16/05/2026
Ano 29 - Nº 1.507



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Sheila Sacks















 

Sheila Sacks

Argentina reestrutura segurança para enfrentar organização criminosa brasileira

Em recente reportagem sobre o grupo criminoso Primeiro Comando da Capital (PCC), o jornal americano Wall Street Journal (20/4/2026) destacou o poderio financeiro e bélico da facção brasileira que já opera ilícitos de toda ordem em várias cidades dos EUA, principalmente traficando cocaína.

A constatação não é novidade para os serviços de inteligência de países da América Latina. Em agosto do ano passado, em entrevista à plataforma de notícias DEF Online, que trata de temas de segurança, defesa e geopolítica, o secretário de Combate ao Narcotráfico e ao Terrorismo da Argentina, Martín Verrier, revelou que o alvo número um do então recém-criado Departamento Federal de Investigação (DFI) da Polícia Federal do país era a organização criminosa brasileira Primeiro Comando da Capital – PCC.

A reestruturação da polícia argentina também foi repercutida pelo site de notícias Infobae, um dos mais acessados de língua espanhola, com 38 milhões de usuários, sob o título “El grupo criminal brasileño PCC representa un nivel de amenaza alto para Argentina y la región”.

A nova unidade investigativa foi apresentada pelo presidente Javier Milei, em cerimônia especial, quando foi destacado que o órgão teria atuação semelhante ao FBI com o objetivo primordial de atingir “o cerne das organizações criminosas que tentam ganhar poder e dinheiro no país”, segundo o mandatário argentino.

Ameaça de alta dimensão

Com mestrado em Estratégia e Geopolítica pela Escola Superior de Guerra do Exército argentino e em Inteligência e Segurança Internacional pelo King's College London, Martín Verrier atuou como secretário de estado adjunto para o Controle de Drogas da Argentina de 2015 a 2019. Ele explica que há uma década já havia na América do Sul algumas facções criminosas, mas não do porte do PCC “que tem entre 30 a 40 mil membros, sendo mais de dois mil no exterior, incluindo em países como Estados Unidos, Espanha e Moçambique”. Na sua avaliação, o nível de ameaça da organização é bastante alto, “de uma dimensão com a qual o cone Sul não está acostumado”.

Verrier assinala que a arregimentação de membros para o crime organizado ocorre principalmente no sistema prisional e para conter o crescimento desses grupos foram feitas mudanças na estrutura do governo. Uma das medidas implementada foi a transferência dos presos de alto risco das penitenciárias provinciais para o sistema prisional federal, agora sob a alçada do ministério da Segurança. “O que acontecia antes é que as prisões eram usadas como bases de operações e estavam sob o controle do Ministério da Justiça, que não tem poderes de polícia. Hoje, temos o controle de todo encadeamento, desde o potencial chefe que pode estar tentando operar na prisão até o comerciante dos bairros.”

Conexão com Hezbollah

Ainda no ano passado, em uma reportagem do La Nacion sobre a fuga de 400 comandantes do Hezbollah para a América do Sul, Verrier denunciou a conexão entre o grupo terrorista e o PCC que estaria dando proteção aos seus membros presos no Brasil sob acusações de narcotráfico, lavagem de dinheiro e outros ilícitos, em troca de armamentos (Una seria amenaza’. La nueva estrategia de Hezbollah en América Latina tras su debilitamiento en Medio Oriente, em 24/5/2025).

A notícia em questão foi divulgada em primeira mão, um mês antes, pelo canal saudita al-Hadhat e segundo um representante da embaixada argentina no Líbano a decisão do descolamento dos 400 terroristas e suas famílias para a Tríplice Fronteira, Venezuela, Colômbia e Equador partiu da liderança do grupo xiita libanês temendo retaliações da defesa israelense face aos ataques continuados do grupo. O outro motivo seria o plano de desarmamento do grupo anunciado pelo governo daquele país, que tem seu próprio exército.

Também a plataforma libanesa de notícias This is Beirut publicou uma ampla matéria, na época, informando sobre o envio de centenas de terroristas à América do Sul, destacando a conhecida simbiose entre o terrorismo e o crime organizado na região. Em 2008, na Colômbia, a prisão do chefe de uma rede de tráfico de cocaína, Chekri Harb ,já revelava o pagamento sistemático de um “imposto” de 12% ao Hezbollah, afirmava o artigo assinado pelo jornalista Mário Chartouni (Mullahs Wearing Sombreros: Hezbollah in Latin America, em 21/5/2025).

Citando relatório da agência Antidrogas DEA (Drug Enforcement Administration), o jornalista escreve que o Hezbollah estabeleceu relações comerciais com cartéis de drogas sul-americanos, notadamente La Oficina de Envigado, da Colômbia (que substituiu o Cartel de Medellín, de Pablo Escobar), responsável pelo fornecimento de grandes quantidades de cocaína para os mercados europeu e americano. E prossegue: “Assim, o tráfico de cocaína tornou-se uma fonte de financiamento para o grupo libanês, complementando o apoio financeiro de Teerã e garantindo-lhe crescente autonomia financeira. Essas atividades abrangem pelo menos doze países da região, de acordo com o relatório da RAND Corporation (instituição que fornece pesquisas e análises para agências de segurança do governo americano), de março de 2025, que documenta meticulosamente a presença do Hezbollah na Argentina, Panamá, Peru, Colômbia, Venezuela, Brasil, Curaçao, Bolívia, México, Honduras, Guatemala e Chile. As atividades incluem mineração ilegal na Venezuela e sofisticadas redes de lavagem de dinheiro no Panamá”.

Identificado como um site independente, “comprometido em perpetuar a tradição de liberdade de expressão e jornalismo de qualidade, pilares fundamentais da identidade libanesa”, This is Beirut agrega uma equipe de quase 100 profissionais entre jornalistas, tradutores, colunistas e colaboradores.

Em 2024, a Argentina selou um acordo de cooperação com a CIA para atuação nas Três Fronteiras visando o combate aos cartéis de droga e a sua conexão com grupos terroristas na arrecadação de fundos para recrutamento e atentados no Oriente Médio. Em agosto do ano passado, foi a vez do Paraguai celebrar acordo semelhante para implantação de uma base do FBI com foco no monitoramento da Tríplice Fronteira.

Em paralelo, o governo dos Estados Unidos divulgou em seu site oficial (19/5/2025) a recompensa de 10 milhões de dólares por informações que levem aos mecanismos de financiamento do Hezbollah na região.

Novo eixo

A matéria do La Nacion também destaca que o grupo terrorista pode estar ampliando sua estrutura para o oeste da América do Sul, criando um novo eixo de atuação no Equador, Colômbia e Venezuela. Para enfrentar a ameaça, o governo dos Estados Unidos intensificaram sua presença militar no Caribe, perto da costa da Venezuela, visando conter o fluxo de narcoterrorismo na região e, desde então, já realizou inúmeras abordagens a embarcações que estariam transportando drogas em direção aos EUA.

Segundo especialistas entrevistados pela Fox News, o Hezbollah se tornou um dos principais financiadores e “lavadores” de dinheiro de grupos de narcotraficantes da Venezuela. “A parceria do Irã com Maduro permitiu que o Hezbollah operasse naquele país sem problemas”, afirmaram, destacando que o Irã também tem investido bilhões de dólares na economia local.
Outro fator que ajuda a encobrir as atividades ilícitas do Hezbollah, de acordo com esses especialistas, é a forte presença da comunidade xiita libanesa em países da América do Sul. O grupo terrorista se utiliza de laços familiares, a língua e as instituições comunitárias para aumentar e consolidar sua influência na região. Dessa forma, o Hezbollah pode interagir com cartéis locais, vender drogas e canalizar os lucros de volta para o Líbano por meio de esquemas elaborados para financiar atos terroristas no Oriente Médio (‘Cartel connection: Hezbollah and Iran exploit Maduro’s Venezuela for cocaine cash’, em 7/9/2025).

Problema antigo

Em relação à Tríplice Fronteira, há três décadas a região é uma preocupação para o governo americano, mas somente agora, em razão do posicionamento político dos presidentes Xavier Milei e Santiago Peña, do Paraguai, a vigilância está tendo o apoio explícito dos dois países. O alinhamento, inclusive, garantiu a ambos os países taxas tarifárias de 10% aplicadas pelo governo Trump (o Brasil foi sancionado com taxas de 50%).

A presença do Hezbollah na América do Sul, segundo o agente da Polícia Federal e especialista de contraterrorismo, Christian Vianna de Azevedo, se iniciou no final da década de 1980, durante a guerra civil no Líbano, quando mais de 1 milhão de libaneses emigraram para países onde já existiam comunidades libanesas assentadas, principalmente nas cidades da Tríplice Fronteira, Venezuela, Colômbia e Chile (também em São Paulo existe uma forte presença de libaneses).

Em entrevista online publicada pelo Instituto de Prevenção e Combate à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo (IPLD), em 212/5/2024 (‘Financiamento do terrorismo e a influência do Hezbollah na América do Sul’), Vianna de Azevedo ressalta que integrantes do grupo xiita-libanês, criado em 1982, se infiltraram nas comunidades praticando atividades ilegais acobertadas por negócios aparentemente legais, como agências de turismo e outras atividades comerciais. Desde então o grupo terrorista opera diversas redes criminosas e foram responsáveis por atos terroristas em diversas partes do mundo e em particular na Argentina, como o ataque à bomba à Embaixada de Israel em 1992 (29 mortos e 247 feridos) e à Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) em 1994 (85 mortos e 300 feridos), os maiores já ocorridos na América Latina.

O agente federal ressalta que o Irã é a maior fonte de recursos dos terroristas, representando 60% de seu capital. As outras fontes seriam o “tráfico de drogas, tráfico de armas, contrabando de migrantes, lavagem de dinheiro, e outros tipos de contrabando, além de doações de simpatizantes ao redor do mundo”. Até um banco legalmente estabelecido, o Lebanese Canadian Bank, sediado em Beirute com representação em Montreal, foi usado como braço financeiro do Hezbollah para lavagem de dinheiro associado ao tráfico de cocaína em investigação denunciada pelo governo americano em 2011.

No Brasil, há vários casos documentados sobre transações ilícitas de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro envolvendo financiadores do Hezbollah. Vianna de Azevedo cita Farouk Omairi, preso por alguns anos no Brasil por tráfico de cocaína e identificado por órgãos de inteligência argentina como um dos mentores do atentado à AMIA. Também Assad Ahmad Barakat, dono de cassino em Porto Iguaçu, na Argentina, investigado por lavagem de dinheiro. Preso duas vezes no Brasil, foi extraditado para o Paraguai.

Para Vianna de Azevedo, é preciso uma visão única, das áreas públicas e privadas, para o combate ao grupo terrorista que atua igualmente como uma organização criminosa transnacional. “É essencial que instituições como bancos, o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e órgãos públicos como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal, a Justiça Federal, a Receita Federal, o Banco Central do Brasil e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) tenham uma percepção unificada da ameaça que o grupo representa.”

Ele assinala que o Hezbollah não é reconhecido oficialmente no Brasil como grupo terrorista e isso atrapalha nas ações de enfrentamento. “A dificuldade aumenta porque o Hezbollah opera como uma organização híbrida, atuando tanto como grupo terrorista quanto como organização criminosa transnacional. Seus integrantes aqui no país não se identificam como atuantes do grupo e são investigados por tráfico de drogas, tráfico de armas, lavagem de dinheiro, e falsidade ideológica.”
E continua: “O dinheiro que eles arrecadam mesmo sendo por meio de crimes, usualmente acaba indo para um caixa comum no Líbano, o que complica a separação dos fundos destinados à política, assistência social ou atividades terroristas. Então provar judicialmente é um grande desafio para as autoridades brasileiras e de qualquer país.”

Ferramentas tecnológicas

Acerca do financiamento ao terrorismo houve um avanço tecnológico e atualmente existe um novo cenário global apontado pelo GAFI (Grupo de Ação Financeira Internacional - Financial Action Task Force, FATF, em inglês).

Relatórios da organização enfatizam que as ameaças estão em constante evolução, impulsionadas pela tecnologia e pela mudança nas táticas utilizadas pelos grupos terroristas. A utilização de criptoativos ( moedas virtuais protegidas por criptografia), sistemas de pagamento peer-to-peer (sem a participação de bancos) e plataformas de crowdfunding (espaço online para arrecadação de fundos e doações) estão sendo cada vez mais utilizados para coletar e movimentar investimentos. As fontes de receitas também migraram para pequenos negócios e redes de caridade, por exemplo, financiando ataques de pequena escala executados por células descentralizadas e os chamados “lobos solitários”.



Sheila Sacks é jornalista e trabalha em Assessoria de Imprensa na cidade do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro, RJ
http://sheilasacks.blogspot.com


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Irene Serra