Sheila Sacks
Argentina reestrutura segurança para enfrentar organização
criminosa brasileira
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Em recente reportagem sobre o grupo criminoso Primeiro Comando da Capital
(PCC), o jornal americano Wall Street Journal (20/4/2026) destacou o poderio
financeiro e bélico da facção brasileira que já opera ilícitos de toda ordem
em várias cidades dos EUA, principalmente traficando cocaína.
A constatação
não é novidade para os serviços de inteligência de países da América Latina.
Em agosto do ano passado, em entrevista à plataforma de notícias DEF Online,
que trata de temas de segurança, defesa e geopolítica, o secretário de Combate
ao Narcotráfico e ao Terrorismo da Argentina, Martín Verrier, revelou que o
alvo número um do então recém-criado Departamento Federal de Investigação
(DFI) da Polícia Federal do país era a organização criminosa brasileira
Primeiro Comando da Capital – PCC.
A reestruturação da polícia argentina
também foi repercutida pelo site de notícias Infobae, um dos mais acessados de
língua espanhola, com 38 milhões de usuários, sob o título “El grupo criminal
brasileño PCC representa un nivel de amenaza alto para Argentina y la región”.
A nova unidade investigativa foi apresentada pelo presidente Javier Milei, em
cerimônia especial, quando foi destacado que o órgão teria atuação semelhante
ao FBI com o objetivo primordial de atingir “o cerne das organizações
criminosas que tentam ganhar poder e dinheiro no país”, segundo o mandatário
argentino.
Ameaça de alta dimensão Com mestrado em Estratégia e
Geopolítica pela Escola Superior de Guerra do Exército argentino e em
Inteligência e Segurança Internacional pelo King's College London, Martín
Verrier atuou como secretário de estado adjunto para o Controle de Drogas da
Argentina de 2015 a 2019. Ele explica que há uma década já havia na América do
Sul algumas facções criminosas, mas não do porte do PCC “que tem entre 30 a 40
mil membros, sendo mais de dois mil no exterior, incluindo em países como
Estados Unidos, Espanha e Moçambique”. Na sua avaliação, o nível de ameaça da
organização é bastante alto, “de uma dimensão com a qual o cone Sul não está
acostumado”.
Verrier assinala que a arregimentação de membros para o crime
organizado ocorre principalmente no sistema prisional e para conter o
crescimento desses grupos foram feitas mudanças na estrutura do governo. Uma
das medidas implementada foi a transferência dos presos de alto risco das
penitenciárias provinciais para o sistema prisional federal, agora sob a
alçada do ministério da Segurança. “O que acontecia antes é que as prisões
eram usadas como bases de operações e estavam sob o controle do Ministério da
Justiça, que não tem poderes de polícia. Hoje, temos o controle de todo
encadeamento, desde o potencial chefe que pode estar tentando operar na prisão
até o comerciante dos bairros.”
Conexão com Hezbollah
Ainda no ano
passado, em uma reportagem do La Nacion sobre a fuga de 400 comandantes do
Hezbollah para a América do Sul, Verrier denunciou a conexão entre o grupo
terrorista e o PCC que estaria dando proteção aos seus membros presos no
Brasil sob acusações de narcotráfico, lavagem de dinheiro e outros ilícitos,
em troca de armamentos (Una seria amenaza’. La nueva estrategia de Hezbollah
en América Latina tras su debilitamiento en Medio Oriente, em 24/5/2025).
A
notícia em questão foi divulgada em primeira mão, um mês antes, pelo canal
saudita al-Hadhat e segundo um representante da embaixada argentina no Líbano
a decisão do descolamento dos 400 terroristas e suas famílias para a Tríplice
Fronteira, Venezuela, Colômbia e Equador partiu da liderança do grupo xiita
libanês temendo retaliações da defesa israelense face aos ataques continuados
do grupo. O outro motivo seria o plano de desarmamento do grupo anunciado pelo
governo daquele país, que tem seu próprio exército.
Também a plataforma
libanesa de notícias This is Beirut publicou uma ampla matéria, na época,
informando sobre o envio de centenas de terroristas à América do Sul,
destacando a conhecida simbiose entre o terrorismo e o crime organizado na
região. Em 2008, na Colômbia, a prisão do chefe de uma rede de tráfico de
cocaína, Chekri Harb ,já revelava o pagamento sistemático de um “imposto” de
12% ao Hezbollah, afirmava o artigo assinado pelo jornalista Mário Chartouni
(Mullahs Wearing Sombreros: Hezbollah in Latin America, em 21/5/2025).
Citando relatório da agência Antidrogas DEA (Drug Enforcement Administration),
o jornalista escreve que o Hezbollah estabeleceu relações comerciais com
cartéis de drogas sul-americanos, notadamente La Oficina de Envigado, da
Colômbia (que substituiu o Cartel de Medellín, de Pablo Escobar), responsável
pelo fornecimento de grandes quantidades de cocaína para os mercados europeu e
americano. E prossegue: “Assim, o tráfico de cocaína tornou-se uma fonte de
financiamento para o grupo libanês, complementando o apoio financeiro de Teerã
e garantindo-lhe crescente autonomia financeira. Essas atividades abrangem
pelo menos doze países da região, de acordo com o relatório da RAND
Corporation (instituição que fornece pesquisas e análises para agências de
segurança do governo americano), de março de 2025, que documenta
meticulosamente a presença do Hezbollah na Argentina, Panamá, Peru, Colômbia,
Venezuela, Brasil, Curaçao, Bolívia, México, Honduras, Guatemala e Chile. As
atividades incluem mineração ilegal na Venezuela e sofisticadas redes de
lavagem de dinheiro no Panamá”.
Identificado como um site independente,
“comprometido em perpetuar a tradição de liberdade de expressão e jornalismo
de qualidade, pilares fundamentais da identidade libanesa”, This is Beirut
agrega uma equipe de quase 100 profissionais entre jornalistas, tradutores,
colunistas e colaboradores.
Em 2024, a Argentina selou um acordo de
cooperação com a CIA para atuação nas Três Fronteiras visando o combate aos
cartéis de droga e a sua conexão com grupos terroristas na arrecadação de
fundos para recrutamento e atentados no Oriente Médio. Em agosto do ano
passado, foi a vez do Paraguai celebrar acordo semelhante para implantação de
uma base do FBI com foco no monitoramento da Tríplice Fronteira. Em
paralelo, o governo dos Estados Unidos divulgou em seu site oficial
(19/5/2025) a recompensa de 10 milhões de dólares por informações que levem
aos mecanismos de financiamento do Hezbollah na região.
Novo eixo
A
matéria do La Nacion também destaca que o grupo terrorista pode estar
ampliando sua estrutura para o oeste da América do Sul, criando um novo eixo
de atuação no Equador, Colômbia e Venezuela. Para enfrentar a ameaça, o
governo dos Estados Unidos intensificaram sua presença militar no Caribe,
perto da costa da Venezuela, visando conter o fluxo de narcoterrorismo na
região e, desde então, já realizou inúmeras abordagens a embarcações que
estariam transportando drogas em direção aos EUA. Segundo especialistas
entrevistados pela Fox News, o Hezbollah se tornou um dos principais
financiadores e “lavadores” de dinheiro de grupos de narcotraficantes da
Venezuela. “A parceria do Irã com Maduro permitiu que o Hezbollah operasse
naquele país sem problemas”, afirmaram, destacando que o Irã também tem
investido bilhões de dólares na economia local. Outro fator que ajuda a
encobrir as atividades ilícitas do Hezbollah, de acordo com esses
especialistas, é a forte presença da comunidade xiita libanesa em países da
América do Sul. O grupo terrorista se utiliza de laços familiares, a língua e
as instituições comunitárias para aumentar e consolidar sua influência na
região. Dessa forma, o Hezbollah pode interagir com cartéis locais, vender
drogas e canalizar os lucros de volta para o Líbano por meio de esquemas
elaborados para financiar atos terroristas no Oriente Médio (‘Cartel
connection: Hezbollah and Iran exploit Maduro’s Venezuela for cocaine cash’,
em 7/9/2025).
Problema antigo
Em relação à Tríplice Fronteira, há três
décadas a região é uma preocupação para o governo americano, mas somente
agora, em razão do posicionamento político dos presidentes Xavier Milei e
Santiago Peña, do Paraguai, a vigilância está tendo o apoio explícito dos dois
países. O alinhamento, inclusive, garantiu a ambos os países taxas tarifárias
de 10% aplicadas pelo governo Trump (o Brasil foi sancionado com taxas de
50%).
A presença do Hezbollah na América do Sul, segundo o agente da
Polícia Federal e especialista de contraterrorismo, Christian Vianna de
Azevedo, se iniciou no final da década de 1980, durante a guerra civil no
Líbano, quando mais de 1 milhão de libaneses emigraram para países onde já
existiam comunidades libanesas assentadas, principalmente nas cidades da
Tríplice Fronteira, Venezuela, Colômbia e Chile (também em São Paulo existe
uma forte presença de libaneses).
Em entrevista online publicada pelo
Instituto de Prevenção e Combate à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do
Terrorismo (IPLD), em 212/5/2024 (‘Financiamento do terrorismo e a influência
do Hezbollah na América do Sul’), Vianna de Azevedo ressalta que integrantes
do grupo xiita-libanês, criado em 1982, se infiltraram nas comunidades
praticando atividades ilegais acobertadas por negócios aparentemente legais,
como agências de turismo e outras atividades comerciais. Desde então o grupo
terrorista opera diversas redes criminosas e foram responsáveis por atos
terroristas em diversas partes do mundo e em particular na Argentina, como o
ataque à bomba à Embaixada de Israel em 1992 (29 mortos e 247 feridos) e à
Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) em 1994 (85 mortos e 300
feridos), os maiores já ocorridos na América Latina.
O agente federal
ressalta que o Irã é a maior fonte de recursos dos terroristas, representando
60% de seu capital. As outras fontes seriam o “tráfico de drogas, tráfico de
armas, contrabando de migrantes, lavagem de dinheiro, e outros tipos de
contrabando, além de doações de simpatizantes ao redor do mundo”. Até um banco
legalmente estabelecido, o Lebanese Canadian Bank, sediado em Beirute com
representação em Montreal, foi usado como braço financeiro do Hezbollah para
lavagem de dinheiro associado ao tráfico de cocaína em investigação denunciada
pelo governo americano em 2011.
No Brasil, há vários casos documentados
sobre transações ilícitas de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro
envolvendo financiadores do Hezbollah. Vianna de Azevedo cita Farouk Omairi,
preso por alguns anos no Brasil por tráfico de cocaína e identificado por
órgãos de inteligência argentina como um dos mentores do atentado à AMIA.
Também Assad Ahmad Barakat, dono de cassino em Porto Iguaçu, na Argentina,
investigado por lavagem de dinheiro. Preso duas vezes no Brasil, foi
extraditado para o Paraguai.
Para Vianna de Azevedo, é preciso uma visão
única, das áreas públicas e privadas, para o combate ao grupo terrorista que
atua igualmente como uma organização criminosa transnacional. “É essencial que
instituições como bancos, o COAF (Conselho de Controle de Atividades
Financeiras) e órgãos públicos como a Polícia Federal, o Ministério Público
Federal, a Justiça Federal, a Receita Federal, o Banco Central do Brasil e a
Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) tenham uma percepção unificada da
ameaça que o grupo representa.”
Ele assinala que o Hezbollah não é
reconhecido oficialmente no Brasil como grupo terrorista e isso atrapalha nas
ações de enfrentamento. “A dificuldade aumenta porque o Hezbollah opera como
uma organização híbrida, atuando tanto como grupo terrorista quanto como
organização criminosa transnacional. Seus integrantes aqui no país não se
identificam como atuantes do grupo e são investigados por tráfico de drogas,
tráfico de armas, lavagem de dinheiro, e falsidade ideológica.” E continua:
“O dinheiro que eles arrecadam mesmo sendo por meio de crimes, usualmente
acaba indo para um caixa comum no Líbano, o que complica a separação dos
fundos destinados à política, assistência social ou atividades terroristas.
Então provar judicialmente é um grande desafio para as autoridades brasileiras
e de qualquer país.”
Ferramentas tecnológicas
Acerca do financiamento ao
terrorismo houve um avanço tecnológico e atualmente existe um novo cenário
global apontado pelo GAFI (Grupo de Ação Financeira Internacional - Financial
Action Task Force, FATF, em inglês).
Relatórios da organização enfatizam
que as ameaças estão em constante evolução, impulsionadas pela tecnologia e
pela mudança nas táticas utilizadas pelos grupos terroristas. A utilização de
criptoativos ( moedas virtuais protegidas por criptografia), sistemas de
pagamento peer-to-peer (sem a participação de bancos) e plataformas de
crowdfunding (espaço online para arrecadação de fundos e doações) estão sendo
cada vez mais utilizados para coletar e movimentar investimentos. As fontes de
receitas também migraram para pequenos negócios e redes de caridade, por
exemplo, financiando ataques de pequena escala executados por células
descentralizadas e os chamados “lobos solitários”.
Sheila Sacks é
jornalista e trabalha em Assessoria de Imprensa na cidade do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro, RJ
http://sheilasacks.blogspot.com
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Direção e editoria
Irene Serra
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