16/06/2025
Ano 28
Semana 1.413





ARQUIVO
EUGÉNIO DE SÁ








EUGÉNIO DE SÁ

Sonetos escolhidos



Chãos de Guerra

Não há altares que valham, que se bastem
Nem d’Allah as bandeiras esverdeadas
Que o sangue é negro e corre pelas estradas
Não há mais dor que as orações resgatem.

Que céus são esses que a fumaça esconde?
Que estrondos colossais, que vil fragor,
Ofendem tanto a terra do Senhor
Que procura o amor, sem saber onde!

Ódios à solta por trás dos canhões
Meninos-homens, raivas sem idade
Chãos semeados só de humilhações.

Pasma-se o mundo de incredulidade
Esgrimem-se vozes, gritam-se razões
Mas estes chãos são de infertilidade!




Desamor

Mulher que me rendeste aos teus caprichos
Preso nas malhas de um amor insano
Funéreo dia em que esse amor profano
Me deixou subjugado aos teus enguiços.

Das cinzas desse amor o céu me prive
Que o meu peito renega essa pendência
E a razão mais me avisa ser demência
Insistir na desordem que em mim vive.

Pugno pela vontade que me falta
Para expulsar, quem dera, o teu feitiço
Mas neste palco ainda és a ribalta.

E assim, é nesse fogo em que me atiço
- Ardendo em chama cada vez mais alta -
Que me consumo, sempre mais comisso.




Mea culpa

Ah, se esta contrição tornasse leve
As culpas de te haver ignorado
Mas sabes tu, mulher, é este o fado
De quem despreza o bem, e a quem o deve.

Chamas-te tola porque idealizaste
O que se pode querer de quem se ama;
O fulgor do desejo, aquela chama
Que, como é justo, tu sempre sonhaste.

Mas nada foi secreto, e eu senti
Que perdera – imbecil - todos os créditos
Ao ler no teu olhar tudo o que li.

E se hoje já não ouves os meus éditos
Não posso censurar-te, pois eu vi
A desistência, nos teus ombros trépidos.




Livrai-nos deles, Senhor

Oh Deus do mundo, Senhor do universo
Desce os Teus olhos aos míseros terrenos
Mostra de Ti o sacrossanto anverso
Às ímpias almas que em Ti crêem menos;

Aqueles pra quem só conta o que é perecível
Os que condenam débeis e indefesos
Ao despotismo vil, à fúria incrível
Que lhes servem interesses sempre acesos.

Piores pecados que a Teus olhos fulgem
Sem expiação possível, sem perdão,
Nem o indulto pio da própria Virgem.

Molda essas almas, Deus, e só então
Merecerão retornar à sua origem
Mas deste mundo não tenham fruição.




Alma imortal


Quando esburgada desta pele que a cobre
A minha alma ao etéreo se elevar
Nas cerúleas alturas alguém há de mandar
Que outra vida eu cumpra, vil ou nobre

E este mundo de novo me terá
De bom ou mau vestido, a acobertar
Uma alma dormente, que a penar
Outro provável corpo buscará

Ninguém voltou do Além memorizado
Daquilo que o Pai nos tem já reservado
Que pudesse contar seguramente

Mas manda o nosso cerne acreditar
Que nesta terra há muito a caminhar
E que esta chama viverá pra sempre




Amar é tudo

Não há sentir maior que nos preencha
Nem há na vida nada que se iguale
A esta sensação de benquerença
De só de amor viver logo se instale

E se sabemos que ao contentamento
Corresponde outro tanto em desencanto
Cremos também ser do amor sustento
Depois de um beijo ver brotar um pranto

É, pois, feito de grandes controvérsias
Este amar tão declarado humano
Vencedor de procelas e inércias

E se este sentimento for de engano
E transformar em mágoa o que era festa
Nunca é irreparável esse dano




As dobras do tempo


Verga-se-nos a vontade, a energia
A alguns momentos que o tempo suspende
O amor e a morte exercem tal magia
Que o tempo pára, e a eles se rende.

Somos obra de Deus e a Ele se deve
- Como o exemplo que nos deu Jesus –
Que o nosso tempo seja intenso e breve
Feliz às vezes, outras uma cruz.

É o destino que todos carregamos
Neste deambular por que passamos
Qual asserção a que há que aquiescer;

Experimentando venturas, se amamos
Ou sofrendo atrozmente, se matamos
As mil razões que temos pra viver.




Direção e Editoria
Irene Serra