16/03/2026
Ano 29 - Nº 1.499



Arquivo
Sheila Sacks















 

Sheila Sacks

Irã: vidas em segredo

Um fato histórico marcou a eclosão da guerra entre os EUA/Israel e o Irã, no sábado, dia 28 de fevereiro. O conflito foi iniciado dois dias antes da Festa de Purim (da palavra hebraica pur, que significa sorteio) que celebra, anualmente, a salvação da comunidade judaica na antiga Pérsia (atual Irã).

O episódio ocorreu no século 4, antes da Era Comum (AEC), em igual período, quando forças políticas tramaram a aniquilação dos hebreus residentes no império, salvos pela ação da rainha Ester, uma jovem judia casada com o rei da Pérsia.

Atualmente, menos de 10 mil judeus vivem no Irã. Uma comunidade isolada e insegura, que mantém um comportamento apartado da política, invocando sua milenar descendência persa.

Dois depoimentos ajudam a desvendar um pouco o ambíguo comportamento da comunidade judaica no Irã, país muçulmano de maioria xiita, com uma população aproximada de 82 milhões de habitantes.

Os textos foram postados na Internet, em 2021, nas proximidades de Purim. De nacionalidades diferentes, os autores vivem nos Estados Unidos e no Canadá e apesar das perspectivas e focos diferentes em suas abordagens, ambos mantêm em comum a observação crítica acerca do comportamento social dos judeus iranianos, bastante arredio e distante das preocupações e do ativismo coletivo das comunidades judaicas de outros países.

Celebração entre quatro paredes

Nascida na antiga cidade de Shiraz, no sudoeste do Irã, Aylin Sedigh emigrou para os Estado Unidos aos doze anos, no final da década de 1990. Ela mantém um blog na plataforma de notícias The Times of Israel onde escreve basicamente sobre suas lembranças de infância naquele país e o cotidiano dos judeus originários de países muçulmanos, os chamados mizrahim (orientais).

Relembrando Purim, Sedigh conta que durante a festividade sua família tinha o cuidado de manter as janelas fechadas para que os sons e a visão da celebração não alcançassem os ouvidos e olhares curiosos dos vizinhos. Aos dez anos, visitou o mausoléu que abriga os túmulos da rainha Ester e de seu primo Mordechai, na cidade de Hamadan, antiga visto que até a década de 1970 as tumbas ficavam escondidas em um local de difícil acesso, em meio a becos estreitos e tortuosos. A reforma foi realizada pelo monarca Xá Reza Pahlavi, deposto em1979, para a celebração dos 2.500 anos da monarquia iraniana.

De acordo com Sedigh, o cemitério judeu de Hamadan foi durante séculos o local de peregrinação mais importante para os judeus iranianos e histórias sobre os milagres da rainha Ester eram ouvidas por toda a parte. Até muçulmanos, cristãos e mulheres da seita Bahá’í visitavam o túmulo, orando à rainha por milagres na concepção de filhos, afirma a autora.

Durante o período escolar, Sedigh relembra que procurava não chamar a atenção para a sua pessoa e sua crença, e que o uso em público por todas as meninas do véu cobrindo a cabeça a ajudava se manter despercebida.

- Guardei minhas crenças para mim mesmo enquanto estava na escola. A cobertura tradicional para a cabeça era um requisito para todas as mulheres em público e os homens não usavam seus yarmulkes (solidéu ou kipá, em hebraico) nas ruas.

Ritual das seis velas

Outra lembrança dos seus tempos no Irã diz respeito a uma cerimônia anual na primavera quando o pai reunia a família e acendia seis velas, pedindo um minuto de silêncio em memória dos judeus que morreram. Um ritual sem perguntas e sem explicações, segundo Sedigh. “Morei no Irã até os 12 anos e nunca ouvi falar do Holocausto”, confessa. “Fui saber sobre o Holocausto quando já residia nos Estados Unidos, ao assistir o filme A Lista de Schindler, de Spielberg” (o Holocausto aconteceu na 2ª Grande Guerra, com o assassinato de 6 milhões de judeus pelos nazistas).

Sedigh também conta que observava o pai, todas as noites, mexendo no rádio para escolher a melhor frequência para escutar as notícias transmitidas por Israel na língua farsi (idioma persa). “No Irã dos clérigos muçulmanos (aiatolás), essa era a única maneira de obter notícias autênticas, diferentes das versões transmitidas pela rede de TV iraniana”, explica.

Ainda que guarde boas recordações das férias de verão desfrutadas em família nas areias e águas cristalinas do Mar Cáspio, a rotina não era fácil. “Crescendo no Irã, na década de 1980, a existência cotidiana era repleta de medo, ansiedade e incerteza. Havia ameaças de guerra mortal com o vizinho Iraque e escassez de alimentos, água e eletricidade”, relata. “Mesmo na praia existia o risco de um carro da patrulha aparecer e aqueles que não estivessem vestidos conforme a lei islâmica serem punidos.”

Ambiente hostil

A iraniana Sedigh confessa que tem sentimentos confusos em relação ao país em que nasceu e lembra que milhares de judeus mizrahi foram forçados a abandonar seus lares “na escuridão da noite”, fugindo de um ambiente de risco, abandonando tudo que possuíam para trás.

- Deixei o Irã no final de 1990. É um país repleto de belezas naturais, com uma cultura maravilhosa e uma comida deliciosa. Mas também é um país que, após a revolução islâmica de 1979, mostrou um total desprezo para seus cidadãos judeus e para o estado de Israel.

Ainda assim, Sedigh admite que a cultura iraniana exerceu uma grande influência em seu desenvolvimento moral e social. Ela diz que a modéstia, a honra e a reputação (aberu, na língua persa), é o bem mais valioso de uma garota persa, um princípio fundamental na tradição iraniana. “Mesmo depois que minha família emigrou para os Estados Unidos, fui criada em uma casa tradicional persa moldada pelo aberu. Isso criou uma cultura de respeito e nos ensinou a honrar nossos idosos.”

Mas, o grande exemplo e a mais importante heroína para as mulheres mizrahi, de acordo com Sedigh, é a rainha Ester, vista como uma judia persa forte e assertiva que certamente superou muitas barreiras. Ela assinala que Esther foi instada por seu primo Mordechai a esconder sua identidade judia e se casar com um homem não judeu, “algo que seria considerado tabu entre a comunidade judaica”.

- Dentro dos limites de uma cultura muito tradicional em que as mulheres eram encorajadas a ficar em segundo plano, a rainha Ester saiu das normas culturais com as quais foi criada para salvar seu povo, conclui.

Viagem ao Irã

Residindo no Canadá, o americano Dan Brotman foi diretor executivo da Federação Judaica na cidade de Windsor, em Ontário, viveu na África do Sul e organiza grupos para viagens às comunidades remotas. Em artigo publicado no site do jornal South African Jewish Report, ele conta sua visita ao Irã, ocorrida em 2019, quando trabalhava em organizações judaicas na África do Sul. Brotman passou dez dias viajando pelo país em uma excursão de turismo e observa que até a Revolução Islâmica a comunidade judaica no Irã tinha 100 mil membros.

Apesar da agenda lotada de passeios a pontos turísticos e históricos, como por exemplo, a visita ao túmulo do rei Ciro, o grande, que libertou os judeus do cativeiro babilônico em 538 AEC, ele conseguiu que o guia muçulmano o ajudasse a encontrar o endereço de uma sinagoga. Era uma sexta-feira e Brotman estava na cidade de Isfahan, a 340 quilômetros de Teerã. “Ao pôr do sol, eu e Mohammad caminhamos pelas ruas em busca do edifício onde estaria instalada a sinagoga Mullah Jacob”, conta. Coincidentemente, ao pedirem informações a um garoto que passava na rua, o menino respondeu que estava indo para a sinagoga. “Sigam-me, estou indo para lá rezar”, disse.

Brotman chegou à sinagoga e deixou os sapatos na entrada, seguindo o costume local. “Fui inicialmente recebido com olhares de poucos amigos, já que os estrangeiros devem obter permissão oficial do governo antes de visitar qualquer instituição judaica.” Ele encontrou um jovem que falava inglês e ambos conversaram sobre a situação dos judeus no Irã. Brotman também percebeu que a grande estrela de Davi que ficava do lado de fora da sinagoga, símbolo do judaísmo e do estado de Israel, estava coberta.

Autorização para visitas

Devido a sua insistência e a colaboração do guia, a empresa de turismo conseguiu obter a autorização para que Brotman pudesse visitar instituições judaicas, durante um único dia, após o término da excursão. “Levei meu passaporte para os escritórios da Comunidade Judaica de Teerã, a organização oficial que representa os judeus iranianos. O administrador do escritório me entregou uma carta de apresentação em persa que eu deveria levar a cada instituição judaica que visitasse naquele dia.”

De posse do documento, Brotman iniciou seu roteiro. Inicialmente conversou com o presidente da comunidade judaica, que se mostrou muito reservado. Conheceu um dos quatro restaurantes kasher da capital – que não tinha identificação e nem mezuzá no umbral da porta - e foi à sinagoga Abrishami, a maior do Irã, localizada na Rua Felestin (Palestina). Até o rompimento de relações diplomáticas, nesta rua também ficava a embaixada de Israel cujo prédio foi entregue à Organização para a Libertação da Palestina. A via rebatizada também abriga um monumento em homenagem à Intifada (agitação, em árabe) como são conhecidos os movimentos dos palestinos contra Israel.

Ao final do dia, antes de seu retorno à África do Sul, Brotman se encontrou com um membro da comunidade judaica, Arash Abaie, professor de cultura judaica em uma universidade de estudos das religiões, a “University of Religions and Denominations”, situada na cidade de Qom, a 140 quilômetros de Teerã. Brotman convidou o professor a visitar a África do Sul para falar sobre a coexistência judaica-muçulmana no Irã, a história persa-judaica e os locais de peregrinação judaica no Irã. Semanas depois, com o apoio dos centros judaicos de Joanesburgo e da Cidade do Cabo, Abaie foi ao país para as palestras.

Cartilha de ódio

Em 2021, por ocasião dos 42 anos da Revolução Islâmica, a sistemática difusão de antissemitismo nas escolas iranianas mereceu um estudo abrangente da Liga Antidifamação (ADL, na sigla em inglês). Um dos exemplos específicos é o que instrui os alunos a gritar “Morte a Israel” nas salas de aula. Os livros oficiais ensinam ainda que os judeus sempre conspiraram contra o Islã e que a nação israelense deve ser eliminada.

Os alunos também são incitados, através dos livros didáticos do currículo oficial, a glorificar o terrorismo com a doutrinação sistemática do ódio e de mensagens xenófobas e extremistas. Eles aprendem que as sanções lideradas pelos Estados Unidos contra o Irã fazem parte de um ”plano satânico” para eliminar as crenças religiosas dos muçulmanos e que seus cientistas nucleares são uma benção para a grande jihad (guerra santa).

De acordo com David Weinberg, diretor de assuntos internacionais da ADL e autor do relatório, os livros escolares iranianos foram atualizados em 2020 com a inclusão de uma teoria conspiratória contra a mídia ocidental que estaria exagerando os efeitos da Covid-19 para esvaziar as cerimônias de comemoração de mais um aniversário da Revolução Islâmica, que atrai milhões de iranianos às praças públicas.

Somando-se à propaganda de ódio, o governo iraniano também patrocinou naquele ano um concurso internacional de charges para promover a negação do Holocausto, com a apresentação de mais de 800 cartuns disseminando a intolerância, o preconceito e o antissemitismo. Desenhos que reforçam estereótipos, falsas narrativas, demonizam líderes ocidentais e glorificam a violência e o terrorismo.

Acusações de espionagem

Instalada em 11 de fevereiro de 1979, a Revolução Islâmica transformou a monarquia persa pró-Ocidente na República Islâmica do Irã, uma teocracia comandada pelos aiatolás. Três meses depois, o presidente da Associação Judaica do Irã, Habib Elghanian, foi executado por um pelotão de fuzilamento, sob a acusação de ser um “espião sionista”. Empresário bem sucedido, todos os seus bens foram confiscados pelo novo regime. A sinagoga Abrishami, já citada, inaugurada em 1965, teve o terreno doado por Elghanian.

Em 1999, outros 13 membros da comunidade judaica de Shiraz também foram acusados de espionagem a favor de Israel e dos Estados Unidos, entre eles, um rabino, professores, comerciantes e até um jovem de 16 anos. Condenados a longas penas de prisão, eles foram soltos, gradativamente, após uma campanha internacional a favor de sua libertação. Destino diverso do empresário Ruhollah Kadkhodah Zadeh, que foi enforcado pelas autoridades após ser acusado de ajudar os judeus iranianos a emigrar.

Tais fatos somados a perseguições e atos de antissemitismo ocasionaram a fuga de 90% dos judeus iranianos do país, deixando para trás bens estimados em 1 bilhão de dólares, patrimônio privado que foi inteiramente confiscado pelo regime dos aiatolás.

(13/3/2026)



Sheila Sacks é jornalista e trabalha em Assessoria de Imprensa na cidade do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro, RJ
http://sheilasacks.blogspot.com


Direitos Reservados. É proibida a reprodução deste artigo sem autorização do autor.






Direção e editoria
Irene Serra