16/08/2024
Ano 27
Semana 1.379

 

 

Minibiografia
Matusalém Dias de Moura







 

Matusalém Dias de Moura




INSTANTE

Aquele instante foi de eternidade,
pois dele nunca mais eu me esqueci.
Relembro ainda agora o frenesi
daquela nossa mútua intimidade.

Entregues à maior felicidade,
nós nos atamos um ao outro ali:
tu foste toda minha e eu de ti,
escondidos dos olhos da maldade.

É bom demais de nós (ah!) recordar,
com minha alma levíssima a sonhar
na distância do tempo envelhecido!

E eu sonho. Sonho e lembro, aqui sozinho,
aquele belo instante do caminho
que contigo vivi embevecido.


VILANIA DO DESTINO

Já fui, em tempos idos, teu amor,
fui teu cúmplice, fui teu companheiro,
fui o homem que se fez o teu primeiro,
também te amei demais, com todo ardor,

sentindo o tempo todo o teu calor,
naquele amanhecer alvissareiro
de nosso caminhar tão prazenteiro,
liberto da maldade e do rancor.

Um dia, bem depois, nos apartamos,
e, agora, ao me lembrar do quanto amamos,
eu percebo que muito te amo ainda

e fico a meditar sobre o destino
que foi do nosso amor um assassino,
tirando-me da vida a parte linda.


NOSSA BREVE HISTÓRIA

Está guardada em mim a bela história
dos instantes de entrega e de loucura
de um amor encharcado de doçura,
que vivemos em breve trajetória.

Os nossos dias, guardo-os na memória
e ao relembrá-los, hoje, de alma pura,
vejo que não passou de uma aventura
aquela mútua entrega provisória

de nossas almas cheias de ilusão,
unidas numa vida em comunhão,
mas que chegou ao fim tão de repente.

Tudo passou, agora é só lembrança.
Para nós não restou nem esperança
de nos reencontrarmos novamente.


CARTA DE AMOR PARA
BERNADETTE LYRA


Nestes teus olhos
miúdos e falantes,
há sempre um poema
alumiando o meu tempo
quando te encontro
e te contemplo.
Um poema
que me acalenta,
me inspira santidade,
me ensina sabedoria,
me faz maior que eu mesmo,
ante os sonhos do caminho,
e me desembaraçam as ambições de santo
no altar da Poesia.
Obrigado, Bernadette, por seres quem és:
professora de imensidades,
escritora entre os notáveis,
menina em cada sorriso,
amiga em todos os minutos,
poesia e música
no salão do bem-querer;
dama maior das letras
nas páginas da ficção!

  PRECE DE GRATIDÃO

Contemplo no horizonte o sol morrendo,
a noite, com seu véu, cobrindo o dia,
devagar, a espargir melancolia
sobre todas as coisas que estou vendo.

E, lentamente, o mundo anoitencendo
desperta em mim a fé que adormecia,
e eu, então, num impulso de ousadia,
vou ao meu Deus, em alma, pretendendo

render a Ele minha gratidão
por jamais me faltar à mesa o pão,
nem as forças vitais para lutar

intensamente pela vida plena,
de forma destemida, mas serena,
até o dia em que a morte me levar.


ESPERA

Noite inteira, à janela, a te esperar.
Não cumpriste comigo o combinado,
e eu, com olhos abertos, acordado,
vi, lentamente, o dia clarear.

Não vieste a minha alma acalentar,
deixando-me infeliz e acabrunhado
a ver morrer meu sonho tão sonhado
de ter o teu amor e de te amar.

Depois dessa terrível noite antiga,
não te quero nem mesmo como amiga,
para evitar futuros sofrimentos.

É bem melhor aqui ficar, sem ti
e que prossigas livre por aí,
sem um causar ao outro mais tormentos.


TOLA PRETENSÃO

Quero que meus poemas sejam luz
nos caminhos estreitos da igualdade,
pelo quais prosseguimos, sob a cruz
do pecado, ao encontro da Verdade

que nos liberta do erro e nos conduz
à presença de Deus, na eternidade,
a que o Evangelho a todos nos induz
a chegarmos, fazendo a caridade.

Ah! Esse meu querer é apenas sonho.
Não há como por Deus ser atendido,
pois são pobres os versos que componho

em momentos de fraca inspiração
e de cansaço às vezes dolorido,
que me deixam vencido, sem ação.


NO QUARTO DE MAMÃE

Oitenta e um anos,
se estivesse viva,
mamãe faria hoje.

Não está.

Aqui, sozinho,
no quarto deserto,
olhando a cama
onde ela dormia,
ofereço-lhe uma saudade,
um sorriso, uma Ave-Maria
e um beijo na fotografia.

Lágrimas não.

A ela, agradecido,
faço um poema de amor.

Depois, saio
imaginando a face alegre de Deus
abrindo-lhe a porta do Céu
e lhe dizendo:
Entra, Dona Belisana, a Casa é sua.

Parabéns, Mãe!

Casinha do Quilombo, 28/09/2022, às 9h35

     


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Direção e Editoria
Irene Serra