01/11/2025
Ano 29
Semana 1.481





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MÚSICA



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Taiguara (1945-1996)

 


Cândido Luiz de Lima Fernandes


Taiguara Chalar da Silva (Montevidéu, 9 de outubro de 1945 — São Paulo, 14 de fevereiro de 1996) foi um cantor, compositor e instrumentista radicado brasileiro. Taiguara nasceu em Montevidéu, no Uruguai, em 1945, filho de pai brasileiro, o bandoneonista e maestro Ubirajara Silva e mãe uruguaia, Olga Chalar, cantora de tango. Foi casado com Eliane Potiguara, de 1978 a 1985, com quem teve três filhos.

Ainda durante sua infância, em 1949, sua família transferiu-se para o Rio de Janeiro e posteriormente para São Paulo, em 1960. A primeira vez em que se apresentou em público foi em 1964, acompanhado por Vinícius de Moraes.

Mostrando aptidão para a música, decidiu largar o curso de Direito, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em seus primeiros anos de estudo, em 1965, para dedicar-se à carreira musical. Retornou, então, ao Rio de Janeiro para gravar seu primeiro álbum, “Taiguara!”, lançado pela Philips, com a produção de Armando Pittigliani e fortemente marcado pela influência predominante da Bossa Nova. Os arranjos do álbum possui autoria de Luiz Chaves, contrabaixista do Zimbo Trio. Na capa e na contracapa do LP, lê-se recomendações de Edu Lobo, Alayde Costa e Luizinho Eça.

Notabilizou-se como cantor e compositor na década de 60, tendo se apresentado nos festivais de música popular brasileira desta época e composto canções inesquecíveis como “Universo do seu corpo” e “Que as crianças cantem livres”. Estabeleceu seu nome na Música Popular Brasileira junto a nomes como Chico Buarque e Toquinho. Já nos primeiros anos da década de 1960 participou de vários festivais musicais (como o Festival de Música Popular Brasileira e o Festival Internacional da Canção) e programas de televisão. Datam desta época os álbuns ” Taiguara!” (1965) e “Taiguara” (1968), com canções que marcaram sua primeira fase, como "Helena, Helena, Helena" e "Hoje”.

Seu segundo álbum de estúdio também saiu pela gravadora Philips e pela produção de Pittigliani. Nele Taiguara gravou diversos clássicos da MPB destes primeiros anos da década de 1960, por vezes de sua composição, por vezes de Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Baden Powell. Estas faixas apareceram reunidas posteriormente nos álbuns “Primeiro Tempo 5X0” e “O Vencedor de Festivais”. Dentre as canções vencedoras ou finalistas de festivais, destacam-se "Modinha", "Benvinda", "Helena, Helena, Helena" e "Nada sei de eterno". O espetáculo “Primeiro Tempo 5x0”, que deu origem a novo álbum de estúdio homônimo, com Claudete Soares, levou Taiguara a novo patamar de reconhecimento. Participou do Movimento Artístico Universitário. Também gravou a versão brasileira da canção "Um Garoto Chamado Charlie Brown", para o filme homônimo.

Nos anos 1970, lançou “Viagem (1970), “Carne e Osso (1971), “Piano e Viola” (1972) e “Fotografias” (1973).
Considerado um dos símbolos da resistência à censura durante o regime militar brasileiro, Taiguara foi o compositor brasileiro mais censurado na história da MPB. Nos anos iniciais da década de 1970, após a proibição de reprodução da canção "A Ilha" (do álbum “Carne e Osso”, de 1971), teve dezenas de canções censuradas, impedindo-o de gravar diversas faixas, ou, ainda, impedindo suas posteriores reproduções em rádios e apresentações.

Taiguara dizia ter 45 músicas censuradas, mas na sua biógrafa, a jornalista carioca Janes Rocha, conta cerca de 80. O fato é que ele foi o artista mais censurado pela ditadura militar brasileira, principalmente entre 1971 e 1973, quando negociou por várias vezes a liberação de suas canções.

No livro “Os outubros de Taiguara” (Kuarup.2014), James Rocha registrou em sua pesquisa que, de 1970 até 1974, o cantor e compositor teve 48 letras proibidas e 36 vetadas, num total de 140 letras registradas por ele ao Departamento de Censura e Diversões Públicas (DCDP). A perseguição do regime era implacável. Quando se fala na relação entre ditadura militar e música popular brasileira, os primeiros nomes que vêm à mente da maioria das pessoas são Geraldo Vandré e Chico Buarque, pelas canções contestatórias que marcaram aquele período e até hoje são lembradas, ou Caetano Veloso e Gilberto Gil, que chegaram a ser presos como “subversivos” por atentar contra “a moral e os bons costumes”. Eles foram perseguidos e vigiados pelo regime, como registra a história. Nenhum outro artista, porém, foi tão censurado — e prejudicado por ser de esquerda — quanto o cantor e compositor Taiguara.

Tal informação não é nenhuma novidade: está documentada em inúmeras reportagens publicadas na imprensa nacional. O músico, no entanto, segue sendo pouco lembrado, apesar de sua importância para a “canção de protesto” no Brasil e da forma com que sua carreira foi destroçada por razões políticas e ideológicas. Nada indica que o esquecimento ao qual seu nome foi relegado seja mera obra do acaso: enquanto viveu, Taiguara foi monitorado, ameaçado e silenciado pelos militares e seus cupinchas civis dentro da mídia, das gravadoras e do empresariado. A intenção do establishment era, de fato, tirá-lo de cena.

Os problemas de Taiguara com o regime começaram antes mesmo de o artista se tornar conhecido como um “artista engajado” ou de se aproximar do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Sua primeira canção vetada, em 1971, chamava-se “Corpos Nus” e não tinha qualquer teor político: falava apenas de uma relação sexual. A música deveria ser apresentada no 6º Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, mas a polícia interveio e os organizadores retiraram Taiguara da disputa, à revelia.

Em 1973, montando repertório para um novo disco, Taiguara submeteu uma série de canções ao crivo da censura, como era de praxe. Ele passara por várias situações como esta nos últimos dois anos e não nutria muita esperança de realizar a gravação da forma como idealizara. Dito e feito: das 12 canções programadas para o elepê, apenas uma foi liberada — o que inviabilizou o projeto. O episódio foi a gota d’água que faltava para que o compositor tomasse a decisão de sair do País e se autoexilar em Londres.

Em 1974, autoexilado em Londres, a ditadura censurou um disco inteiro do cantor, apesar de ter sido gravado todo em inglês e produzido em Londres. “Let the Children Hear The Music” foi o único disco brasileiro censurado fora do país e até hoje nunca lançado. Mesmo à distância, Taiguara continuou sendo vigiado pelo Estado brasileiro e suas composições proibidas em solo nacional: em 1974, pouco mais de 40 letras escritas por ele foram vetadas. Para gravar era preciso negociar com os censores alterações que mudavam o sentido original das canções. Longe do Brasil, Taiguara não se reportou à censura para fazer a gravação de um disco na Inglaterra. Achou que, cantando em inglês, fosse burlar a ditadura, mas o álbum teve a entrada proibida em território brasileiro. Nunca mais se soube da matriz.

Voltando para o país em 1975, Taiguara gravou neste ano seu trabalho mais ambicioso, “Imyra, Tayra, Ipy”. O disco “Imyra, Tayra, Ipy”, que contou com mais de 80 músicos em sua produção, dentre os quais Hermeto Pascoal, Wagner Tiso, Novelli e Toninho Horta, foi recolhido das lojas 72 horas depois de lançado, além de ter o show de lançamento, em julho de 1976, no Rio Grande do Sul, cancelado. A ditadura vetava a execução das músicas nas rádios, proibia os shows em cima da hora para causar prejuízos e retirava das lojas os discos, com o objetivo de impor um verdadeiro processo de apagamento da obra do autor, que, a essa altura, era reconhecido abertamente como comunista.

Em 1981, Taiguara lançou o compacto “Sol do Tanganica”, em que homenageou diretamente os revolucionários Amílcar Cabral e Patrice Lumumba, além de fazer também uma ligação direta da resistência do continente africano com a nossa história. Em 1983, foi a vez de lançar “Canções de Amor e Liberdade”, disco mais politizado de sua carreira, e que marca de vez seu retorno aos shows e à música brasileira, resgatando seu trabalho para os novos públicos.

Sem conseguir trabalhar, Taiguara voltou a se exilar do país, tendo morado na Europa e na África, onde aprofundou seus estudos na música, nas nossas origens ancestrais e no marxismo. Foi na Tanzânia, inclusive por indicação do educador Paulo Freire, que nasceu as sementes de “Brasil Afri”. Em abril de 1994, gravou seu último e mais importante trabalho, “Brasil Afri”, uma grande homenagem ao nosso país, nossas origens, nossa cultura e, sobretudo, um canto ao futuro e ao socialismo.

O disco “Brasil Afri” traz Taiguara em seu auge como cantor, compositor, produtor e intérprete e é um mergulho em nossas origens musicais, culturais e rítmicas. Gravado em Havana, Cuba, entre os meses de março e abril de 1994, o Tendo escolhido uma gravadora independente (a Movieplay), ele se recusou a fazer um disco de regravações e releituras de seus antigos sucessos. “O Cavaleiro da Esperança”, homenagem ao revolucionário Luiz Carlos Prestes, de quem foi amigo pessoal, “Donde” e “A Norma”, homenagens a Cuba, trazem uma poesia extremamente apurada e arranjos alimentados na música africana e latino-americana.

O disco foi produzido por Paulinho Trompete, que empresta seu tom jazzístico ao trabalho, e contou com as participações do grupo cubano Manguaré, da cantora e atriz Zezé Motta e de Raphael Rabello – um dos maiores nomes do violão brasileiro. “Brasil Afri”, apesar de ter vindo à luz em uma década marcada pela retomada democrática na política e na arte brasileira, nunca recebeu o seu devido reconhecimento graças ao enorme processo de apagamento promovido pelo regime militar e pela indústria cultural nos anos de chumbo.

Dois anos depois, em fevereiro de 1996, o músico partiria, aos 50 anos de idade, vítima de um câncer, deixando uma extensa e profunda obra calcada na esperança e na fé num futuro mais justo.

O mais interessante nas músicas do Taiguara é que, apesar de toda a perseguição e censura, não se encontra em seus versos qualquer sentimento de pessimismo, melancolia ou derrotismo. “Brasil Afri” canta o bonde e as cidades do Rio de Janeiro, a saudade de casa e o amor, sem perder a fé na humanidade, na revolução e no socialismo.
 

Cândido Luiz de Lima Fernandes é
economista e professor universitário em Belo Horizonte;
email: candidofernandes@hotmail.com





Direção e Editoria
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Revista Rio Total