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EUGÉNIO DE SÁ
Sonetos escolhidos

Chãos de Guerra
Não há altares que valham, que se bastem Nem
d’Allah as bandeiras esverdeadas Que o sangue é negro e corre pelas estradas
Não há mais dor que as orações resgatem.
Que céus são esses que a fumaça
esconde? Que estrondos colossais, que vil fragor, Ofendem tanto a terra do
Senhor Que procura o amor, sem saber onde!
Ódios à solta por trás dos
canhões Meninos-homens, raivas sem idade Chãos semeados só de humilhações.
Pasma-se o mundo de incredulidade Esgrimem-se vozes, gritam-se razões
Mas estes chãos são de infertilidade!

Desamor
Mulher que me rendeste aos teus caprichos Preso nas
malhas de um amor insano Funéreo dia em que esse amor profano Me deixou
subjugado aos teus enguiços.
Das cinzas desse amor o céu me prive Que
o meu peito renega essa pendência E a razão mais me avisa ser demência
Insistir na desordem que em mim vive.
Pugno pela vontade que me falta
Para expulsar, quem dera, o teu feitiço Mas neste palco ainda és a ribalta.
E assim, é nesse fogo em que me atiço - Ardendo em chama cada vez mais
alta - Que me consumo, sempre mais comisso.

Mea culpa
Ah, se esta contrição tornasse leve As culpas de te
haver ignorado Mas sabes tu, mulher, é este o fado De quem despreza o bem,
e a quem o deve.
Chamas-te tola porque idealizaste O que se pode
querer de quem se ama; O fulgor do desejo, aquela chama Que, como é justo,
tu sempre sonhaste.
Mas nada foi secreto, e eu senti Que perdera –
imbecil - todos os créditos Ao ler no teu olhar tudo o que li.
E se
hoje já não ouves os meus éditos Não posso censurar-te, pois eu vi A
desistência, nos teus ombros trépidos.

Livrai-nos deles, Senhor
Oh Deus do mundo, Senhor do universo Desce os Teus
olhos aos míseros terrenos Mostra de Ti o sacrossanto anverso Às ímpias
almas que em Ti crêem menos;
Aqueles pra quem só conta o que é perecível
Os que condenam débeis e indefesos Ao despotismo vil, à fúria incrível Que
lhes servem interesses sempre acesos.
Piores pecados que a Teus olhos
fulgem Sem expiação possível, sem perdão, Nem o indulto pio da própria
Virgem.
Molda essas almas, Deus, e só então Merecerão retornar à sua
origem Mas deste mundo não tenham fruição.

Alma imortal
Quando esburgada desta pele que a cobre A minha alma
ao etéreo se elevar Nas cerúleas alturas alguém há de mandar Que outra
vida eu cumpra, vil ou nobre
E este mundo de novo me terá De bom ou
mau vestido, a acobertar Uma alma dormente, que a penar Outro provável
corpo buscará
Ninguém voltou do Além memorizado Daquilo que o Pai nos
tem já reservado Que pudesse contar seguramente
Mas manda o nosso
cerne acreditar Que nesta terra há muito a caminhar E que esta chama
viverá pra sempre

Amar é tudo
Não há sentir maior que nos preencha Nem há na vida nada que se iguale
A esta sensação de benquerença De só de amor viver logo se instale
E
se sabemos que ao contentamento Corresponde outro tanto em desencanto
Cremos também ser do amor sustento Depois de um beijo ver brotar um pranto
É, pois, feito de grandes controvérsias Este amar tão declarado humano
Vencedor de procelas e inércias
E se este sentimento for de engano
E transformar em mágoa o que era festa Nunca é irreparável esse dano

As dobras do tempo
Verga-se-nos a
vontade, a energia A alguns momentos que o tempo suspende O amor e a morte
exercem tal magia Que o tempo pára, e a eles se rende.
Somos obra de
Deus e a Ele se deve - Como o exemplo que nos deu Jesus – Que o nosso
tempo seja intenso e breve Feliz às vezes, outras uma cruz.
É o
destino que todos carregamos Neste deambular por que passamos Qual
asserção a que há que aquiescer;
Experimentando venturas, se amamos Ou
sofrendo atrozmente, se matamos As mil razões que temos pra viver.

Direção e Editoria
Irene Serra

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