01/06/2026
Ano 29
Semana 1.509



ARQUIVO
de
MÚSICA





 







Belchior (1946- 2017) 


Cândido Luiz de Lima Fernandes


Atendendo ao pedido de um leitor da revista Rio Total escrevo hoje sobre Belchior, cantor, poeta, compositor, músico, produtor, professor de biologia, desenhista e artista plástico brasileiro. Nasceu em Sobral em 26 de outubro de 1946 e faleceu aos 70 anos em Santa Cruz do Sul, em 30 de abril de 2017 vitimado pelo rompimento de um aneurisma na aorta. Um dos membros do chamado Pessoal do Ceará, que incluía Fagner, Ednardo, Amelinha e outros, Belchior foi um dos primeiros cantores de MPB do nordeste brasileiro a fazer sucesso internacional, em meados da década de 1970. Durante uma entrevista, ao declarar o seu nome completo - Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes -, Belchior acrescentou, em tom de brincadeira, que seria o "maior nome da MPB". Belchior foi um dos principais cantores e compositores da Música Popular Brasileira, alcançando grande projeção nacional e internacional, especialmente a partir do álbum “Alucinação” (1976).

Este álbum, produzido por Marco Mazzola, é considerado por vários críticos musicais como um dos mais revolucionários da história da MPB e um dos mais importantes de todos os tempos para a música brasileira. Entre os seus maiores sucessos estão "Apenas um Rapaz Latino-Americano", "Como Nossos Pais", "Mucuripe", "Divina Comédia Humana", "Tudo Outra Vez", "Comentário a Respeito de John", "Coração Selvagem", "Ypê", "Medo de Avião", "Galos, Noites e Quintais", "Paralelas", "Conheço meu Lugar", "Cemitério", "Fotografia 3×4", "Velha Roupa Colorida", "Rock Romance de Um Robô Goliardo", "A Palo Seco", "Na Hora do Almoço", "Pequeno Mapa do Tempo", "Balada de Madame Frigidaire", "Caso Comum de Trânsito", "Antes do Fim", "Não Leve Flores", "Voz da América", "Como o Diabo Gosta", "Vício Elegante", "Meu Cordial Brasileiro", "Alucinação", "Sujeito de Sorte" e "Morena Cor do Cacau".

Nos últimos anos de vida, Belchior supostamente desapareceu por duas vezes, tendo sido, por fim, encontrado no Uruguai. Nesta época, o cantor passou por uma trajetória de momentos difíceis, deixando dívidas, morando de favores e até mesmo dormindo embaixo da ponte.

Biografia

Durante sua infância foi cantador de feira e poeta repentista. Estudou música, canto para coral e piano com Acácio Halley. Seu pai, Otávio Belchior Fernandes (1905–1980) era um cidadão muito respeitado na cidade, sendo juiz e delegado. Sua mãe, Dolores Gomes Fontenelle Fernandes (1921–2011) cantava no coral da igreja. Ainda criança recebeu influência dos cantores do rádio Ângela Maria, Cauby Peixoto e Nora Ney. Foi programador de rádio em Sobral.

Depois de completar seus estudos secundários no Colégio Sobralense (depois, Colégio Diocesano Sobralense) Belchior optou por vivenciar um período de disciplina religiosa. Por três anos viveu em comunidade com frades italianos no mosteiro dos capuchinhos, em Guaramiranga. Ali estudou latim, italiano e canto gregoriano. Em seguida regressou a Fortaleza, onde estudou Medicina, mas abandonou o curso no quarto ano, em 1971, para dedicar-se à carreira artística.

Ligou-se a um grupo de jovens compositores e músicos como Fagner, Ednardo, Amelinha, Jorge Mello, Rodger Rogério, Teti, Cirino e outros. O grupo ficou conhecido como o "Pessoal do Ceará".

De 1967 a 1970 apresentou-se em festivais de música no Nordeste.

Em 1971, quando se mudou para o Rio de Janeiro, venceu o IV Festival Universitário da MPB organizado pela TV Tupi com a canção "Na Hora do Almoço", cantada por Jorginho Telles e Jorge Nery. Com a premiada canção, Belchior estreou como cantor em disco, um compacto da etiqueta Copacabana.

Em São Paulo, para onde se mudou em 1972, compôs canções para alguns filmes de curta metragem, continuando a trabalhar individualmente e às vezes em grupo. Em 1972, Elis Regina gravou sua composição "Mucuripe", juntamente com Fagner. Atuou em escolas, teatros, hospitais, penitenciárias, fábricas e televisão. Gravou seu primeiro LP em 1974, na gravadora Chantecler.

O seu segundo álbum, “Alucinação” (Polygram, 1976), consolidou sua carreira, gravando canções de sucesso como "Velha Roupa Colorida" e "Como Nossos Pais", que haviam sido lançadas por Elis Regina, em 1975, em seu espetáculo "Falso Brilhante" e "Apenas um Rapaz Latino-Americano". Mais adiante, no segundo semestre de 1976, foi convidado para ser um dos artistas fundadores da WEA no Brasil, atualmente conhecida como a Warner Music Group. Graças a estes hits, “Alucinação” vendeu 30 mil cópias em apenas um mês. Outros êxitos incluem "Paralelas", lançada por Vanusa, e "Galos, Noites e Quintais", regravada por Jair Rodrigues.

Em 1979, no LP “Era uma Vez um Homem e Seu Tempo” (Warner), gravou "Comentário a Respeito de John", uma homenagem a John Lennon, que também foi gravada pela cantora Bianca. Em 1983, junto com um sócio, fundou sua própria produtora e gravadora, Paraíso Discos e em 1997 tornou-se sócio do selo Camerati, ambos em São Paulo. Sua discografia inclui “Um show – dez anos de sucesso” (1986, Continental) e Vício Elegante (1996, GPA Music/Paraíso), com regravações de sucessos de outros compositores

Em 2005, Belchior conheceu Edna Prometheu (pseudônimo de Edna Assunção de Araújo), no ateliê do artista plástico cearense e amigo comum Aldemir Martins. No mesmo ano, Belchior se separou da primeira esposa, Ângela Margareth, com quem vivia há 35 anos.

Em 2007, a família reclamou que Belchior havia sumido, abandonando a carreira e seus bens pessoais em São Paulo. Belchior teria abandonado, sem explicação, ao menos dois carros: um no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo; e outro, uma Mercedes Benz, em um estacionamento também em São Paulo, acumulando milhares de reais em dívidas de estacionamento.

Ao longo de 2008, desde a saída de São Paulo e a chegada ao Rio Grande do Sul, Belchior não teve um paradeiro certo. Após a sua morte, diversos jornalistas identificaram que o motivo principal do sumiço e do abandono dos bens do artista em São Paulo eram as dívidas. Belchior estaria enfrentando processos judiciais relacionados às pensões alimentícias para sua ex-mulher e uma filha mais jovem que teve fora do casamento, além de um processo trabalhista envolvendo antigos funcionários. Pelo menos, um ex-produtor do cantor moveu e venceu ação contra o cantor.

Devido a esses processos Belchior teve seus carros apreendidos e suas contas bancárias bloqueadas, ficando impedido de ter acesso aos valores de direitos autorais. Nos primeiros meses, Belchior conseguia se manter com o rendimento dos direitos autorais de suas músicas. Em seguida, o cantor foi para o Rio Grande do Sul e Uruguai, onde morou em hotéis, casas de fãs e em uma instituição de caridade.

Entre 2009 e 2017, ano de sua morte, Belchior e a companheira Edna Assunção de Araújo viveram em diversas cidades do Rio Grande do Sul e do Uruguai. Em 2009 a Rede Globo noticiou o suposto desaparecimento do cantor. Segundo a emissora Belchior havia sido visto pela última vez em abril daquele ano, ao participar de um show do cantor tropicalista Tom Zé em Brasília. Fagner, amigo do cantor, diz que chegou a se encontrar com Belchior em Canela, no Rio Grande do Sul, em um evento musical em 2009. Turistas brasileiros afirmaram terem-no encontrado no Uruguai, em julho do mesmo ano. De lá concedeu entrevista ao programa Fantástico da Rede Globo, declarando que não havia desaparecido e que estava preparando um disco de canções inéditas, além do lançamento de todas as suas canções em espanhol.

Durante os anos que viveu no Rio Grande do Sul e Uruguai, o casal Belchior e Edna não possuía residência fixa e foi recebido em casas de amigos e fãs, tendo as despesas pagas pelos anfitriões, passando pelas cidades de: Porto Alegre, Santa Vitória do Palmar, São Lourenço do Sul, Xangri-Lá, na praia de Atlântida do Sul (em Osório), Guaíba, Cachoeirinha, Jaguarão, Quaraí, Sobradinho e, por fim, Santa Cruz do Sul, onde Belchior faleceu em 2017.

Nesses últimos anos, Belchior foi encontrado visitando o Uruguai em pelo menos duas ocasiões: em 2009, em San Gregorio de Polanco, na região central do Uruguai, e em 2012, em Artigas, cidade gêmea de Quaraí, onde ele viveu. Depois dessa estadia em Artigas, deixou para trás uma dívida em diárias, além de objetos pessoais. Depois disso, ao ser identificado passeando por Porto Alegre afirmou que as notícias sobre a dívida no Uruguai não seriam verdadeiras.

Em um inverno de 2013, Belchior vivia um momento de busca por anonimato e paz, longe da fama que o consagrara nas décadas anteriores. Com sua esposa, Edna Prometheu, encontrou refúgio em Seberi, cidade do norte gaúcho com quase 11 mil habitantes, onde viveu por cerca de 60 dias entre camponeses do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).
Essa fase pouco conhecida de sua vida foi registrada no minidocumentário "Belchior entre os camponeses", produzido pelo jornalista Marcos Antonio Corbari. O filme revive os momentos desse período tão especial de convivência entre o cantor e a comunidade local. O artista, cuja música sempre transbordou poesia e reflexão sobre a condição humana, encontrou em Seberi o acolhimento que tanto buscava, ao lado de Edna.

A decisão de se refugiar na cidade surgiu em meio a uma situação delicada em Porto Alegre, onde o casal estava vivendo em uma ocupação urbana. A mídia estava em busca do cantor, o que o deixou ainda mais distante da tranquilidade que procurava. Foi então que Roberta Coimbra, uma das militantes da Cooperativa Camponesa de Seberi (Cooperbio), sugeriu o abrigo na cooperativa, que foi prontamente aceito pelo Movimento dos Pequenos Agricultores.
A cooperativa, ligada ao MPA, foi o local onde Belchior e Edna encontraram anonimato e paz. Com o acolhimento caloroso das famílias, o casal experimentou dias tranquilos e imersos na rotina simples do campo. Ali, entre conversas e trabalhos coletivos, Belchior foi reconhecido não como o artista aclamado, mas como o ser humano que procurava se reconectar com o mundo de forma genuína e sem os holofotes da fama.

Belchior morreu em 30 de abril de 2017, aos 70 anos, na cidade de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul. A causa da morte foi a ruptura de um aneurisma da aorta. O então governador do Ceará Camilo Santana decretou luto oficial de três dias, providenciando o traslado do corpo para o Ceará, conforme o desejo do cantor de ser enterrado no seu Estado natal. Belchior foi velado em Sobral, cidade em que nasceu, e sepultado em Fortaleza.


Coloco-me à disposição para esclarecer dúvidas e receber sugestões de novos artigos no email candidofernandes@hotmail.com.


Cândido Luiz de Lima Fernandes é
economista e professor universitário em Belo Horizonte;
email: candidofernandes@hotmail.com





Direção e Editoria
Irene Serra
Revista Rio Total