16/09/2026
Ano 30
Nº 1.521


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W.J.Solha



W.J.Solha, colunista - CooJornal

W.J.Solha

"MIEDAMORFOSE", DE CARLOS TRIGUEIRO


Trigueiro,

Gostei muito, muito mesmo, de seu Mierdamorfose (que eu preferiria Merdamorfose).

Curioso é que você diz mais de uma vez, no texto, que a história tem algo do Metamorfose do Kafka. Na verdade ela tem muito de muitas outras narrativas. Na página 88 é aventada a hipótese de que a transformação de Anastácio Penaforte tenha origem num bando de mosquitos, um dos quais o teria picado, como faz o da dengue ou malária, o que poderia ter o agravante de ser contagioso. A hipotética picada lembra a fonte dos superpoderes do jovem Richard Parker: a picada que faz dele o Homem Aranha. Hulk e o Capitão América têm força assombrosa devido - de um modo ou de outro - a experiências científicas. Cito essas criações por serem de conhecimento geral. E foi lançado agora, no Brasil e no mundo um novo filme de Luc Besson,

Lucy (Scarlett Johansson), uma mulher que vive em Taipé, Taiwan, é obrigada a trabalhar como mula de drogas para a máfia. A droga implantada em seu corpo vaza inadvertidamente em seu sistema, alterando-a para uma capacidade cerebral sobre-humana de acesso muito maior do que o normal de 10%.7 Ela pode absorver conhecimento instantaneamente, é capaz de mover objetos com a mente, e não pode sentir dor e outros desconfortos.

Some-se isso a este filme de 1997, O Mentiroso:
A professora de educação infantil pergunta para o pequeno Max, qual é a profissão de seu pai. Ele diz: “Is liar!” (mentiroso). A professora logo o corrige: “Is lawyer!” (advogado). A mentira é o tema desta brilhante comédia, onde o competente e nada ortodoxo advogado Fletcher Reede (Jim Carrey) não comparece ao aniversário de cinco anos de seu filho Max (Justin Cooper) e é surpreendido pelo encanto do pedido da criança quando sopra as velinhas: “o meu desejo é que meu pai não minta por um dia!”. O que era para ser apenas mais uma comédia caça-níquel, aproveitando o sucesso e o carisma de Jim Carrey, tornou-se numa bela fábula sobre o mentiroso mundo dos adultos, em geral, e sobre a conduta de certos advogados, em particular, mas sem descambar para o moralismo e a pieguice. Excelente filme dirigido por Tom Shadyac (“Patch Adams - O Amor é Contagioso”, “Ace Ventura”) e tendo Jim Carrey em seu papel mais engraçado no cinema!


Ô, veja isto:

Após atropelar um lobo e ser mordido por ele, um homem (Jack Nicholson) começa a ter estranhas sensações, mudando seu comportamento diante das pessoas e tendo seus sentidos altamente aguçados.

Você foi brilhante ao juntar Kafka, com Ovídio (de As Metamorfoses), Stan Lee, alguns filmes, e pôr o resultado num Rio de Janeiro ao qual acrescenta toques machadianos, como o da enumeração (que deveria, ao que me parece, ser mais dosada, pois tanto o narrador se serve dela como todos os outros personagens, como o Diretor, por exemplo, na página 41, o Delegado, na 49), o de construções tipo aparentando não mais que trinta e três anos de idade e sete de serviço, (como se lê na página 48) e até de nomes como Anastácio Penaforte, Rubião, Varejão, Lupércio, todos bem à Brás Cubas e Quincas Borba. Claro que há, também, pelo gênero do livro, um quê, na personagem do Senador, do Odorico Paraguaçu, do Dias Gomes.

Em tempo: a técnica de enumeração também me parece excessiva nas relações de livros de autores brasileiros que Penaforte lê na prisão. Acho que um etc aqui e ali cairia bem.

Bem, o resultado é um livro tão hilário quanto terrível, genial, uma obra-prima bem à maneira desta frase latina, de que Voltaire gostava muito:

Há um trecho perfeito, nesse sentido, na caminhada a pé que Anastácio Penaforte faz da universidade para casa, no Rio, nas páginas 46 e 47, em que ele arrola tudo quanto é de esculhambação que nós todos vemos em todas as nossas cidades, todos os dias. A força do livro é tanta, que eu o colocaria em pé de igualdade – como retrato deste Brasil que conhecemos tão bem – com o "Que País é Este?", do Affonso Romano de Sant´Anna, que sempre considerei como uma espécie de nossa Guernica.

Desafio o leitor que, depois do primeiro capítulo de seu "Mierdamorfose", deixe a obra de lado.


(Rio Total, 1/2/2016, Ano 19 - Nº 970)

Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, em wjsolha@superig.com.br




Waldemar José Solha é escritor, poeta, dramaturgo, roteirista, ator e artista plástico.
Trabalhou no filme premiado internacionalmente ‘O SOM AO REDOR”, de Kléber Mendonça Filho e em “Era uma vez eu, Verônica”.

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