INSTANTE
Aquele instante foi de eternidade, pois dele nunca mais eu me
esqueci. Relembro ainda agora o frenesi daquela nossa mútua intimidade.
Entregues à maior felicidade, nós nos atamos um ao outro ali: tu foste
toda minha e eu de ti, escondidos dos olhos da maldade.
É bom demais
de nós (ah!) recordar, com minha alma levíssima a sonhar na distância do
tempo envelhecido!
E eu sonho. Sonho e lembro, aqui sozinho, aquele
belo instante do caminho que contigo vivi embevecido.
VILANIA DO DESTINO
Já fui, em tempos idos, teu amor, fui teu cúmplice, fui teu companheiro,
fui o homem que se fez o teu primeiro, também te amei demais, com todo ardor,
sentindo o tempo todo o teu calor, naquele amanhecer alvissareiro de
nosso caminhar tão prazenteiro, liberto da maldade e do rancor.
Um
dia, bem depois, nos apartamos, e, agora, ao me lembrar do quanto amamos,
eu percebo que muito te amo ainda
e fico a meditar sobre o destino que
foi do nosso amor um assassino, tirando-me da vida a parte linda.
NOSSA BREVE HISTÓRIA
Está guardada em mim a bela história dos
instantes de entrega e de loucura de um amor encharcado de doçura,
que vivemos em breve trajetória.
Os nossos dias, guardo-os na
memória e ao relembrá-los, hoje, de alma pura, vejo que não passou
de uma aventura aquela mútua entrega provisória
de nossas
almas cheias de ilusão, unidas numa vida em comunhão, mas que
chegou ao fim tão de repente.
Tudo passou, agora é só lembrança.
Para nós não restou nem esperança de nos reencontrarmos novamente.
CARTA DE AMOR PARA BERNADETTE LYRA
Nestes teus
olhos miúdos e falantes, há sempre um poema alumiando o meu
tempo quando te encontro e te contemplo. Um poema que me
acalenta, me inspira santidade, me ensina sabedoria, me faz
maior que eu mesmo, ante os sonhos do caminho, e me desembaraçam
as ambições de santo no altar da Poesia. Obrigado, Bernadette, por
seres quem és: professora de imensidades, escritora entre os
notáveis, menina em cada sorriso, amiga em todos os minutos,
poesia e música no salão do bem-querer; dama maior das letras
nas páginas da ficção!
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PRECE DE GRATIDÃO
Contemplo no horizonte o sol morrendo, a
noite, com seu véu, cobrindo o dia, devagar, a espargir melancolia
sobre todas as coisas que estou vendo.
E, lentamente, o mundo
anoitencendo desperta em mim a fé que adormecia, e eu, então, num
impulso de ousadia, vou ao meu Deus, em alma, pretendendo
render a Ele minha gratidão por jamais me faltar à mesa o pão, nem
as forças vitais para lutar
intensamente pela vida plena, de
forma destemida, mas serena, até o dia em que a morte me levar.
ESPERA
Noite inteira, à janela, a te esperar. Não cumpriste
comigo o combinado, e eu, com olhos abertos, acordado, vi,
lentamente, o dia clarear.
Não vieste a minha alma acalentar,
deixando-me infeliz e acabrunhado a ver morrer meu sonho tão sonhado
de ter o teu amor e de te amar.
Depois dessa terrível noite
antiga, não te quero nem mesmo como amiga, para evitar futuros
sofrimentos.
É bem melhor aqui ficar, sem ti e que prossigas
livre por aí, sem um causar ao outro mais tormentos.
TOLA PRETENSÃO
Quero que meus poemas sejam luz nos caminhos
estreitos da igualdade, pelo quais prosseguimos, sob a cruz do
pecado, ao encontro da Verdade
que nos liberta do erro e nos
conduz à presença de Deus, na eternidade, a que o Evangelho a
todos nos induz a chegarmos, fazendo a caridade.
Ah! Esse meu
querer é apenas sonho. Não há como por Deus ser atendido, pois são
pobres os versos que componho
em momentos de fraca inspiração
e de cansaço às vezes dolorido, que me deixam vencido, sem ação.
NO QUARTO DE MAMÃE
Oitenta e um anos, se estivesse
viva, mamãe faria hoje.
Não está.
Aqui, sozinho, no
quarto deserto, olhando a cama onde ela dormia, ofereço-lhe uma
saudade, um sorriso, uma Ave-Maria e um beijo na fotografia.
Lágrimas não.
A ela, agradecido, faço um poema de amor.
Depois, saio imaginando a face alegre de Deus abrindo-lhe a
porta do Céu e lhe dizendo: Entra, Dona Belisana, a Casa é sua.
Parabéns, Mãe!
Casinha do Quilombo, 28/09/2022, às 9h35
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