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Ney Matogrosso
Cândido Luiz de Lima Fernandes
Dono de uma trajetória que se mescla à história da MPB, Ney Matogrosso vem
soltando a potente voz, capaz de alcançar um agudo raro e fazer reverberar
ideias reveladoras de uma mente sem travas, em mais de cinquenta anos de palco. Desde
que surgiu na cana musical, ele, que viria a integrar o transgressor Secos &
Molhados da década de 1970, vive de cutucar temas tabus – algo que agora, aos 82
anos, pratica com renovado rigor. Idade para ele, nascido em Mato Grosso, é um
conceito abstrato, tanto que anda às voltas com uma agenda lotada de shows.
Ney Matogrosso não é só uma lenda da música brasileira — ele é uma revolução
em carne, voz e coragem. Desde os anos 70, sua trajetória atravessa décadas como
um grito de liberdade, subversão e beleza única. Com um visual andrógino, uma
voz inconfundível e uma presença de palco hipnotizante, Ney não apenas
transformou a MPB, mas também questionou paradigmas sociais e culturais.
Ney nasceu em 1º de agosto de 1941, em Bela Vista, no interior do Mato Grosso do
Sul, numa família marcada pela disciplina e pela arte. Filho de um militar e uma
pianista, ele cresceu entre contradições: a rigidez da caserna do pai e a
sensibilidade da mãe. Desde cedo, Ney mostrou um fascínio pelas artes,
especialmente pela música e pelo teatro, que seriam sua válvula de escape e a
arena de sua transformação pessoal.
Ainda jovem, Ney sentiu o chamado da
cidade grande e partiu para o Rio de Janeiro. A mudança foi uma ruptura
necessária, pois ele buscava um espaço para se expressar longe das amarras
conservadoras do interior. No Rio, Ney trabalhou em funções simples — foi
garçom, auxiliar de enfermagem, dançarino de boate — até que encontrou seu lugar
no teatro e, logo depois, na música. O encontro com o universo artístico foi o
ponto de partida para a construção do que viria a ser uma das mais importantes
carreiras da cultura brasileira.
A influência do teatro na sua
performance sempre foi fundamental. Ney incorporou o corpo e a voz como
instrumentos expressivos, transcendendo o mero ato de cantar para se tornar um
performer completo. Essa base teatral foi o que o diferenciou desde o início,
criando uma linguagem visual e sonora nunca antes vista no Brasil. Seu destino
artístico estava traçado — e seria marcado pela ousadia, pela inovação e pelo
inconformismo.
O ano de 1973 foi o divisor de águas na carreira de Ney
Matogrosso. Ele se uniu ao grupo Secos & Molhados, que rapidamente virou
fenômeno nacional. Com um som que misturava rock, MPB, música regional e poesia,
o grupo chamou atenção pelo repertório original e pela performance visual
inovadora, com Ney usando maquiagem pesada, figurinos extravagantes e
coreografias que desafiavam as normas de gênero.
A voz aguda de Ney,
junto à sua figura andrógina, foi um choque para a sociedade conservadora da
época, em pleno regime militar. As músicas “O Vira”, “Sangue Latino” e “Rosa de
Hiroshima” se tornaram hinos que atravessaram gerações e carregaram mensagens de
resistência, liberdade e questionamento político. Ney, com seu corpo em
movimento e sua interpretação visceral, transformou cada show num manifesto
visual e sonoro.
Além do impacto musical, o Secos & Molhados colocou em
pauta questões de identidade e liberdade sexual, algo raríssimo e subversivo nos
anos 70 no Brasil. Ney não era apenas um cantor — era um símbolo de ruptura, uma
provocação ambulante que obrigava o público a repensar preconceitos. O sucesso
meteórico do grupo, que durou apenas alguns anos, deixou um legado duradouro que
reverbera até hoje.
Desde os anos 1970, quando a visibilidade que era
praticamente inexistente e o preconceito imperava, Ney se colocou na linha de
frente da liberdade de expressão, usando seu corpo, sua voz e sua arte para
desafiar normas rígidas de gênero e sexualidade. Sua postura corajosa abriu
espaço para que muitas pessoas LGBTQ+ pudessem se reconhecer, se afirmar e lutar
por seus direitos com mais confiança.
Ao longo da carreira, Ney sempre
defendeu a diversidade e o respeito, se tornando símbolo de resistência contra o
preconceito e modelo de autenticidade para gerações que vieram depois dele. Por
isso, sua importância vai muito além da música — ele é um farol que ilumina o
caminho da luta por igualdade, liberdade e amor sem rótulos.
Após a
dissolução do Secos & Molhados, Ney não perdeu fôlego — pelo contrário, ganhou
espaço para mostrar sua versatilidade artística. Lançou em 1975 seu primeiro
disco solo, “Pecado”, onde já se percebe uma assinatura forte e uma busca por
novos caminhos. Ney se afastou um pouco do rock para mergulhar em um universo
musical mais diverso, transitando entre MPB, samba, pop e até influências
latinas.
Sua discografia é um exercício contínuo de reinvenção. Discos
como “Bandido” (1976), “Feitiço” (1978), “Pescador de Pérolas” (1983) e “Folheto
de Empréstimo” (1986) mostram que Ney não tem medo de experimentar, seja nas
escolhas do repertório, seja nas parcerias musicais. Ele trabalhou com nomes
fundamentais da música brasileira como Chico Buarque, Caetano Veloso, Itamar
Assumpção e Cazuza — sempre imprimindo sua personalidade inconfundível.
A
interpretação é o ponto alto da carreira solo de Ney. Ele não apenas canta as
músicas, ele as reinterpreta, dando nova vida e novas camadas de significado a
cada verso. Essa capacidade faz com que suas versões permaneçam atuais, mesmo
décadas após o lançamento original. Ney Matogrosso é, acima de tudo, um
intérprete com uma técnica vocal apurada e uma sensibilidade rara, que ele
explora com a maturidade dos anos.
Ney Matogrosso não é apenas uma voz
icônica; ele é um símbolo visual inconfundível. Desde os tempos do Secos &
Molhados, Ney desafiou os padrões tradicionais de masculinidade com sua estética
única. Usar maquiagem, figurinos coloridos e andróginos, usar o corpo como
palco, tudo isso fazia parte da sua revolução silenciosa.
A ousadia
estética de Ney não era mero fetiche, mas uma forma de expressão e resistência
contra o conservadorismo da sociedade brasileira. Num país onde homens
precisavam provar masculinidade rígida, ele exibia sua liberdade com plenitude.
Seus figurinos foram assinados por grandes nomes da moda e do teatro, e sua
performance se tornou um manifesto político sobre o direito de ser quem se é.
Essa postura abriu portas para debates sobre sexualidade, identidade de
gênero e liberdade artística que só se tornaram mais fortes nas décadas
seguintes. Ney mostrou que a arte pode — e deve — quebrar barreiras, e que o
corpo do artista é território político. Essa coragem estética faz de Ney
Matogrosso uma das figuras mais influentes não só da música, mas da cultura
brasileira como um todo.
A obra musical de Ney Matogrosso é um baú
repleto de clássicos que atravessam gerações. Canções como “Homem com H”, que
questiona padrões machistas, virou hino para quem busca liberdade. “Poema”, uma
parceria com Cazuza, é um mergulho nas emoções mais cruas, cantada com uma
entrega visceral. Já “Balada do Louco”, ao lado dos Mutantes, une o psicodelismo
com a irreverência de Ney. “Sangue Latino” e “Rosa de Hiroshima” não são só
músicas, são verdadeiros marcos culturais, símbolos da resistência contra a
opressão e a ditadura militar.
Com um repertório que mistura poesia,
crítica social e emoção, Ney sempre escolheu músicas que tinham uma mensagem
potente, que falassem de humanidade e contradição. Essas canções continuam
presentes na cultura popular, sendo regravadas, estudadas e reverenciadas.
Ney não só construiu um repertório de hits — ele construiu uma obra com
significado e impacto. A durabilidade dessas músicas reflete a capacidade do
artista de conectar passado, presente e futuro.
Assistir a um show de Ney
Matogrosso é testemunhar um ritual. Ney vai além do canto: ele vive a música,
performa a emoção. Suas apresentações são uma mistura de teatro, dança e música,
em que cada gesto carrega um significado. Mesmo com a idade avançada, Ney mantém
a energia e a intensidade, fazendo do palco um espaço sagrado onde a liberdade é
celebrada. Ele domina o palco com um carisma quase hipnótico, transformando a
relação com o público em uma experiência visceral. A entrega é total, e o
impacto, inesquecível.
Seja nas grandes casas de show ou em palcos
menores, Ney cria uma conexão única, onde a música vira ponte para tocar emoções
profundas. Ele reafirma que o artista deve ser, acima de tudo, um agente de
transformação — e que a arte pode libertar, curar e revolucionar.
Fora
dos palcos, Ney é reservado, mas não menos intenso. Vegetariano convicto, amante
da natureza e da tranquilidade, ele escolheu um sítio no Rio de Janeiro para
viver longe do burburinho da fama, mas perto de sua essência. Sempre falou
abertamente sobre sua sexualidade e identidade, quebrando tabus em uma época
muito mais conservadora. Ney não apenas abriu portas para que outros se
expressassem, como construiu sua vida com uma coerência admirável — sem jamais
abrir mão da liberdade de ser quem é.
Em entrevistas recentes, Ney
revelou que seu maior sonho é continuar cantando até o fim, sem parar. Ele não
pensa em aposentadoria, pois para ele a arte é um oxigênio. O legado de Ney
Matogrosso vai além dos discos e dos palcos: é um legado de coragem,
autenticidade e de constante reinvenção.
Para quem tem Netflix recomendo
não deixar de assistir ao filme “Homem com H”, dirigido por Esmir Filho, que
retrata o artista com franqueza e sem nenhuma mentira, percorrendo seus altos e
baixos.

Direção e Editoria
Revista Rio Total
Cândido Luiz de Lima Fernandes é economista e professor universitário em
Belo Horizonte;
candidofernandes@hotmail.com
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