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Lô Borges (1952-2025))

Cândido Luiz de Lima Fernandes
O cantor e
compositor Lô Borges morreu na noite do dia 2 de novembro, em Belo Horizonte,
aos 73 anos. O artista estava internado desde meados de outubro, devido a uma
intoxicação por medicamentos.
Salomão Borges Filho, conhecido pelo nome
artístico de Lô Borges, fez parte da geração de compositores mineiros que entrou
para a história da música popular brasileira ao gravar, coletivamente, discos
antológicos, que continuam influenciando novas gerações de artistas.
Lô
Borges construiu uma trajetória marcada pela sensibilidade e pela liberdade
criativa. De suas canções nasceram clássicos como “Paisagem na Janela” (Lô
Borges e Fernando Brant), “O Trem Azul” (Lô Borges e Ronaldo Bastos), “Tudo que
Você Podia Ser” (Márcio Borges e Lô Borges) e “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”
(Márcio Borges e Lô Borges). Suas músicas, assinadas só por ele ou em parcerias,
ganharam interpretações de Milton Nascimento, Elis Regina, Tom Jobim, Arnaldo
Antunes, Fernanda Takai, Samuel Rosa, entre tantos outros artistas.
Em
1972, aos 19 anos, Lô gravou com Milton o álbum duplo “Clube da Esquina”, um
marco de liberdade estética que fundiu rock progressivo, jazz, música mineira e
MPB. O disco abriu portas para uma nova geração e revelou o talento precoce de
Lô.
Os executivos da gravadora EMI achavam que o menino de 19 anos, sem
nada gravado, era jovem demais para se misturar no estúdio a músicos devidamente
testados e com uma carreira em andamento, como era o caso de Milton, o já famoso
autor de “Travessia”, em parceria com Fernando Brant, e dos experientes Wagner
Tiso e Toninho Horta.
Milton bateu o pé. Se a EMI continuasse implicando
com o garoto, eles estavam fora. "Eu devo muita coisa pra esse cara, bicho! Eles
não querendo perder o Milton, me levaram de brinde", brincou o compositor, em
participação no programa “Um Café Lá em Casa”, do guitarrista Nelson Faria.
Lô ficou e provou que Bituca estava certo. Sua participação em “Clube da
Esquina” foi muito além do imaginado até pelo novato, autor, entre outras
canções, de grandes sucessos do álbum, como “Paisagem da Janela” e “O Trem
Azul”.
Antes reticente, a direção da EMI, surpreendida pela atuação de
Lô, convidou o estreante para gravar um disco solo, desde que, claro, ele
tivesse um repertório pronto. Poucos meses depois, veio o primeiro disco solo,
“Lô Borges”, que ficou conhecido como o “disco do tênis” por causa da capa — e
se tornaria um dos trabalhos mais cultuados da MPB.
“Aquilo ali foi uma
experiência tão intensa que me marcou pra sempre”, recordava. “Eu já tinha
gastado toda a munição que tinha no Clube da Esquina, era iniciante, pô!
Compunha e gravava no mesmo dia. Foi uma loucura como nunca mais vivi. Mas me
deu uma agilidade para compor que eu não perdi jamais.”
Essa velocidade
virou marca registrada: “Não consigo parar de compor, tenho fascínio pelo
desconhecido”, disse ele numa longa entrevista com a UBC ano passado. A frase
sintetiza não apenas o modo como Lô vivia, mas a própria lógica de sua arte —
uma arte movida por curiosidade, descoberta e assombro. “A composição está num
lugar muito especial pra mim. Faço música porque me divirto, porque me sinto
bem.”
Nascido em Belo Horizonte em 10 de janeiro de 1952, Salomão Borges
Filho cresceu cercado de arte. Ainda adolescente, fã dos Beatles e do rock
inglês em geral, se lançou à criação, cercado de craques como Toninho Horta,
Milton Nascimento, Beto Guedes e do irmão Márcio Borges. Com eles formaria, no
início dos anos 1970, o núcleo de um dos movimentos mais importantes da história
da música brasileira: o Clube da Esquina.
Sobre o processo de criação,
esclareceu: “Se a música demora mais de 30 minutos pra sair, já acho que não vai
ficar boa (risos)”, brincou no papo com a UBC. “Pego o iPhone, gravo, escuto,
corrijo, e dez minutos depois já parto pra segunda gravação. Na terceira, está
pronta.”
Ao longo das décadas seguintes, Lô construiu uma obra múltipla e
coerente, sempre centrada na melodia. Gravou discos seminais como “A Via-Láctea”
(1979), “Nuvem Cigana” (com o 14 Bis), “Meu Filme” (1996) — que trouxe uma
parceria com Caetano Veloso — e “Feira Moderna”, reunindo velhos parceiros do
Clube. Foram mais de 20 os álbuns que lançou.
Mesmo nos períodos de menor
exposição, Lô nunca deixou de compor: “Acho que já fui um compositor compulsivo.
Hoje vejo que é assiduidade, é frequência, é estar disponível pra composição. É
igual sair pra pescar: se você não jogar a vara no rio, não vai pescar nada. A
minha música é uma pescaria diária.”
Nos anos 2000, voltou à cena com
força. A partir de “Rio da Lua” (2019), intensificou o ritmo: lançou cinco
discos de inéditas em cinco anos — entre eles “Dínamo” (2020), “Muito Além do
Fim” (2021) e dois em 2023, incluindo um trabalho com a Filarmônica de Minas
Gerais, que o emocionou profundamente: “Foi uma grande realização para mim fazer
um concerto com 70 músicos. O maestro Fabio Mechetti esteve aqui em casa, e foi
um processo de muito trabalho. Nunca tinha vivido algo assim.”
Mesmo com
a consagração nacional e internacional — “Clube da Esquina” é presença constante
em listas de melhores discos da história —, Lô manteve uma relação natural com o
mistério da criação. E nunca se desconectou de um estilo de vida simples,
dedicado à música. “Sento com o violão e os sons vão saindo. É uma coisa mais
Chico Xavier que cerebral (risos). Não sou um alienado, sei o que está
acontecendo no mundo. Mas, quando sento pra compor, é quase uma abdução. A musa
inspiradora são as notas, as harmonias, as melodias.”
Entre seus
parceiros mais constantes estavam Márcio Borges, irmão e coautor de muitos
clássicos, e compositores como Fernando Brant, Nelson Angelo, Makely Ka, Tom Zé,
Arnaldo Antunes e Nando Reis. Com planos para muitas criações para os próximos
anos, Lô vivia como quem ainda descobria o mundo — e o som: “Adoro fazer shows,
mas sou um cara da composição.”
A música, dizia, era seu modo de
permanecer livre: “Solto no mundo, solto no espaço, nada me prende, eu posso ir.
Sentado na cama, pensando na vida, eu busco tesouros e ser feliz. Sou um
pescador de canções.”
Na GloboNews, o jornalista e crítico Arthur Dapieve
chamou de espetacular o talento de Lô: “O álbum 'Clube da Esquina' é creditado a
ele e ao Milton, sobretudo. Ele acrescentou um senso melódico fantástico às
criações dele. Os músicos valorizam muito as melodias e harmonias criadas pelo
Lô. Foi uma liga muito interessante dele com os outros membros do Clube da
Esquina. Um sujeito também com uma voz marcante, um talento espetacular. Ajudou
a fazer um pequeno milagre (na música brasileira) a partir daquela esquina de
Belo Horizonte. Hoje o dia amanheceu triste e nublado. Partiu nosso querido Lô
Borges. Um verdadeiro criador, grande inventor de ideias e grande referência
musical. Pegou um ‘trem azul’ e foi em busca de outras paragens. Seus acordes e
melodias seguem ecoando em nossas mentes e serão eternamente lembrados em todo o
mundo. Que voe em paz.”
Outra linda homenagem póstuma é a do compositor
Guilherme Arantes: “A passagem de Lô Borges, para mim, é uma sensação muito
dramática. Lô, que eu sempre considerei minha maior influência, se vai assim de
uma hora para outra, me deixando perplexo! Sem dúvidas, o maior compositor da
minha geração. Como eu venero suas obras e sua figura tão humana e gentil na
música brasileira. Oh, Lô, que me fez sonhar e me fará eternamente grato pelo
que iluminou a minha vida ! A Via Láctea te recebe como o maior criador a servir
de guia para a música de todos nós! “
Lô Borges foi - e sempre será - uma
das pessoas mais importantes da vida e obra de Milton Nascimento. Foram décadas
e mais décadas de uma amizade e cumplicidade lindas, que resultaram em um dos
álbuns mais reconhecidos da música no mundo: o “Clube da Esquina”. Lô nos
deixará um vazio e uma saudade enormes, e o Brasil perde um de seus artistas
mais geniais, inventivos e únicos. Descanse em paz, Lô!
Cândido Luiz de
Lima Fernandes é economista e professor universitário em Belo Horizonte;
email: candidofernandes@hotmail.com.
Cândido Luiz de Lima Fernandes é economista e professor universitário em
Belo Horizonte; email:
candidofernandes@hotmail.com

Direção e Editoria
Irene Serra
Revista Rio Total

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