UM MURAL DE PORTINARI
mural de Portinari
no
Memorial da América Latina
Via Crucis onde Tiradentes -
mártir imolado -
verte sangue por outros Judas
Brasil de sempre nenhuma novidade
nada aprendemos
nestes anos todos.
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FILHOS DA DISTINÇÃO
diga-me playboy: iphone 17 óculos
raiban
com quantos explorados faz-se tua ostentação?
diga-me playboy: camisa Ralph Lauren enoteca nos Jardins
até quando suportar pobres viajando de avião?
diga-me
socialite: vestido Prada bolsa Louis Vuitton
por que diabo
banguelas sorriem tanto?
no pais fashion eles bebem
água Perrier
no país real nem água eles tem.
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PRIMEIRAS LIÇÕES
menino pobre insistiu com a
mãe
e comprou chocolates da Kopenhagen
presenteou
seu amigo secreto
recebeu uma caneta Paper Mate azul
como paga
cedo percebeu que o capitalismo seleciona &
classifica
e levou a lição para a vida.
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RAIO-X
a libido conduz pensamentos pouco
ilibados
olhos mergulham em teu decote
e ofegantes
respiram para recuperar
o fôlego
depois insanos
afogam-se afogueados
em tuas águas profundas.
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AMOR BLASÉ
ele atravessou a cidade sob a
chuva
para encontrar alguém
esperou ser anunciado
pelo interfone
do outro lado alguém respondeu:
não suba
olhe no celular
olhou e emudeceu
sem nenhuma reação
despediu-se
anônimo ingressou
na noite urbana sem
estrelas.
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OPOSIÇÕES
o vidro raiban do Range Rover
o cão caramelo & a moça dos malabares
sol a seu
posto
semáforos em tricolor cadência
olhos
miram o horizonte
e não o acertam
a bala perdida
o menino vendendo drops de hortelã.
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Ricardo Mainieri é poeta e micro contista gaúcho. Nascido em
Porto Alegre, RS, geração 60.
Publicitário de profissão, pela PUC-RS,
e funcionário público municipal, aposentado.
Colaborador, por muitos
anos, da saudosa publicação alternativa,
Livro da tribo.
Autor
dos livros de poesia:
“A travessia dos espelhos”, 1990;
“Mínimo animal
poeta”, 2021;
“Emoções em trânsito”, 2022;
“Assemblage”, 2023,
“Ciclos
(im)perfeitos”, 2024 e
“Origamis urbanos”, 2026.