Sheila Sacks
O GUARDIÃO DOS MANUSCRITOS
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A descoberta dos Manuscritos do Mar Morto (e seus desdobramentos) já
rendeu mais de cem mil títulos publicados em todo o mundo. Esse fantástico
evento arqueológico ocorreu em 1947, um ano politicamente emblemático para a
humanidade pela histórica decisão da Organização das Nações Unidas (ONU) que,
em 29 de novembro, bateu o martelo e se decidiu pela partilha da Palestina.
Mas, por uma dessas incríveis coincidências, também foi nessa exata data
de 29 de novembro de 1947 que teve início uma outra história com contornos de
lenda. Na cidade santa de Jerusalém, na noite daquele glorioso dia, enquanto
ouvia no rádio a empolgante notícia da criação do estado de Israel, um
professor da Universidade Hebraica examinava em sua casa, perplexo, alguns
pergaminhos que obtivera de um antiquário árabe da cidade de Belém. Chefe do
Departamento de Arqueologia da universidade, Eleazar Sukenik (1889-1953) não
teve dúvidas de que estava diante de uma das maiores descobertas do século.
Naquele momento ele resolveu comprar os três manuscritos colocados à venda,
aos quais vieram se somar, ao longo do tempo, outras dezenas de pergaminhos
descobertos nas grutas do deserto da Judeia, situadas a poucos quilômetros das
margens do Mar Morto.
Em seu livro “A Mensagem dos Rolos” (1957), o
arqueólogo Yigael Yadin (1917-1984), filho de Sukenik e na época chefe de
operações do exército clandestino judaico que lutava contra a ocupação
britânica na Palestina, ressaltou o lado simbólico da descoberta dos primeiros
manuscritos, ocorrida simultaneamente à criação do estado de Israel. “É como
se os pergaminhos tivessem aguardando nas cavernas durante dois mil anos,
desde a destruição da independência de Israel, até que o povo judeu retornasse
a sua pátria e reconquistasse sua liberdade”, escreveu. Sete anos depois, em
1954, coube ao mesmo Yadin – que atingiu a patente de general e foi chefe do
estado-maior das Forças de Defesa de Israel, de 1949 a 1952 -, adquirir e
trazer para Israel os outros quatro manuscritos daquele primeiro lote obtido
pelo seu pai, em uma operação complexa e arrojada tendo como cenário a cidade
de Nova York.
ENSINO NAS ESCOLAS
Hoje, toda essa preciosidade
arqueológica, cultural e religiosa de valor inestimável, pontuada por mais de
meio século de surpreendentes histórias paralelas de risco, persistência e
coragem, encontra-se à disposição dos visitantes no Santuário do Livro do
Museu de Israel, em Jerusalém. Seu curador e diretor é o rabino Adolfo Daniel
Roitman, 51 anos, que desde 1994 tem a grandiosa missão de cuidar desse acervo
e que de forma extraordinária vem trabalhando na divulgação do conteúdo dos
rolos, principalmente no seu ensino nas escolas. Realizando exposições e
palestras, principalmente em universidades da Europa e do continente
americano, Roitman acredita que os ensinamentos dos manuscritos são
fundamentais para a compreensão da civilização ocidental, já que eles
representam um momento especial na história da humanidade: a época do encontro
entre o Oriente e o Ocidente, entre a cultura grega e a judaica. Segundo ele,
a partir dessa época é que se originaram, de um lado o judaísmo rabínico e do
outro o cristianismo que, juntamente com a cultura grega são as três bases de
identidade do Ocidente.
De Jerusalém, após regressar do México onde
ministrou a aula magna na “Universidad del Claustro “ sobre “Mitos e Realidade
dos Rolos do Mar Morto” e participou do “IV Colóquio Internacional Religión y
Símbolo” (outubro de 2008), Roitman fala um pouco mais sobre esse tema
apaixonante que atualmente dispõe de uma farta literatura de consulta e
aprendizado, o que bem atesta o crescente interesse que o assunto desperta nas
pessoas, independente de suas convicções e crenças. Vale dizer, ainda, que o
Santuário do Livro é hoje um dos pontos turísticos mais visitados em Israel.
ENTREVISTA
Por que considera importante ensinar e introduzir no
currículo das escolas judaicas e laicas a cultura do Deserto e os Manuscritos
do Mar Morto? - Os manuscritos do Mar Morto são os documentos mais
importantes que foram encontrados na terra de Israel e provavelmente também
representem o descobrimento arqueológico mais importante do século 20. Entre
1947 e 1956 foram achados em 11 cavernas na área de Qumran, situada a 25
quilômetros a leste de Jerusalém, aproximadamente mil documentos, incluindo os
mais antigos manuscritos bíblicos do mundo. Além disso, entre esses documentos
foram encontradas centenas de obras não conhecidas que revelam uma riqueza
espiritual judaica inusitada. Entre esses manuscritos estão calendários, peças
litúrgicas, textos místicos, obras mágicas e exegéticas que lançam luz sobre a
literatura de Israel na época antiga. E daqui, portanto, que toda essa
maravilhosa fonte deve ser estudada pelas crianças e jovens com o objetivo de
que conheçam o extraordinário legado espiritual do judaísmo antigo e dessa
forma consolidem uma imagem mais abrangente, rica e diversificada do
pensamento e da literatura do povo judeu, ampliando o seu acervo cultural e
equilibrando a imagem rabínica com a realidade que elas conhecem.
Existem escolas secundárias em Israel ou em outros países que já adotaram o
estudo dos Manuscritos como uma matéria dentro do currículo escolar? -
Lamentavelmente e apesar de que já se passaram 60 anos dessa descoberta, não
se elaborou, ainda, uma estratégia sistemática de estudos desses textos.
Contudo, por minha própria iniciativa, desenvolvemos em Israel um
programa-piloto para ensinar os manuscritos dentro da grade curricular sobre
estudos bíblicos nas escolas secundárias. Esse programa-piloto foi intitulado
“O tema do Deserto na Bíblia e nos Rolos do Mar Morto”, e foi posto em
execução com bastante êxito em três colégios secundários de Jerusalém. Além
desse projeto, e neste caso por iniciativa da Universidade Hebraica, há alguns
anos foi realizado um curso-piloto para alunos do curso secundário da escola
Dekel-Vilnay, na cidade de Maale Adumim, a leste de Jerusalém. Contudo, ambos
os programas educativos não tiveram prosseguimento, mas tenho esperança que o
novo centro de informação e educação do Santuário do Livro, inaugurado em
2007, possa retomar esses projetos e dessa maneira alcançar o público de todas
as idades para esse fabuloso mundo dos manuscritos.
Já manteve contato
com as comunidades judaicas da América Latina no sentido de tornar possível o
estudo dos Manuscritos nas escolas? - Algum tempo atrás eu participei de um
projeto educativo do “Centro Melton para Educação Judaica” da Universidade
Hebraica, para o qual preparei um curso à distância, com 12 aulas, sobre o
“Judaísmo do Segundo Templo” e do qual também fui o coordenador. O curso foi
muito bem recebido pelos participantes, o que tem me motivado a pensar na
possibilidade de desenvolver um curso semelhante sobre os rolos do Mar Morto.
Cabe destacar que nesse projeto do Centro Melton participaram docentes de
várias comunidades da América Latina, como as do México, Colômbia, Venezuela,
Argentina e outras, possibilitando a esses educadores conhecerem a riqueza e a
potencialidade do tema.
Qual o texto dos rolos que considera
fundamental para o favorecimento de um clima de tolerância e fraternidade
entre as religiões? - Entre os manuscritos bíblicos mais antigos do mundo
achados em Qumran foram encontradas 22 cópias do livro bíblico do profeta
Isaías. Entre essas cópias, um rolo da caverna 1 tinha sido escrito há 2.100
anos. Esse profeta é o mais citado nos rolos do Mar Morto e, além disso, é o
livro profético mais conhecido de todos os que foram descobertos. De acordo
com o que se sabe esse profeta está identificado com a mensagem da Paz
Universal, portanto, nesse momento eu creio que é o rolo mais adequado para
comunicar ou favorecer um clima de tolerância e fraternidade entre as
religiões. Cabe acrescentar, ainda, que esse livro também é o mais citado no
Novo Testamento, o que demonstra igualmente que esse profeta era uma figura
central para os primeiros cristãos (em suas origens, também judeus).
ESCRITOR E CONFERENCISTA Adolfo Roitman nasceu na Argentina e formou-se em
Ciências Antropológicas pela Universidade de Buenos Aires. Em 1986 concluiu o
rabinato no Seminário Rabínico Latinoamericano, filiado ao “The Jewish
Theological Seminary (JTS), de Nova York. Em Israel estudou na Universidade
Hebraica de Jerusalém onde se graduou, com louvor, em “Religiões Comparadas” .
Na mesma universidade, em 1993, obteve o seu doutorado em “Pensamento Judaico
na Antiguidade”. Casado e pai de três filhos, Roitman foi professor no
Departamento de Pensamento Judaico na Universidade Hebraica e no “Schechter
Institute of Jewish Studies”, de Jerusalém. É professor palestrante em
diversas universidades norte-americanas (Hartford, New York, Texas Christian)
e membro da “Society of Biblical Literature” e da “World Union of Jewish
Studies”. Autor de dezenas de artigos veiculados em jornais e revistas
internacionais sobre interpretação bíblica, literatura judaica, pensamento e
religião e os pergaminhos do Mar Morto, Roitman também tem vários livros
publicados, entre eles, “Os Sectários de Qumram”, “Imaginando o Templo:
Pergaminhos Pedras e Símbolos” e “ O Santuário do Livro e o Mistério do
Templo”.
(Rio Total, 28 de novembro/2008 - CooJornal nº 609)
Sheila Sacks é
jornalista e trabalha em Assessoria de Imprensa na cidade do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro, RJ
http://sheilasacks.blogspot.com
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Irene Serra
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