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Luiz de Melo Sobrinho
Esperteza malvista
Aos pássaros não falta comida no meu quintal. Mas, se um apanha uma
migalha de pão e vai comer no gramado, outro vai atrás e lhe toma a comida. A
ambição é comum aos humanos e animais. Lembro aqui a fábula "Canis per flumen
carnem ferens". O cão atravessa um rio com pedaço de carne na boca. Vê, no
espelho das águas o reflexo de sua imagem. Supondo ser outro cão levando um
pedaço de carne na boca, tenta tomar. Mas, ao abrir a boca, não pega o que
cobiça e perde o que tem. Foi assistindo ao comportamento ambicioso dos
passarinhos que, deitado na rede, escrevi este soneto.
Defeitos e vícios são feitos humanos.
Destaca-se aqui a malvada ambição.
Mas, todos denotam processos levianos
Passíveis de pronta e total rejeição.
Aquele que acima já teve menção
Ocorre nos atos matreiros, insanos
De alados roubando migalha de pão
Do próprio parceiro no bando de manos.
Na ave, instinto que busca vivência.
No homem, cobiça-vileza-maldade.
Em ambos, ao menos, não há violência.
Apenas a ave não faz por ruindade.
Ao homem, porém, se atribui a pendência
Do acerto da conta que deve à verdade.

Direção e Editoria
Irene Serra

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