01/12/2025
Ano 29
Semana 1.485





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MÚSICA



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Lô Borges (1952-2025))



Cândido Luiz de Lima Fernandes


O cantor e compositor Lô Borges morreu na noite do dia 2 de novembro, em Belo Horizonte, aos 73 anos. O artista estava internado desde meados de outubro, devido a uma intoxicação por medicamentos.

Salomão Borges Filho, conhecido pelo nome artístico de Lô Borges, fez parte da geração de compositores mineiros que entrou para a história da música popular brasileira ao gravar, coletivamente, discos antológicos, que continuam influenciando novas gerações de artistas.

Lô Borges construiu uma trajetória marcada pela sensibilidade e pela liberdade criativa. De suas canções nasceram clássicos como “Paisagem na Janela” (Lô Borges e Fernando Brant), “O Trem Azul” (Lô Borges e Ronaldo Bastos), “Tudo que Você Podia Ser” (Márcio Borges e Lô Borges) e “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo” (Márcio Borges e Lô Borges). Suas músicas, assinadas só por ele ou em parcerias, ganharam interpretações de Milton Nascimento, Elis Regina, Tom Jobim, Arnaldo Antunes, Fernanda Takai, Samuel Rosa, entre tantos outros artistas.

Em 1972, aos 19 anos, Lô gravou com Milton o álbum duplo “Clube da Esquina”, um marco de liberdade estética que fundiu rock progressivo, jazz, música mineira e MPB. O disco abriu portas para uma nova geração e revelou o talento precoce de Lô.

Os executivos da gravadora EMI achavam que o menino de 19 anos, sem nada gravado, era jovem demais para se misturar no estúdio a músicos devidamente testados e com uma carreira em andamento, como era o caso de Milton, o já famoso autor de “Travessia”, em parceria com Fernando Brant, e dos experientes Wagner Tiso e Toninho Horta.

Milton bateu o pé. Se a EMI continuasse implicando com o garoto, eles estavam fora. "Eu devo muita coisa pra esse cara, bicho! Eles não querendo perder o Milton, me levaram de brinde", brincou o compositor, em participação no programa “Um Café Lá em Casa”, do guitarrista Nelson Faria.

Lô ficou e provou que Bituca estava certo. Sua participação em “Clube da Esquina” foi muito além do imaginado até pelo novato, autor, entre outras canções, de grandes sucessos do álbum, como “Paisagem da Janela” e “O Trem Azul”.

Antes reticente, a direção da EMI, surpreendida pela atuação de Lô, convidou o estreante para gravar um disco solo, desde que, claro, ele tivesse um repertório pronto. Poucos meses depois, veio o primeiro disco solo, “Lô Borges”, que ficou conhecido como o “disco do tênis” por causa da capa — e se tornaria um dos trabalhos mais cultuados da MPB.

“Aquilo ali foi uma experiência tão intensa que me marcou pra sempre”, recordava. “Eu já tinha gastado toda a munição que tinha no Clube da Esquina, era iniciante, pô! Compunha e gravava no mesmo dia. Foi uma loucura como nunca mais vivi. Mas me deu uma agilidade para compor que eu não perdi jamais.”

Essa velocidade virou marca registrada: “Não consigo parar de compor, tenho fascínio pelo desconhecido”, disse ele numa longa entrevista com a UBC ano passado. A frase sintetiza não apenas o modo como Lô vivia, mas a própria lógica de sua arte — uma arte movida por curiosidade, descoberta e assombro. “A composição está num lugar muito especial pra mim. Faço música porque me divirto, porque me sinto bem.”

Nascido em Belo Horizonte em 10 de janeiro de 1952, Salomão Borges Filho cresceu cercado de arte. Ainda adolescente, fã dos Beatles e do rock inglês em geral, se lançou à criação, cercado de craques como Toninho Horta, Milton Nascimento, Beto Guedes e do irmão Márcio Borges. Com eles formaria, no início dos anos 1970, o núcleo de um dos movimentos mais importantes da história da música brasileira: o Clube da Esquina.

Sobre o processo de criação, esclareceu: “Se a música demora mais de 30 minutos pra sair, já acho que não vai ficar boa (risos)”, brincou no papo com a UBC. “Pego o iPhone, gravo, escuto, corrijo, e dez minutos depois já parto pra segunda gravação. Na terceira, está pronta.”

Ao longo das décadas seguintes, Lô construiu uma obra múltipla e coerente, sempre centrada na melodia. Gravou discos seminais como “A Via-Láctea” (1979), “Nuvem Cigana” (com o 14 Bis), “Meu Filme” (1996) — que trouxe uma parceria com Caetano Veloso — e “Feira Moderna”, reunindo velhos parceiros do Clube. Foram mais de 20 os álbuns que lançou.

Mesmo nos períodos de menor exposição, Lô nunca deixou de compor: “Acho que já fui um compositor compulsivo. Hoje vejo que é assiduidade, é frequência, é estar disponível pra composição. É igual sair pra pescar: se você não jogar a vara no rio, não vai pescar nada. A minha música é uma pescaria diária.”

Nos anos 2000, voltou à cena com força. A partir de “Rio da Lua” (2019), intensificou o ritmo: lançou cinco discos de inéditas em cinco anos — entre eles “Dínamo” (2020), “Muito Além do Fim” (2021) e dois em 2023, incluindo um trabalho com a Filarmônica de Minas Gerais, que o emocionou profundamente: “Foi uma grande realização para mim fazer um concerto com 70 músicos. O maestro Fabio Mechetti esteve aqui em casa, e foi um processo de muito trabalho. Nunca tinha vivido algo assim.”

Mesmo com a consagração nacional e internacional — “Clube da Esquina” é presença constante em listas de melhores discos da história —, Lô manteve uma relação natural com o mistério da criação. E nunca se desconectou de um estilo de vida simples, dedicado à música. “Sento com o violão e os sons vão saindo. É uma coisa mais Chico Xavier que cerebral (risos). Não sou um alienado, sei o que está acontecendo no mundo. Mas, quando sento pra compor, é quase uma abdução. A musa inspiradora são as notas, as harmonias, as melodias.”

Entre seus parceiros mais constantes estavam Márcio Borges, irmão e coautor de muitos clássicos, e compositores como Fernando Brant, Nelson Angelo, Makely Ka, Tom Zé, Arnaldo Antunes e Nando Reis. Com planos para muitas criações para os próximos anos, Lô vivia como quem ainda descobria o mundo — e o som: “Adoro fazer shows, mas sou um cara da composição.”

A música, dizia, era seu modo de permanecer livre: “Solto no mundo, solto no espaço, nada me prende, eu posso ir. Sentado na cama, pensando na vida, eu busco tesouros e ser feliz. Sou um pescador de canções.”

Na GloboNews, o jornalista e crítico Arthur Dapieve chamou de espetacular o talento de Lô: “O álbum 'Clube da Esquina' é creditado a ele e ao Milton, sobretudo. Ele acrescentou um senso melódico fantástico às criações dele. Os músicos valorizam muito as melodias e harmonias criadas pelo Lô. Foi uma liga muito interessante dele com os outros membros do Clube da Esquina. Um sujeito também com uma voz marcante, um talento espetacular. Ajudou a fazer um pequeno milagre (na música brasileira) a partir daquela esquina de Belo Horizonte. Hoje o dia amanheceu triste e nublado. Partiu nosso querido Lô Borges. Um verdadeiro criador, grande inventor de ideias e grande referência musical. Pegou um ‘trem azul’ e foi em busca de outras paragens. Seus acordes e melodias seguem ecoando em nossas mentes e serão eternamente lembrados em todo o mundo. Que voe em paz.”

Outra linda homenagem póstuma é a do compositor Guilherme Arantes: “A passagem de Lô Borges, para mim, é uma sensação muito dramática. Lô, que eu sempre considerei minha maior influência, se vai assim de uma hora para outra, me deixando perplexo! Sem dúvidas, o maior compositor da minha geração. Como eu venero suas obras e sua figura tão humana e gentil na música brasileira. Oh, Lô, que me fez sonhar e me fará eternamente grato pelo que iluminou a minha vida ! A Via Láctea te recebe como o maior criador a servir de guia para a música de todos nós! “

Lô Borges foi - e sempre será - uma das pessoas mais importantes da vida e obra de Milton Nascimento. Foram décadas e mais décadas de uma amizade e cumplicidade lindas, que resultaram em um dos álbuns mais reconhecidos da música no mundo: o “Clube da Esquina”. Lô nos deixará um vazio e uma saudade enormes, e o Brasil perde um de seus artistas mais geniais, inventivos e únicos. Descanse em paz, Lô!

Cândido Luiz de Lima Fernandes é
economista e professor universitário em Belo Horizonte;
email: candidofernandes@hotmail.com.
 

Cândido Luiz de Lima Fernandes é
economista e professor universitário em Belo Horizonte;
email: candidofernandes@hotmail.com





Direção e Editoria
Irene Serra
Revista Rio Total