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16/03/2025
Ano 28 - Nº 1.409

ARQUIVO
SHEILA SACKS
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Sheila Sacks
Covid-19/ano 5: pesquisas apontam novos vírus com risco pandêmico
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Cientistas temem que experimentos arriscados com novos vírus, que incluem até
“camundongos humanizados”, resultem em outros surtos.
Em
fevereiro, um estudo publicado por cientistas chineses na revista científica
americana Cell provocou turbulência nos mercados financeiros mundiais,
inclusive no Brasil, com aumento do preço do dólar e queda na rentabilidade
das ações. A descoberta de um novo coronavírus com capacidade de infectar
humanos, semelhante ao vírus SARS-CoV-2 causador da Covid-19, e seu forte
potencial de disseminação ganharam repercussão midiática principalmente nos
meios digitais.
Segundo a plataforma UOL, cientistas do Laboratório de
Guangzhou (em conjunto com o Instituto de Virologia de Wuhan- WIV)
constataram que o novo coronavírus (HKU5-CoV-2) contaminou tecidos pulmonares
e intestinais cultivados artificialmente com células humanas. No entanto,
eles também atestaram que o vírus ainda não foi detectado em humanos, e
provém da mesma linhagem do merbecovirus causador da Mers (Síndrome
Respiratória do Oriente Médio), que tem algumas características similares com
a Covid-19, mas menos agressivo. Para esse vírus ainda não existe vacina.
A notícia veiculada numa sexta-feira, 21 de fevereiro, não atravessou o fim
de semana e se perdeu em meio a eventos posteriores como o bate-boca de
Zelensky, da Ucrânia, com o presidente Donald Trump na Casa Branca, e no caso
de mídia nacional, a corrida do filme brasileiro ao Oscar e os preparativos
para o Carnaval. Mas, ressalva seja feita, um dia após o término dos
festejos, uma matéria na plataforma digital do jornal Estado de São Paulo
(5/3/2025) procurou tranquilizar os leitores afirmando que o novo vírus
descoberto, o HKU5-CoV-2, “não está adaptado a seres humanos”. Pesquisadores
brasileiros consultados classificaram a descoberta como “um trabalho de
vigilância” e explicaram que o estudo em questão, apesar de mostrar “que há
afinidade entre a proteína S do novo vírus de se conectar a células humanas”,
não concluiu que isso significaria que o vírus tem capacidade de infectar o
organismo humano. Em contrapartida, The Economic Times alerta que
cientistas temem que experimentos arriscados com esse vírus, que incluem até
“camundongos humanizados”, resultem em outro surto. Simon Clarke,
especialista em microbiologia celular na Universidade de Reading, no Reino
Unido, considerou a notícia inquietante, visto que a descoberta de outro
coronavírus de morcego que consegue se introduzir em células humanas e
animais, desbloqueando-as da mesma forma que a Covid-19, sugere um maior grau
de transmissão. Também a relação genética do vírus com o coronavírus da MERS,
conhecido por sua alta taxa de mortalidade, amplifica ainda mais as
preocupações sobre potenciais implicações para a saúde.
No final de
janeiro, o novo diretor da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos
(CIA), John Ratcliffe, divulgou relatório do órgão considerando muito
provável que a pandemia da Covid-19 tenha se originado de vazamento em um
laboratório na China, o WIV, que realizou pesquisas arriscadas com vírus
turbinados. A descoberta do HKU5-CoV-2 no mesmo instituto da China reacende
os debates sobre a segurança laboratorial e as origens das pandemias, pondo
em foco o papel da pesquisa virológica de alto risco na prevenção ou
potencialmente na precipitação dessas infecções globais.
Pós pandemia
O
novo vírus se junta à Covid-19 e a dezenas de outros com potencialidade de
infectar humanos e provocar pandemias descobertos por cientistas. Uma lista
de 30 patógenos que já provocaram surtos, principalmente na Ásia e na África,
foi divulgada em agosto de 2024 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e
dentre eles estão a Mers, transmitida por dromedários infectados; a CCHF
(febre hemorrágica da Crimeia-Congo), propagados por carrapatos; Ebola,
oriunda de morcegos e com taxa de mortalidade de 90%; Febre de Lassa,
transmitida por ratos; Niphan, cujo contágio se dá em contato com porcos
doentes e carne contaminada; a SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave); e, o
Zika, transmitido pela picada do mosquito.
Em recente reportagem
(1/3/2025), o jornal britânico The Guardian marcou os cinco anos pós pandemia
com uma matéria de consulta a especialistas de áreas diversas sobre os
efeitos e consequências da Covid-19. Alguns lembraram que catástrofes de
qualquer tipo alimentam reflexões sobre a condição humana e a necessidade de
repensar a relação entre o indivíduo e o coletivo. Foi assim com o terremoto
de Lisboa em 1775, que abalou os alicerces filosóficos e a pandemia de gripe
de 1918-19 que forçou as pessoas a ter uma maior relação com a natureza.
A
professora universitária Laleh Khalili, especialista em transportes, contou
que a pandemia fez com que mais de 400 mil marinheiros ficassem confinados
nos navios por mais de 22 meses, “vagando pelos mares do mundo”, já
encerrados os contratos. Lembrou que em terra os entregadores de alimentos e
mantimentos, enfermeiros e motoristas de ônibus foram os mais afetados pela
Covid-19.
Comercialmente, de acordo com Khalili, a pandemia ajudou a
acelerar o ambiente hoje instituído de guerra tarifária entre os Estados
Unidos de Trump contra a China e outros parceiros. As características comuns
do capitalismo - que são a deslocalização da indústria, a terceirização de
mão de obra e os custos exorbitantes do transporte - foram exacerbadas pela
Covid-19, diz a professora, que admite uma nova era comercial entre os
países.
Educação e saúde
Sociólogo e economista político, William
Davies destaca que com a pandemia o ensino on-line tornou a educação mais
pulverizada e mecânica. A sala de aula e o campus foram substituídos pelo
quarto e esse afastamento social devido aos lockdowns (confinamentos)
resultou em legados de saúde mental que não privilegiam a frequência
presencial e a ambiguidade do espaço social.
Na área de saúde pública, a
especialista Devi Sridhar destaca que mais de 230 mil pessoas perderam a vida
no Reino Unido com a Covid-19 e é sempre uma preocupação pensar que algo
parecido possa se repetir. Ela alerta que a gripe aviária (cepa H5N1) está se
espalhando pelos Estados Unidos (também já tem registro na Argentina)
infectando pássaros, aves (principalmente galinhas: 20 milhões mortas e 13,2
milhões abatidas) e rebanhos de gado (cerca de 900). Em sua opinião, se a
doença atingir os humanos e tiver uma alta taxa de letalidade, as pessoas
agora naturalmente irão se isolar em suas casas, sem que os governos precisem
pedir ou impor regras (em janeiro foi confirmada a primeira morte de uma
pessoa pela gripe aviária e 68 humanos já foram infectados). Então é preciso
se preparar, em termos de resiliência, para enfrentar possíveis doenças
pandêmicas, investir em ciência e especialmente em programas de vacinação. A
amnésia coletiva é a resposta errada à Covid-19, afirma a especialista. E a
Covid longa – reconhecida pela OMS desde outubro de 2021- está a nos lembrar
da doença, com milhares de casos de pessoas que, passados cinco anos, ainda
sofrem de fadiga, muitas vezes incapacitante, problemas renais, falta de ar,
tosse persistente e dor no peito.
Um estudo realizado pela Universidade de
São Paulo (USP) e pela Escola Paulista de Medicina, em 2021, mostrou que 36%
dos pacientes que tiveram sintomas graves de Covid-19 acabaram desenvolvendo
lesão renal aguda (LRA).
Histórico
Em 31 de dezembro de 2019, a OMS foi
notificada sobre casos de uma "pneumonia de origem desconhecida" na cidade
chinesa de Wuhan. Era o primeiro alarme da existência da Covid-19. Em 30 de
janeiro de 2020, a doença era declarada emergência internacional e em 11 de
março a OMS a configura como pandemia. No Brasil, as primeiras mortes pelo
vírus também ocorreram em março de 2020 e até 2023 o vírus já tinha matado
710 mil pessoas, número inferior apenas aos Estados Unidos com 1,2 milhão de
óbitos. A OMS totaliza que a pandemia contaminou 777 milhões de pessoas e
ocasionou 7 milhões de mortes, embora considere que o número real de mortes
seja até três vezes superior ao estimado e ultrapasse os 20 milhões.
Em
2024 ainda foram registrados 70 mil mortes pela Covid-19 e três milhões de
casos em todo o mundo. Matéria recente do G1 (27/2/2025) chama a atenção para
o aumento de casos de Covid-19 no estado do Amazonas, entre 27 de janeiro e
24 de fevereiro deste ano. Foram 97 casos, sendo cinco óbitos, um aumento de
177% em relação ao período anterior.
De acordo com a plataforma UOL
(27.02.2025) somente neste início de ano o Brasil somou mais de 108 mil casos
e 511 mortes por Covid-19. Segundo a secretaria de Vigilância em Saúde e
Ambiente do Ministério da Saúde o vírus é a maior causa das síndromes
respiratórias graves e representa 48% das notificações, principalmente em
idosos, e 87% das mortes.
Em face desses números, o Ministério da Saúde
divulgou que a imunização contra a Covid-19 agora faz parte do Calendário
Nacional de Vacinação, priorizando pessoas a partir de 60 anos que receberão
uma dose da vacina a cada seis meses. A mudança também irá favorecer
gestantes e crianças de 6 meses a menores de 5 anos.
Vírus permanece
A
especialista da OMS Maria Van Kerkhove, epidemiologista que lidera a resposta
da agência à doença desde 2020, chama a atenção para o fato que a Covid-19
não desapareceu. "Ainda temos cerca de 4 mil mortes por mês, mas muitos
países não informam os dados à OMS. Apesar de não estarmos na mesma situação
de 2020, 2021 ou 2022, o vírus veio para ficar”, alerta. A OMS trabalha
há três anos para aprovar um tratado internacional sobre preparação contra
futuras pandemias com o objetivo de operacionalizar os países para futuros
agentes infecciosos com potencial pandêmico, sejam novos coronavírus ou
qualquer outro agente ainda desconhecido, apelidado de "doença X".
Entretanto, a assinatura do tratado sofre resistência dos países nas questões
comerciais de distribuição de vacinas, tratamentos e testes de diagnóstico e
quebras de patentes. "As pessoas querem jogar a covid para o passado,
fingir que nunca aconteceu porque foi traumático, mas isso impede que nos
preparemos para o futuro", afirma Kerkhove.
Nesse início de 2025, já foi
constatado um surto de Metapneumovírus humano (HMPV) na China, que tem
causado infecções respiratórias, especialmente entre crianças e idosos. Da
mesma família do Vírus Sincicial Respiratório (VSR) pode evoluir para uma
forma grave, levando à Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). A ausência
de vacinas ou antivirais específicos para esse vírus é um fator preocupante.
Aqui no Brasil, no final do ano passado, uma criança morreu no Paraná depois
de contrair o vírus, e em janeiro deste ano o estado do Amazonas registrou
dez casos de Metapneumovírus.
Mpox
Ainda em fevereiro a OMS manteve o
status da Mpox, do gênero Orthopoxvirus (antes conhecida como
varíola-dos-macacos ou monkeypox), como emergência de saúde pública
internacional. Desde agosto de 2024 até o início de 2025, vários casos foram
registrados fora do continente africano. No Congo, neste período, o vírus
provocou 147 mortes e mais de 15 mil casos confirmados. Identificada em
1970, a doença ficou muitos anos restrita a uma dezena de países africanos,
mas em 2022 começou a se espalhar para o resto do mundo. De acordo com a OMS,
de janeiro de 2022 a dezembro de 2024, foram confirmados 124 mil casos e 272
mortes pela doença em 128 países. Os sintomas incluem, além das erupções
cutâneas, febre alta, dor de cabeça e cansaço. Em janeiro, no norte da
França, foi detectada a contaminação por uma variante mais agressiva da Mpox,
identificada como Clado 1b, em uma pessoa que teve contato com outra que
esteve na África. Na China, a contaminação se deu em um viajante que
regressou do Congo, e no Brasil, em março, foi confirmada em uma mulher
internada em São Paulo.
Segundo a Agência Fiocruz de Notícias, em seu
informe divulgado em 21de fevereiro, o Brasil é um dos países mais afetados
pelo Mpox, contabilizando mais de 13 mil casos desde 2022, sendo cerca de 2
mil em 2024 e aproximadamente cem nesse início de 2025. Dezesseis mortes
foram confirmadas no país. Atualmente existem duas vacinas contra o Mpox, uma
proveniente de laboratório da Dinamarca e a segunda fabricada nos Estados
Unidos. O vírus Dengue (DENV) também tem feito estragos no Brasil e desde
fevereiro do ano passado a vacina é encontrada nos postos públicos de saúde.
Do gênero Orthoflavivirus, com quatro sorotipos conhecidos, o vetor é a fêmea
do mosquito Aedes aegypti (significa ‘odioso do Egito’).
Em 2024 foram
mais de 6,6 milhões de casos prováveis de Dengue e mais de 6 mil óbitos.
Nesse início de ano já foram registrados 52 mortes e outras 256 estão em
investigação. O médico epidemiologista Alexandre Naime, da Sociedade
Brasileira de Infectologia, acredita que pelo histórico de 2024, que
totalizou mais casos de dengue do que os últimos oito anos somados, 2025
promete quebrar todos os recordes do ano passado. Em relação à
Chikungunya e ao Zika Vírus, doenças também transmitidas pelo Aedes aegypti,
ainda não existem vacinas. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2024 a
Chikungunya afetou 261 mil pessoas e matou 196, com 177 mortes em
investigação.
11/03/2025
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Sheila Sacks é
jornalista e trabalha em Assessoria de Imprensa na cidade do Rio de Janeiro.
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