|
Baden Powell (1937- 2000)
Cândido Luiz de Lima Fernandes
Atendendo
ao pedido do leitor de Rio Total, Fernando Novaes, escrevo sobre o violonista e
compositor genial que foi Baden Powell.
Baden Powell é ainda hoje considerado um
dos maiores gênios e virtuoses que o violão mundial conheceu. Criador de um
estilo próprio e inconfundível, deixou admiradores por todo o planeta, sem que
ninguém conseguisse reproduzir sua maneira de tocar.
Baden Powell de
Aquino nasceu em 6 de agosto de 1937 na cidade de Varre-Sai, estado do Rio de
Janeiro, filho de Lilo de Aquino (conhecido como Tic) e de Adelina Gonçalves, a
Neném. Tic era fabricante de calçados e músico amador: tocava violino nos bailes
e tuba na banda da cidade, fundada por seu pai. Também era chefe dos escoteiros
de Varre-Sai e admirador do fundador do escotismo, o britânico Robert Stephenson
Smyth Baden Powell, daí a homenagem ao batizar o terceiro filho.
A
família mudou-se para o Rio de Janeiro quando Baden Powell tinha três meses.
Ali, ele passou sua infância, vendo o pai tocar violino em saraus, rodas de
choro e serenatas. Gostava de pegar o violino do pai escondido para tirar sons e
brincar com o instrumento. Começou a tocar violão em um instrumento “roubado” de
uma tia. Teve aulas com o pai e, aos oito anos, tornou-se aluno de Jayme
Florence, o famoso Meira, violonista do conjunto regional de Benedito Lacerda.
Com dez anos, apresentou-se no programa “Papel Carbono”, de Renato Murce, na
Rádio Nacional, obtendo o primeiro lugar, interpretando Magoado, de Dilermando
Reis. Com 11 anos, foi chamado para acompanhar Cyro Monteiro numa apresentação
que o grande sambista faria numa igreja. Aos 13, terminou os estudos com Meira e
inscreveu-se na Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro.
No verão de
1950, participou do show “Arraia Miúda”, promovido por Renato Murce no Teatro
João Caetano, junto com duas meninas que, assim como ele, ainda não haviam
completado 15 anos: Alaíde Costa e Claudette Soares. Nos anos 1950, conheceu seu
primeiro parceiro musical, Maurício Vasquez, amigo do colégio, autor de poemas
que Baden musicava para mostrar às meninas que desejava conquistar. Aos 15 anos,
debutou, com seu violão elétrico, nos cabarés da Lapa e do Mangue, zona de
meretrício carioca. Com 16, passou a se apresentar na Zona Sul, no famoso Clube
da Chave, levado por Alaíde Costa. Em 23 de abril de 1954, participou do I
Festival da Velha Guarda, em São Paulo, ao lado de Pixinguinha, Donga, João da
Bahiana, Almirante, Benedito Lacerda, Caninha, Patrício Teixeira, Lúcio Rangel e
Sérgio Porto.
Em 1955, ao lado de Ed Lincoln (piano) e Luiz Marinho
(contrabaixo), apresentou-se na boate do Hotel Plaza, em Copacabana, ponto de
encontro dos músicos da noite. No ano seguinte, foi assistido por dois grandes
artistas internacionais que vieram se apresentar no Brasil: Nat “King” Cole e
Dizzy Gillespie (com quem chegou a dar uma canja numa boate carioca). Nessa
época, já gravava como violonista e guitarrista, requisitado por maestros e
arranjadores como Guerra-Peixe, e tocava em quase todos os programas da Rádio
Nacional. Com Sivuca, formou uma dupla que promovia bailes em casas de famílias
ricas.
Foi apresentado por Cyll Farney a Billy Blanco. Do encontro,
nasceu a primeira parceria, o clássico “Samba Triste”, e uma grande amizade.
Naqueles tempos pré-bossa nova, Baden aparecia com assiduidade nos apartamentos
de Nara Leão, Bené Nunes, Lula Freire, Nilo Queiroz e dos irmãos Castro Neves,
onde a turma se reunia para fazer uma música diferente e moderna. Participou do
nascimento da bossa nova, acompanhando alguns dos principais nomes do estilo,
mas nunca se apegou a gêneros: tocava de jazz a sambas, do clássico ao rock.
Em 1959, com 22 anos, contratado pela Philips, atuou em discos de Paulo
Moura, Carlos Lyra, Elizeth Cardoso e do estreante Roberto Carlos. Em apenas
dois dias, gravou seu primeiro disco solo, “Apresentando Baden Powell e seu
violão”. Em 1960, tocou com Marlene Dietrich num espetáculo da grande diva no
Rio de Janeiro. Neste mesmo ano, apresentou-se com um conjunto de dança na boate
Arpège, no Leme, após um show de Ary Barroso e Tom Jobim. Na plateia, estava o
poeta Vinicius de Moraes, que ficou impressionado com aquele jovem violonista.
Após alguns desencontros, reencontrou-se com Vinicius no bar do Hotel Miramar.
Baden mostrou duas melodias suas e assim surgiram as primeiras parcerias da
dupla: “Cantiga de ninar meu bem” e “Sonho de amor e paz”. Passou a frequentar
assiduamente o apartamento de Vinicius no Parque Guinle. Tornaram-se parceiros
de uísque, farras, noitadas e, naturalmente, de músicas.
Em abril de
1960, participou dos festejos da inauguração de Brasília. Em 1961, gravou o
segundo LP, “Um violão na madrugada”. No ano seguinte, lançou seu terceiro LP, o
primeiro pela gravadora Elenco:” Baden Powell swings with Jimmy Pratt”. Viajou
para os Estados Unidos, onde se apresentou no Ed Sullivan Show ao lado de João
Gilberto, Tom Jobim, Milton Banana e Os Cariocas. De volta ao Brasil, gravou o
segundo LP pela Elenco, “Baden Powell à vontade”.
Com Vinicius formou uma
das duplas mais férteis da música brasileira. Com ele compôs “Berimbau” e, entre
1962 e 1965, o poderoso conjunto de onze canções – entre elas “Canto de Xangô” e
“Canto de Ossanha” –, inspiradas em ritmos africanos e populares chamados de
“afro-sambas,” que foram gravados em 1966 com arranjos do maestro Guerra Peixe.
Ao lado de Vinicius compôs ainda “Samba da bênção” e “Samba em prelúdio”, entre
muitas outras.
Em outubro de 1963, chegou às lojas o LP “Vinicius &
Odette Lara”, o primeiro só com músicas da dupla Baden-Vinicius.
Outro
parceiro fundamental de Baden foi Paulo César Pinheiro, um dos maiores letristas
da música brasileira. Juntos compuseram canções como “Lapinha”, “Samba do
perdão” e “Aviso aos navegantes”, todas gravadas por Elis Regina, além das
imprescindíveis “Violão vadio” e “É de lei”.
Em novembro, mesmo sem falar
francês, mudou-se para Paris. Em dezembro, apresentou-se no Olympia, com a
cortina abrindo e fechando oito vezes no final do espetáculo para a saudação de
Baden ao público. No início de 1964, assinou contrato com a Barclay e recebeu um
adiantamento para a gravação de seis LPs. O primeiro deles, “Le monde musical de
Baden Powell”, de 1967, ganhou o Disco de Ouro na França, com mais de 100 mil
cópias vendidas. Além desses LPs, gravaria outros sete álbuns pela francesa
Musidisc.
Voltou ao Brasil em fevereiro de 1965. Em janeiro de 1966,
Baden e Vinicius reuniram, num disco da gravadora Forma, oito músicas que
compuseram entre 1962 e 1965. Com arranjos e regência de Guerra-Peixe e
participação do Quarteto em Cy, o LP “Os afro-sambas” (termo cunhado por
Vinicius) foi um marco da dupla. No mesmo mês, entrou novamente em estúdio, ao
lado do gaitista Maurício Einhorn, para gravar “Tempo feliz”, um de seus
melhores discos. Em junho, fez em dois dias o LP “Tristeza on guitar”, para a
gravadora Saba, da Alemanha. No ano seguinte, excursionou pela primeira vez por
esse país, onde gravou (em 24 horas), também pela Saba, o álbum “Poem on
guitar”.
Em maio de 1968, a música “Lapinha”, defendida por Elis Regina e
os Originais do Samba, seria a grande vencedora da I Bienal do Samba, promovida
pela TV Record em São Paulo. Era a sua primeira parceria com Paulo César
Pinheiro –, vizinho de um primo de Baden, o também violonista João de Aquino –
que viria a ser seu segundo grande parceiro.
Nesse período, Baden fez seu
primeiro grande show, “O mundo musical de Baden Powell”, no Teatro Opinião. Em
agosto, apresentou-se em Buenos Aires com Vinicius, Dorival Caymmi, Oscar Castro
Neves e Quarteto em Cy. Com Vinicius e a cantora Márcia, fez temporada em
Lisboa, em dezembro. Em 1970, estreou o show “É de lei”, produzido por Miéle e
Ronaldo Bôscoli, em que apresentou muitas parcerias com Paulo César Pinheiro. A
dupla teve, além de quatro músicas gravadas por Elizeth Cardoso, suas
composições registradas em dois discos: “As músicas de Baden Powell e Paulo
César Pinheiro” e “Os cantores da Lapinha”. Neste mesmo ano, apresentou-se pela
primeira vez em sua cidade natal, Varre-Sai, pela qual sempre teve muito
carinho. No final de 1970, tocou pela primeira vez no Japão, ao lado de
Thelonious Monk.
Ao lado de Elizeth Cardoso, fez, entre maio e agosto de
1973, uma temporada de sucesso no Canecão, da qual também participou o
bandolinista Luperce Miranda. De volta à França, registrou no disco “La grande
réunion” seu encontro com o violinista Stéphane Grappelli.
Em abril de
1978, nasceu seu primeiro filho, Philippe Baden Powell, fruto do casamento com
Silvia Eugênia, sua terceira mulher. Nesse período, Baden deixou crescer o
bigode, que nunca mais tirou, e começou a se vestir sistematicamente de branco.
Além disso, ficou três anos sem beber. Em abril de 1982, nasceu o segundo filho,
Louis-Marcel Powell de Aquino. Após várias idas e vindas entre Paris e o Rio de
Janeiro, decidiu morar numa cidade mais tranquila. Permaneceu quatro anos com a
família em uma cidade alemã cujo nome lhe era bastante familiar: Baden-Baden.
Nos anos 1960 e 1970, Baden Powell teve sérios problemas com o álcool,
chegando a ficar doente. Ao lado de seus dois filhos – Philippe e Louis Marcel,
respectivamente pianista e violonista – desenvolveu alguns de seus trabalhos na
década de 1990, resultando em músicas como “Atravessado” e “Prelúdio pra mão
esquerda”. Na década de 1990, tornou-se evangélico, e alterou algumas de suas
músicas devido ao conteúdo profano que teriam.
Em 1990, regravou, em CD,
“Os afro-sambas”, apresentando uma nova versão para os clássicos que compusera
com Vinicius. Reescreveu os arranjos, assumiu a regência e os solos, tocou
percussão e incluiu músicas que não constavam do álbum original: “Labareda” e
“Variações sobre Berimbau”. Nos anos seguintes, fez shows pelo Brasil e pelo
exterior e levou os filhos definitivamente para o palco. Baden passou a compor
para (e com) os filhos e gravou um disco com eles em 1994.
Foi só em 1995
que tocou no aclamado Festival de Montreux, na Suíça. Em novembro deste ano,
recebeu, no Canecão, o Prêmio Shell de Música Brasileira, a maior honraria
conferida a ele por seus conterrâneos. Em 1999, viu sair, pela Editora 34, sua
biografia “O violão vadio de Baden Powell”, escrita por Dominique Dreyfus. No
ano 2000, gravou, pela Trama, o último disco, “Lembranças”, que acabou sendo
lançado postumamente. Vítima de complicações em vários órgãos vitais, faleceu
manhã do dia 26 de setembro de 2000, aos 63 anos, na Clínica Sorocaba, em
Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, esse artista completo no seu ofício.
Deixou mais de quarenta discos gravados, centenas de músicas e um estilo
definitivo.
O acervo Baden Powell, cedido em comodato ao Instituto
Moreira Salles em 2012, contém uma variedade de documentos, entre os quais
partituras, métodos, fotografias, livros, cartazes, desenhos artísticos, discos
e audio tapes. Além desse material, há três violões utilizados por Baden durante
sua trajetória musical: um violão alemão construído pelo luthier Dieter Hopf,
que durante muito tempo manteve uma parceria com o artista, que resultou numa
troca de experiências com relação à confecção dos instrumentos; um violão
argentino construído pelo luthier Anibal J. Crespo; e um violão Del Vecchio, que
possui duplo valor histórico, por ter também pertencido a Luiz Bonfá. Desde
agosto de 2017, comemorando os 80 anos de nascimento de Baden Powell, seu acervo
está disponível para consulta no endereço musica.ims.com.br.
Cândido Luiz de Lima Fernandes é economista e professor universitário em
Belo Horizonte; email:
candidofernandes@hotmail.com

Direção e Editoria
Irene Serra

|