns “Primeiro Tempo 5X0” e “O Vencedor de
Festivais”. Dentre as canções vencedoras ou finalistas de festivais, destacam-se
"Modinha", "Benvinda", "Helena, Helena, Helena" e "Nada sei de eterno". O
espetáculo “Primeiro Tempo 5x0”, que deu origem a novo álbum de estúdio
homônimo, com Claudete Soares, levou Taiguara a novo patamar de reconhecimento.
Participou do Movimento Artístico Universitário. Também gravou a versão
brasileira da canção "Um Garoto Chamado Charlie Brown", para o filme homônimo.
Nos anos 1970, lançou “Viagem (1970), “Carne e Osso (1971), “Piano e Viola”
(1972) e “Fotografias” (1973). Considerado um dos símbolos da resistência à
censura durante o regime militar brasileiro, Taiguara foi o compositor
brasileiro mais censurado na história da MPB. Nos anos iniciais da década de
1970, após a proibição de reprodução da canção "A Ilha" (do álbum “Carne e
Osso”, de 1971), teve dezenas de canções censuradas, impedindo-o de gravar
diversas faixas, ou, ainda, impedindo suas posteriores reproduções em rádios e
apresentações.
Taiguara dizia ter 45 músicas censuradas, mas na sua biógrafa, a
jornalista carioca Janes Rocha, conta cerca de 80. O fato é que ele foi o
artista mais censurado pela ditadura militar brasileira, principalmente entre
1971 e 1973, quando negociou por várias vezes a liberação de suas canções.
No
livro “Os outubros de Taiguara” (Kuarup.2014), James Rocha registrou em sua
pesquisa que, de 1970 até 1974, o cantor e compositor teve 48 letras proibidas e
36 vetadas, num total de 140 letras registradas por ele ao Departamento de
Censura e Diversões Públicas (DCDP). A perseguição do regime era implacável.
Quando se fala na relação entre ditadura militar e música popular brasileira, os
primeiros nomes que vêm à mente da maioria das pessoas são Geraldo Vandré e
Chico Buarque, pelas canções contestatórias que marcaram aquele período e até
hoje são lembradas, ou Caetano Veloso e Gilberto Gil, que chegaram a ser presos
como “subversivos” por atentar contra “a moral e os bons costumes”. Eles foram
perseguidos e vigiados pelo regime, como registra a história. Nenhum outro
artista, porém, foi tão censurado — e prejudicado por ser de esquerda — quanto o
cantor e compositor Taiguara.
Tal informação não é nenhuma novidade: está
documentada em inúmeras reportagens publicadas na imprensa nacional. O músico,
no entanto, segue sendo pouco lembrado, apesar de sua importância para a “canção
de protesto” no Brasil e da forma com que sua carreira foi destroçada por razões
políticas e ideológicas. Nada indica que o esquecimento ao qual seu nome foi
relegado seja mera obra do acaso: enquanto viveu, Taiguara foi monitorado,
ameaçado e silenciado pelos militares e seus cupinchas civis dentro da mídia,
das gravadoras e do empresariado. A intenção do establishment era, de fato,
tirá-lo de cena.
Os problemas de Taiguara com o regime começaram antes mesmo
de o artista se tornar conhecido como um “artista engajado” ou de se aproximar
do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Sua primeira canção vetada, em 1971,
chamava-se “Corpos Nus” e não tinha qualquer teor político: falava apenas de uma
relação sexual. A música deveria ser apresentada no 6º Festival Internacional da
Canção, da Rede Globo, mas a polícia interveio e os organizadores retiraram
Taiguara da disputa, à revelia.
Em 1973, montando repertório para um novo
disco, Taiguara submeteu uma série de canções ao crivo da censura, como era de
praxe. Ele passara por várias situações como esta nos últimos dois anos e não
nutria muita esperança de realizar a gravação da forma como idealizara. Dito e
feito: das 12 canções programadas para o elepê, apenas uma foi liberada — o que
inviabilizou o projeto. O episódio foi a gota d’água que faltava para que o
compositor tomasse a decisão de sair do País e se autoexilar em Londres. Em
1974, autoexilado em Londres, a ditadura censurou um disco inteiro do cantor,
apesar de ter sido gravado todo em inglês e produzido em Londres. “Let the
Children Hear The Music” foi o único disco brasileiro censurado fora do país e
até hoje nunca lançado. Mesmo à distância, Taiguara continuou sendo vigiado pelo
Estado brasileiro e suas composições proibidas em solo nacional: em 1974, pouco
mais de 40 letras escritas por ele foram vetadas. Para gravar era preciso
negociar com os censores alterações que mudavam o sentido original das canções.
Longe do Brasil, Taiguara não se reportou à censura para fazer a gravação de um
disco na Inglaterra. Achou que, cantando em inglês, fosse burlar a ditadura, mas
o álbum teve a entrada proibida em território brasileiro. Nunca mais se soube da
matriz. Voltando para o país em 1975, Taiguara gravou neste ano seu trabalho
mais ambicioso, “Imyra, Tayra, Ipy”. O disco “Imyra, Tayra, Ipy”, que contou com
mais de 80 músicos em sua produção, dentre os quais Hermeto Pascoal, Wagner
Tiso, Novelli e Toninho Horta, foi recolhido das lojas 72 horas depois de
lançado, além de ter o show de lançamento, em julho de 1976, no Rio Grande do
Sul, cancelado. A ditadura vetava a execução das músicas nas rádios, proibia os
shows em cima da hora para causar prejuízos e retirava das lojas os discos, com
o objetivo de impor um verdadeiro processo de apagamento da obra do autor, que,
a essa altura, era reconhecido abertamente como comunista.
Em 1981, Taiguara
lançou o compacto “Sol do Tanganica”, em que homenageou diretamente os
revolucionários Amílcar Cabral e Patrice Lumumba, além de fazer também uma
ligação direta da resistência do continente africano com a nossa história. Em
1983, foi a vez de lançar “Canções de Amor e Liberdade”, disco mais politizado
de sua carreira, e que marca de vez seu retorno aos shows e à música brasileira,
resgatando seu trabalho para os novos públicos.
Sem conseguir trabalhar,
Taiguara voltou a se exilar do país, tendo morado na Europa e na África, onde
aprofundou seus estudos na música, nas nossas origens ancestrais e no marxismo.
Foi na Tanzânia, inclusive por indicação do educador Paulo Freire, que nasceu as
sementes de “Brasil Afri”. Em abril de 1994, gravou seu último e mais importante
trabalho, “Brasil Afri”, uma grande homenagem ao nosso país, nossas origens,
nossa cultura e, sobretudo, um canto ao futuro e ao socialismo.
O disco
“Brasil Afri” traz Taiguara em seu auge como cantor, compositor, produtor e
intérprete e é um mergulho em nossas origens musicais, culturais e rítmicas.
Gravado em Havana, Cuba, entre os meses de março e abril de 1994, o Tendo
escolhido uma gravadora independente (a Movieplay), ele se recusou a fazer um
disco de regravações e releituras de seus antigos sucessos. “O Cavaleiro da
Esperança”, homenagem ao revolucionário Luiz Carlos Prestes, de quem foi amigo
pessoal, “Donde” e “A Norma”, homenagens a Cuba, trazem uma poesia extremamente
apurada e arranjos alimentados na música africana e latino-americana.
O disco
foi produzido por Paulinho Trompete, que empresta seu tom jazzístico ao
trabalho, e contou com as participações do grupo cubano Manguaré, da cantora e
atriz Zezé Motta e de Raphael Rabello – um dos maiores nomes do violão
brasileiro. “Brasil Afri”, apesar de ter vindo à luz em uma década marcada pela
retomada democrática na política e na arte brasileira, nunca recebeu o seu
devido reconhecimento graças ao enorme processo de apagamento promovido pelo
regime militar e pela indústria cultural nos anos de chumbo.
Dois anos
depois, em fevereiro de 1996, o músico partiria, aos 50 anos de idade, vítima de
um câncer, deixando uma extensa e profunda obra calcada na esperança e na fé num
futuro mais justo.
O mais interessante nas músicas do Taiguara é que, apesar
de toda a perseguição e censura, não se encontra em seus versos qualquer
sentimento de pessimismo, melancolia ou derrotismo. “Brasil Afri” canta o bonde
e as cidades do Rio de Janeiro, a saudade de casa e o amor, sem perder a fé na
humanidade, na revolução e no socialismo.
Cândido Luiz de Lima Fernandes é economista e professor universitário em
Belo Horizonte; email:
candidofernandes@hotmail.com

Direção e Editoria
Irene Serra
Revista Rio Total

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