W.J.Solha
CLÁUDIO JOSÉ LOPES RODRIGUES
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O ser humano é todo contradições: Dante diz, na Divina Comédia, que nenhuma
dor é maior do que a de recordar o tempo feliz na miséria (Isto, no original é
belíssimo: Nessun maggior dolore Che ricordarsi del tempo felice Nella
miséria). Já Virgílio, na Eneida, ao se lembrar – pelo contrário – das
angústias da guerra de Tróia, filosofa: “Talvez algum dia nos seja agradável
rememorar estas coisas”. Puro prazer ou duro sofrer, todo escritor está sempre
à la recherche du temps perdu. Cláudio José Lopes Rodrigues também faz isso,
mas sempre com bom humor. Li dois de seus volumes publicados pela editora
Idéia em 2000 e 2004: “Alienados e Subversivos” - onde ele conta o que foi a
ascensão e queda da agitação estudantil paraibana. de 1950 a 1999 – e “Diário
não diário.1”. no qual se detém noutras vivências suas na “cidade das acácias”
e fora dela.
Há dois momentos notáveis, neste segundo livro: “O troféu
de Maria Adete Wanderley, a Rainha dos Tabajaras”, e o imensamente irônico
relato “Doces tardes de sábado na Academia Paraibana de Poesia, o Templo do
Saber Poético”. Lembro-me de que nos anos 60, quando eu morava em Pombal,
enviei para uma correspondente da Índia uma foto minha tirada no Esporte Clube
Cabo Branco – que eu conhecera só de passagem - e me surpreendi com o que a
moça de sári me respondeu: ”A sua casa é linda!” O ECCB era, realmente, um
monumento, e Cláudio José Lopes Rodrigues viveu essa época áurea. Fala das
grandes partidas de tênis e voleibol, dos bailes com grandes orquestras como a
de Severino Araújo e Ruy Rey, e nos mostra o que é agora a entidade, já sem
glamour. Para tanto, serve-se de um recurso cinematográfico de angulação
expressiva, o plongée - a tomada de cena feita do alto:
Vizinho do
sodalício, da varanda de meu apartamento diviso hoje o cerco que grandes
edifícios lhe vão fazendo. Da perspectiva de um décimo sexto pavimento, o
clube já não se mostra como o presunçoso Colosso de Miramar.
Essa
atitude marca a obra de Cláudio Rodrigues. Ao contrário de Dante e Virgílio,
que “filmavam” suas criaturas de baixo para cima – em contre-plongée
– como
fazem os historiadores de um modo geral e os artistas encarregados de levantar
megálitos que engrandeçam Ramsés em Abu Simbel, os presidentes americanos no
Monte Rushmore, o Cristo Redentor no Rio, o Buda em Kamakura, ele põe em tudo
que relata – principalmente em “Alienados e Subversivos” – essa visão “de
décimo sexto pavimento”, adquirida certamente ao fazer seu mestrado e
doutorado em Sociologia na USP. Passeatas, ídolos, líderes, comícios, bombas,
polícia, exército, exílios, paixões, prisões, o tema é sempre abordado com um
bom humor que atinge seu ponto máximo no capítulo “A Emissora do Bom Gosto e
seus Prezados Ouvintes”, numa época em que a estudantada – como todo mundo na
capital paraibana – era ligada nas rádios Arapuan e Tabajara.
Pascoal
Carrilho anunciava de forma personalíssima a hora certa: ´São dez horas,
trinta e um minutos, dezessete segundos e dois décimos. (...) Às 13 horas
tocava-se um gongo e o locutor anunciava: ´Senhoras e senhores, vamos fazer
uma pausa em nossa programação. Voltaremos logo mais às 5 da tarde. (...)
Otinaldo Lourenço foi muitas vezes convocado a prestar esclarecimentos ao
Grupamento de Engenharia. Numa delas, o motivo foi o horóscopo copiado do
Almanaque do Pensamento: ´Hoje não é dia bom para tratar com militares.
São pequenas preciosidades com que – sem tirar a seriedade do que conta –
Cláudio José Lopes Rodrigues enche de vida seus depoimentos, sempre bastante
pessoais, importantíssimos para quem quer conhecer ainda mais a fundo a sua
própria cidade.
Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao
autor, em wjsolha@superig.com.br

Waldemar José Solha é escritor, poeta, dramaturgo, roteirista, ator e artista plástico.
Trabalhou no filme premiado internacionalmente ‘O SOM AO REDOR”, de Kléber Mendonça Filho e em “Era uma vez eu, Verônica”.

Direção e
Editoria
Irene Serra

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