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Gonzaguinha (1945-1991)
Cândido Luiz de Lima Fernandes
Atendendo à solicitação de um leitor
de Rio Total, hoje vou escrever sobre Gonzaguinha. Quem não se lembra desses
versos: “A gente quer é ter muita saúde/A gente quer viver a liberdade/A gente
quer viver felicidade”? Nada mais necessário para os tempos de agora do que a
mensagem explícita contida neste trecho da letra de “É”, música emblemática e
relevante da obra de Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha, filho adotivo de Luiz
Gonzaga, o Gonzagão. O artista, nascido no morro de São Carlos, no Rio de
Janeiro, em 22 de setembro de 1945 – morreu em 1991, aos 45 anos – por razões
diversas inscreveu seu nome na história da música popular brasileira como um dos
nomes de maior representatividade.
Pai e filho compartilhavam o amor à
música. Mas, antes de ganhar notoriedade como artista, Gonzaguinha atravessou
períodos de turbulência originados em seu núcleo familiar – que o acompanhariam
em boa parte da vida adulta. Aos dois anos de idade, perdeu a mãe, a cantora e
dançarina Odaléia Guedes dos Santos (1925-1948), vítima de tuberculose.
Gonzagão, outra vez casado, distanciou-se do filho pois a nova esposa rejeitava
o menino. A criação do garoto ficou a cargo de seus padrinhos de batismo, o
casal Leopoldina de Castro Xavier e Henrique Xavier Pinheiro. Gonzaguinha
cresceu no Morro de São Carlos, no bairro do Estácio, região central da capital
fluminense.
Uma infância, portanto, fisicamente longe das paisagens
sertanejas enaltecidas nos versos do rei do baião, porém repleta do afeto da
família postiça. Foi com o padrinho, exímio violonista, que Gonzaguinha aprendeu
a tocar o instrumento. A primeira composição, “Lembranças da Primavera”, logo
veio aos 14 anos. Na época, o cantor viveu uma das conflituosas tentativas de
reaproximação com o pai. Preocupado com os gestos de rebeldia e indisciplina do
jovem, Gonzagão enviava o adolescente periodicamente a colégios internos, cuja
rigidez aumentava ainda mais os desentendimentos e a hostilidade entre os dois.
Anos mais tarde, nos versos de “Odaleia” (1979), homenageou a mãe. “Minha
cantora esquecida das noites brasileiras, Te amo / Compositora esmagada dessas
barras brasileiras / Te amo.” Segundo seu pai, “O Gonzaguinha era um violeiro,
bom instrumentista, e sempre escrevia muito. E eu me lembro que uma vez em Exu
(PE), ele estava lá e começou a cantar umas coisas dele. Eu digo: ‘Ô, Luiz, por
que você não toca violão no show? Você toca muito bem’. ‘Ah, você acha que eu
toco bem?’. "Acho, rapaz, e ninguém vai saber acompanhar as suas coisas como tu
mesmo!". Aí ele passou a tocar o violão, rapaz, e tinha uma harmonia bonita”,
rememorou. Finalmente, a paz entre pai e filho foi selada em 1979, quando
fizeram, juntos, o histórico espetáculo “Vida de Viajante”, com o qual
excursionaram pelo país e puderam, enfim, estabelecer uma amizade que perdurou
até a morte do sanfoneiro.
Cantor, compositor, desde o início da
carreira na década de 1970 – em plena ditadura militar – ele se fez notar,
também, por seu posicionamento em relação a questões sociais. Naquela época, com
Ivan Lins, Aldir Blanc, Paulo Emílio e Márcio Proença, criou o Movimento
Artístico Universitário (MAU). Foi quando compôs “Comportamento geral”, canção
cuja letra recheada de ironia traz este verso: “Você deve aprender a baixar a
cabeça/E dizer sempre muito obrigado/São palavras que ainda te deixam dizer/Por
ser homem disciplinado”.
Mas, na verdade, no legado de Gonzaguinha
prevalecem canções de temática romântica, entre elas “Começaria tudo outra vez”,
“Espere por mim morena”, “Eu apenas queria que você soubesse”, “Lindo lago do
amor” e “Sangrando”. Mas as de maior sucesso são “Explode coração” e “O que é
que é?”, ambas, já há algum tempo, presentes no repertório dos shows de Maria
Bethânia. Geralmente no bis, finalizando a apresentação, ela canta: “Eu sei que
a vida devia ser bem melhor e será/ Mas isso não importa que eu repita/É bonita,
é bonita e é bonita”.
Mas, voltando ao Gonzaguinha, cidadão e militante
das causas sociais, há um fato, de triste lembrança, presente no imaginário de
muita gente. Ao participar de show ocorrido em 30 de abril de 1981, que
antecipava a comemoração do Dia do Trabalhador, no Rio Centro (Rio de Janeiro),
coube a ele chamar a atenção dos companheiros de ofício e do público presente
sobre o atentado ocorrido minutos antes, perpetrado por agentes da repressão. Ao
microfone, ele afirmou: “Essas bombas detonadas representam uma luta para
destruir aquilo que nós queremos, a democracia e a liberdade”. Quarenta anos
depois, esse é o desejo da maioria dos brasileiros.
A letra de
“Sangrando” diz: “Quando eu soltar a minha voz/ Por favor, entenda/ Que, palavra
por palavra, eis aqui uma pessoa/ Se entregando”. Gonzaguinha de fato se
entregava, dava a cara a tapa e não tinha medo de nada, apesar da aparência
frágil. Corpo muito magro, era quase a descrição feita pelo colega Chico Buarque
em “Partido Alto” — “pele e osso, simplesmente, quase sem recheio” —, fruto de
duas tuberculoses. Com suas letras fortes e recitativas, falando de política, de
amor ou de esperança, Gonzaguinha marcou definitivamente a MPB e continua tão
presente por meio de suas músicas que não parece que nos deixou há mais de três
décadas.
Nos últimos anos, Elza Soares e Ney Matogrosso regravaram
“Comportamento Geral”, e artistas tão distintos quanto Maria Rita (“O Homem
Falou”, “E Vamos à Luta”), Filipe Catto (“Galope”), Daniel (“Maravida”), Ana
Carolina (“Sangrando”), Diogo Nogueira (“É”, “Guerreiro Menino”, “O Que é, O Que
é”) e Jojo Todynho (“Lindo Lago do Amor”) também revisitaram seu cancioneiro.
Outros, como Maria Bethânia, Simone, Zizi Possi, MPB-4 e Alcione, nunca deixaram
de fazê-lo. Ouvindo os discos de Gonzaguinha ou os diversos sucessos que
distribuiu para cantores dos mais diversos quilates e estilos, de Elis Regina a
Agnaldo Timóteo, de Cauby Peixoto e Marlene a Fafá de Belém e As Frenéticas,
tem-se verdadeiramente uma aula de história sentimental e sociopolítica do
Brasil. Destemido e passional, foi um dos artistas mais engajados da MPB,
cunhando inúmeras canções de protesto, que muitas vezes se confundiam com temas
existenciais, além de abrir espaço para uma análise das relações conjugais — mas
sem caretice — e do papel da mulher na sociedade, dando a elas um protagonismo
numa época em que não havia tantas letristas importantes em ação. Deste último
bloco, são inesquecíveis “Mulher, e Daí? (Apenas Mulher)”, “Eu Apenas Queria que
Você Soubesse” e “Ser, Fazer Acontecer”.
O teor de sua obra sempre foi
altamente confessional, totalmente ligado à sua trajetória pessoal – da rejeição
que sofreu inicialmente do Rei do Baião Luiz Gonzaga, seu pai adotivo, à
infância de moleque no morro de São Carlos (RJ), filho de Odaléia, dançarina do
inferninho carioca Dancing Brasil, passando pela militância universitária
(cursava Economia), quando participou dos primeiros festivais de música.
Inclusive venceu um deles, em 1969, com a música “O Trem”, antes de se envolver
com os saraus do MAU (Movimento Artístico Universitário), na virada dos anos
1960 para os 70, ao lado de Ivan Lins, Aldir Blanc e outros valores da MPB que
começavam a se destacar.
Para Gonzaguinha, “Uma canção de amor também é
aquela que canta o suor do trabalho / O calo das mãos de quem canta a esperança
(...) com garra e fé”, conforme dizia na letra de “Uma Canção de Amor”, lançada
por Joanna em 1981. Fato é que lutou por um Brasil mais justo em todos os níveis
e também por seus companheiros da música: foi um dos fundadores da Sombrás,
responsável por uma mudança radical na questão do direito autoral, que culminou
com a criação do Ecad. Também fundou seu próprio selo fonográfico, Moleque, para
editar suas músicas.
Para ser um cantor mais acessível a um número maior
de brasileiros, dispensou a figura do empresário, que dizia “só encarecer o
preço do artista”. Posturas radicais numa época em que todos tinham medo de
tudo, e poucos, a coragem de se expor como ele.
Gonzaguinha era tão
combativo que, no início de sua carreira, era chamado de “cantor-rancor”. Mesmo
com motivos de sobra para sentir e escrever músicas com títulos como
“Desesperadamente”, “Suor e Serragem”, “Gás Neon” e “Catatonia Integral”, seus
primeiros discos são bem pesados e sofreram muito com a tesoura da censura.
Tinha que fazer dois discos para conseguir lançar um – chegou a ter 15 canções
censuradas num único LP. Nas próprias canções, ele respondia aos que achavam que
podiam sabotá-lo. É o caso de “Recado” (1978): “Se me der um beijo eu gosto / Se
me der um tapa eu brigo / Se me der um grito não calo / se mandar calar mais eu
falo (...) Verbo eu pra mim já morreu / Quem mandava em mim nem nasceu”.
Em 1973, a corrosiva “Comportamento Geral”, após ter seu compacto quebrado no
programa de Flávio Cavalcanti, foi censurada. Mas, por outro lado, chamou a
atenção para ele, que logo teve o primeiro LP recolhido pela polícia. Triste é
constatar que, cinco décadas depois, sendo regravada por Elza Soares e Ney
Matogrosso, ainda mostra uma atualidade arrasadora em tempos de relações
trabalhistas pouco ortodoxas, estilo Uber e Rappi: “Você tem que lutar pela xepa
da feira / E dizer que está recompensado”.
Em 1976, viriam seus primeiros
sucessos românticos, a toada “Espere Por Mim, Morena” e o bolero “Começaria tudo
outra vez”, que o fez ganhar um novo público. Dois anos depois, Bethânia
estourava “Explode Coração”, vendendo 1 milhão de cópias de seu LP “Álibi”,
puxado por mais um bolero de sua autoria. Em 1980, ele gravaria “De Volta ao
Começo”, seu LP de maior sucesso, trazendo canções de diversos matizes.
A
existencial e passional “Sangrando”, citada no início desse artigo; o samba “E
Vamos à Luta”, exaltando uma juventude consciente que lutava por seus direitos,
mas sabia curtir a vida (“Eu acredito é na rapaziada / Que segue em frente e
segura o rojão”) e os dramas conjugais nas aboleradas “Grito de Alerta”
(composta para Agnaldo Timóteo, mas hit na voz de Bethânia) e “Ponto de
Interrogação”, sem esquecer uma crônica sobre a abertura política e a anistia em
“A Marcha do Povo Doido”.
Dois anos depois, viria o maior sucesso de sua
carreira, o sambão otimista “O Que É, O Que É” (“Viver e não ter a vergonha de
ser feliz...”), que alguns anos antes ninguém imaginaria que ele fosse capaz de
compor. Gonzaguinha finalmente fazia as pazes com a vida, época em que sua obra
ficou mais leve, dos hits “Feliz”, “Mamão Com Mel”, “Lindo Lago do Amor”,
“Caminhos do Coração” e “Belo Balão”.
Mesmo assim, o compositor jamais
abandonaria sua verve político-social, já que em todos os seus discos sempre
havia músicas que falavam dos rumos do país e da situação do povo brasileiro.
Logo em 83, Fagner estourava a cortante “Guerreiro Menino”, e dois de seus
últimos sucessos, “Geral” (1986) e “É” (1988) davam conta de criticar a chamada
Nova República, exigindo um país mais justo. “A gente quer é ser um cidadão / A
gente quer viver uma nação”, dizia o segundo, um samba pungente que foi incluído
na trilha da novela “Vale Tudo”, de Gilberto Braga, que marcou época.
Um
acidente de carro na BR-280, a 390 Km de Curitiba, o matou em abril de 1991. Na
ocasião, o cantor e compositor se encaminhava para Foz do Iguaçu, e ali tomaria
um avião para Florianópolis, onde realizaria uma série de seis shows. Só mesmo
uma fatalidade para tirar a voz de um sujeito que não costumava se calar diante
de nada – como pai, filho, amigo, trabalhador, amante e artista.
Cândido Luiz de Lima Fernandes é economista e professor universitário em
Belo Horizonte; email:
candidofernandes@hotmail.com

Direção e Editoria
Irene Serra
Revista Rio Total

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