Sheila Sacks
Irã: vidas em segredo
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Um fato histórico marcou a
eclosão da guerra entre os EUA/Israel e o Irã, no sábado, dia 28 de fevereiro.
O conflito foi iniciado dois dias antes da Festa de Purim (da palavra hebraica
pur, que significa sorteio) que celebra, anualmente, a salvação da comunidade
judaica na antiga Pérsia (atual Irã).
O episódio ocorreu no século 4, antes
da Era Comum (AEC), em igual período, quando forças políticas tramaram a
aniquilação dos hebreus residentes no império, salvos pela ação da rainha
Ester, uma jovem judia casada com o rei da Pérsia.
Atualmente, menos de 10
mil judeus vivem no Irã. Uma comunidade isolada e insegura, que mantém um
comportamento apartado da política, invocando sua milenar descendência persa.
Dois depoimentos ajudam a desvendar um pouco o ambíguo comportamento da
comunidade judaica no Irã, país muçulmano de maioria xiita, com uma população
aproximada de 82 milhões de habitantes. Os textos foram postados na
Internet, em 2021, nas proximidades de Purim. De nacionalidades diferentes, os
autores vivem nos Estados Unidos e no Canadá e apesar das perspectivas e focos
diferentes em suas abordagens, ambos mantêm em comum a observação crítica
acerca do comportamento social dos judeus iranianos, bastante arredio e
distante das preocupações e do ativismo coletivo das comunidades judaicas de
outros países. Celebração entre quatro paredes
Nascida na antiga cidade
de Shiraz, no sudoeste do Irã, Aylin Sedigh emigrou para os Estado Unidos aos
doze anos, no final da década de 1990. Ela mantém um blog na plataforma de
notícias The Times of Israel onde escreve basicamente sobre suas lembranças de
infância naquele país e o cotidiano dos judeus originários de países
muçulmanos, os chamados mizrahim (orientais).
Relembrando Purim, Sedigh
conta que durante a festividade sua família tinha o cuidado de manter as
janelas fechadas para que os sons e a visão da celebração não alcançassem os
ouvidos e olhares curiosos dos vizinhos. Aos dez anos, visitou o mausoléu que
abriga os túmulos da rainha Ester e de seu primo Mordechai, na cidade de
Hamadan, antiga visto que até a década de 1970 as tumbas ficavam escondidas em
um local de difícil acesso, em meio a becos estreitos e tortuosos. A reforma
foi realizada pelo monarca Xá Reza Pahlavi, deposto em1979, para a celebração
dos 2.500 anos da monarquia iraniana. De acordo com Sedigh, o cemitério
judeu de Hamadan foi durante séculos o local de peregrinação mais importante
para os judeus iranianos e histórias sobre os milagres da rainha Ester eram
ouvidas por toda a parte. Até muçulmanos, cristãos e mulheres da seita Bahá’í
visitavam o túmulo, orando à rainha por milagres na concepção de filhos,
afirma a autora. Durante o período escolar, Sedigh relembra que procurava
não chamar a atenção para a sua pessoa e sua crença, e que o uso em público
por todas as meninas do véu cobrindo a cabeça a ajudava se manter
despercebida.
- Guardei minhas crenças para mim mesmo enquanto estava na
escola. A cobertura tradicional para a cabeça era um requisito para todas as
mulheres em público e os homens não usavam seus yarmulkes (solidéu ou kipá, em
hebraico) nas ruas. Ritual das seis velas
Outra lembrança dos seus
tempos no Irã diz respeito a uma cerimônia anual na primavera quando o pai
reunia a família e acendia seis velas, pedindo um minuto de silêncio em
memória dos judeus que morreram. Um ritual sem perguntas e sem explicações,
segundo Sedigh. “Morei no Irã até os 12 anos e nunca ouvi falar do
Holocausto”, confessa. “Fui saber sobre o Holocausto quando já residia nos
Estados Unidos, ao assistir o filme A Lista de Schindler, de Spielberg” (o
Holocausto aconteceu na 2ª Grande Guerra, com o assassinato de 6 milhões de
judeus pelos nazistas). Sedigh também conta que observava o pai, todas as
noites, mexendo no rádio para escolher a melhor frequência para escutar as
notícias transmitidas por Israel na língua farsi (idioma persa). “No Irã dos
clérigos muçulmanos (aiatolás), essa era a única maneira de obter notícias
autênticas, diferentes das versões transmitidas pela rede de TV iraniana”,
explica. Ainda que guarde boas recordações das férias de verão desfrutadas
em família nas areias e águas cristalinas do Mar Cáspio, a rotina não era
fácil. “Crescendo no Irã, na década de 1980, a existência cotidiana era
repleta de medo, ansiedade e incerteza. Havia ameaças de guerra mortal com o
vizinho Iraque e escassez de alimentos, água e eletricidade”, relata. “Mesmo
na praia existia o risco de um carro da patrulha aparecer e aqueles que não
estivessem vestidos conforme a lei islâmica serem punidos.”
Ambiente hostil
A iraniana Sedigh confessa que tem sentimentos confusos em relação ao país em
que nasceu e lembra que milhares de judeus mizrahi foram forçados a abandonar
seus lares “na escuridão da noite”, fugindo de um ambiente de risco,
abandonando tudo que possuíam para trás.
- Deixei o Irã no final de 1990. É
um país repleto de belezas naturais, com uma cultura maravilhosa e uma comida
deliciosa. Mas também é um país que, após a revolução islâmica de 1979,
mostrou um total desprezo para seus cidadãos judeus e para o estado de Israel.
Ainda assim, Sedigh admite que a cultura iraniana exerceu uma grande
influência em seu desenvolvimento moral e social. Ela diz que a modéstia, a
honra e a reputação (aberu, na língua persa), é o bem mais valioso de uma
garota persa, um princípio fundamental na tradição iraniana. “Mesmo depois que
minha família emigrou para os Estados Unidos, fui criada em uma casa
tradicional persa moldada pelo aberu. Isso criou uma cultura de respeito e nos
ensinou a honrar nossos idosos.”
Mas, o grande exemplo e a mais importante
heroína para as mulheres mizrahi, de acordo com Sedigh, é a rainha Ester,
vista como uma judia persa forte e assertiva que certamente superou muitas
barreiras. Ela assinala que Esther foi instada por seu primo Mordechai a
esconder sua identidade judia e se casar com um homem não judeu, “algo que
seria considerado tabu entre a comunidade judaica”. - Dentro dos limites
de uma cultura muito tradicional em que as mulheres eram encorajadas a ficar
em segundo plano, a rainha Ester saiu das normas culturais com as quais foi
criada para salvar seu povo, conclui.
Viagem ao Irã
Residindo no Canadá,
o americano Dan Brotman foi diretor executivo da Federação Judaica na cidade
de Windsor, em Ontário, viveu na África do Sul e organiza grupos para viagens
às comunidades remotas. Em artigo publicado no site do jornal South African
Jewish Report, ele conta sua visita ao Irã, ocorrida em 2019, quando
trabalhava em organizações judaicas na África do Sul. Brotman passou dez dias
viajando pelo país em uma excursão de turismo e observa que até a Revolução
Islâmica a comunidade judaica no Irã tinha 100 mil membros. Apesar da
agenda lotada de passeios a pontos turísticos e históricos, como por exemplo,
a visita ao túmulo do rei Ciro, o grande, que libertou os judeus do cativeiro
babilônico em 538 AEC, ele conseguiu que o guia muçulmano o ajudasse a
encontrar o endereço de uma sinagoga. Era uma sexta-feira e Brotman estava na
cidade de Isfahan, a 340 quilômetros de Teerã. “Ao pôr do sol, eu e Mohammad
caminhamos pelas ruas em busca do edifício onde estaria instalada a sinagoga
Mullah Jacob”, conta. Coincidentemente, ao pedirem informações a um garoto que
passava na rua, o menino respondeu que estava indo para a sinagoga. “Sigam-me,
estou indo para lá rezar”, disse.
Brotman chegou à sinagoga e deixou os
sapatos na entrada, seguindo o costume local. “Fui inicialmente recebido com
olhares de poucos amigos, já que os estrangeiros devem obter permissão oficial
do governo antes de visitar qualquer instituição judaica.” Ele encontrou um
jovem que falava inglês e ambos conversaram sobre a situação dos judeus no
Irã. Brotman também percebeu que a grande estrela de Davi que ficava do lado
de fora da sinagoga, símbolo do judaísmo e do estado de Israel, estava
coberta.
Autorização para visitas
Devido a sua insistência e a
colaboração do guia, a empresa de turismo conseguiu obter a autorização para
que Brotman pudesse visitar instituições judaicas, durante um único dia, após
o término da excursão. “Levei meu passaporte para os escritórios da Comunidade
Judaica de Teerã, a organização oficial que representa os judeus iranianos. O
administrador do escritório me entregou uma carta de apresentação em persa que
eu deveria levar a cada instituição judaica que visitasse naquele dia.”
De
posse do documento, Brotman iniciou seu roteiro. Inicialmente conversou com o
presidente da comunidade judaica, que se mostrou muito reservado. Conheceu um
dos quatro restaurantes kasher da capital – que não tinha identificação e nem
mezuzá no umbral da porta - e foi à sinagoga Abrishami, a maior do Irã,
localizada na Rua Felestin (Palestina). Até o rompimento de relações
diplomáticas, nesta rua também ficava a embaixada de Israel cujo prédio foi
entregue à Organização para a Libertação da Palestina. A via rebatizada também
abriga um monumento em homenagem à Intifada (agitação, em árabe) como são
conhecidos os movimentos dos palestinos contra Israel.
Ao final do dia,
antes de seu retorno à África do Sul, Brotman se encontrou com um membro da
comunidade judaica, Arash Abaie, professor de cultura judaica em uma
universidade de estudos das religiões, a “University of Religions and
Denominations”, situada na cidade de Qom, a 140 quilômetros de Teerã. Brotman
convidou o professor a visitar a África do Sul para falar sobre a coexistência
judaica-muçulmana no Irã, a história persa-judaica e os locais de
peregrinação judaica no Irã. Semanas depois, com o apoio dos centros judaicos
de Joanesburgo e da Cidade do Cabo, Abaie foi ao país para as palestras.
Cartilha de ódio
Em 2021, por ocasião dos 42 anos da Revolução Islâmica, a
sistemática difusão de antissemitismo nas escolas iranianas mereceu um estudo
abrangente da Liga Antidifamação (ADL, na sigla em inglês). Um dos exemplos
específicos é o que instrui os alunos a gritar “Morte a Israel” nas salas de
aula. Os livros oficiais ensinam ainda que os judeus sempre conspiraram contra
o Islã e que a nação israelense deve ser eliminada.
Os alunos também são
incitados, através dos livros didáticos do currículo oficial, a glorificar o
terrorismo com a doutrinação sistemática do ódio e de mensagens xenófobas e
extremistas. Eles aprendem que as sanções lideradas pelos Estados Unidos
contra o Irã fazem parte de um ”plano satânico” para eliminar as crenças
religiosas dos muçulmanos e que seus cientistas nucleares são uma benção para
a grande jihad (guerra santa). De acordo com David Weinberg, diretor de
assuntos internacionais da ADL e autor do relatório, os livros escolares
iranianos foram atualizados em 2020 com a inclusão de uma teoria conspiratória
contra a mídia ocidental que estaria exagerando os efeitos da Covid-19 para
esvaziar as cerimônias de comemoração de mais um aniversário da Revolução
Islâmica, que atrai milhões de iranianos às praças públicas.
Somando-se à
propaganda de ódio, o governo iraniano também patrocinou naquele ano um
concurso internacional de charges para promover a negação do Holocausto, com a
apresentação de mais de 800 cartuns disseminando a intolerância, o preconceito
e o antissemitismo. Desenhos que reforçam estereótipos, falsas narrativas,
demonizam líderes ocidentais e glorificam a violência e o terrorismo.
Acusações de espionagem
Instalada em 11 de fevereiro de 1979, a Revolução
Islâmica transformou a monarquia persa pró-Ocidente na República Islâmica do
Irã, uma teocracia comandada pelos aiatolás. Três meses depois, o presidente
da Associação Judaica do Irã, Habib Elghanian, foi executado por um pelotão de
fuzilamento, sob a acusação de ser um “espião sionista”. Empresário bem
sucedido, todos os seus bens foram confiscados pelo novo regime. A sinagoga
Abrishami, já citada, inaugurada em 1965, teve o terreno doado por Elghanian.
Em 1999, outros 13 membros da comunidade judaica de Shiraz também foram
acusados de espionagem a favor de Israel e dos Estados Unidos, entre eles, um
rabino, professores, comerciantes e até um jovem de 16 anos. Condenados a
longas penas de prisão, eles foram soltos, gradativamente, após uma campanha
internacional a favor de sua libertação. Destino diverso do empresário
Ruhollah Kadkhodah Zadeh, que foi enforcado pelas autoridades após ser acusado
de ajudar os judeus iranianos a emigrar. Tais fatos somados a perseguições
e atos de antissemitismo ocasionaram a fuga de 90% dos judeus iranianos do
país, deixando para trás bens estimados em 1 bilhão de dólares, patrimônio
privado que foi inteiramente confiscado pelo regime dos aiatolás.
(13/3/2026)
Sheila Sacks é
jornalista e trabalha em Assessoria de Imprensa na cidade do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro, RJ
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Direção e editoria
Irene Serra
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