Sheila Sacks
A INCRÍVEL HISTÓRIA DA BÍBLIA DOS AÇORES
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Durante seis anos o jornalista e pesquisador Inacio Steinhardt seguiu os
passos de uma misteriosa Bíblia (Torá, em hebraico) que foi encontrada, em
1997, na gruta da Aldeia de Rabo de Peixe, situada em uma das nove ilhas do
arquipélago dos Açores, no Atlântico. Muitos fatos já foram desvendados,
porém ainda persistem alguns pontos obscuros sobre a incrível jornada do
pergaminho. Nascido em Lisboa, em 1933, e vivendo em Israel desde 1976,
Steinhardt é correspondente da agência de notícias Lusa, presidente da Liga de
Amizade Israel - Portugal e Comendador da Ordem de Mérito da República
Portuguesa. O jornalista também é co-autor do livro “Ben-Rosh Biografia do
Capitão Barros Basto, o Apóstolo dos Marranos”, que conta a história de um
oficial do exército português que retornou as suas origens judaicas.
AVENTURA E MISTÉRIO NA ROTA DE UM PERGAMINHO DO SÉCULO 18
Em
que data e de que forma o senhor teve conhecimento da existência de uma Torá
do século 18 no arquipélago de Açores?
- Na nossa profissão não é raro
acontecer que as histórias chegam até nós e não nos largam enquanto não as
contamos. Foi o que me aconteceu também desta vez. No dia 8 de Maio de 1997
abri na Internet uma página que listava os jornais portugueses. Nesse dia o
mouse parou sobre O Açoreano Oriental. Eu nunca tinha lido um jornal do
arquipélago dos Açores. Não resisti e cliquei para ver como era. Logo na
primeira página, em manchete, vinha a notícia sobre dois alunos da escola
primária de Rabo de Peixe, uma aldeia de pescadores ao norte da Ilha de São
Miguel, que, na véspera haviam achado, dentro de uma gruta, dois rolos de
pergaminho, escritos com caracteres estranhos, e enrolados em volta de dois
rolos de madeira. Suspeitei logo tratar-se de uma Torá (Velho Testamento).
Nos dias seguintes todos os jornais dos Açores repetiam a história,
acrescentando que se tratava de um rolo só, que os pequenos tinham cortado ao
meio, levando alguns fragmentos consigo, um dos quais tinha sido identificado
pelo professor de Religião e Moral da sua escola como sendo hebraico ou
aramaico. A partir daí a imaginação não teve limites, atribuindo-se ao
manuscrito a uma profecia papal e o local como lugar de culto secreto dos
marranos (cristãos-novos, aqueles que foram convertidos à força no século XV).
Um jornal americano chegou a noticiar a existência de inscrições nas paredes
da gruta, nada menos do que em ídiche (idioma ainda usado por judeus,
corruptela do alemão), imagine!
De que maneira a Torá chegou até lá?
- Conheço suficientemente a existência dos cripto-judeus (marranos) em
Portugal para excluir a possibilidade daquela Torá lhes ter pertencido. A
hipótese que me parecia mais lógica era de que a Torá seria de uma das cinco
sinagogas que funcionaram nos Açores, no século XIX, dos judeus de origem
marroquina que lá viveram. A minha suspeita confirmou-se.
Existia na
época comunidade judaica em Açores?
- Em 1997 já não existia nenhuma
comunidade judaica nos Açores. Durante o século XIX, até em torno de 1880,
havia ali uma comunidade de judeus marroquinos que chegou a ter quase 250
pessoas e que viviam em diversas ilhas do arquipélago. As suas sinagogas
funcionavam em casas particulares, com exceção da sinagoga Shaar Shamaim, na
cidade de Ponta Delgada, na Ilha São Miguel, que tinha edifício próprio e
ainda hoje lá está, embora esteja fechada há muitos anos. Todas as Torás
dessas sinagogas foram gradualmente sendo transferidas para a sinagoga Shaare
Tikvá, de Lisboa.
O senhor poderia detalhar as aventuras e as
desventuras desse pergaminho?
- Bom, é uma longa história que levei
seis anos para desvendar. Em poucas palavras, a Torá foi escrita nos primeiros
anos de 1700, na cidade marroquina de Mogador, que hoje se chama Essaouyra, na
costa atlântica de Marrocos. Um judeu de Mogador, Mimon Abohbot, comerciante,
mas pessoa muito letrada em judaísmo, trouxe ao Açores duas Torás para a
sinagoga que funcionava em sua casa, na cidade de Angra de Heroísmo, na Ilha
Terceira, onde ele servia de rabino. Em seu testamento ele deixou escrito que,
após a sua morte, e não havendo mais judeus na cidade, uma Torá deveria ser
enviada para a sinagoga da cidade de Ponta Delgada (Ilha São Miguel) e a outra
levada de volta para Mogador, em Marrocos. Há informações da época que
confirmam que a Torá foi encaixotada para o embarque, mas, por razões que
ignoro, o caixote teria ficado nos Açores. Cem anos mais tarde, numa taberna
da aldeia de Porto Judeu (um nome que também tem a sua história, para contar
outro dia), na Ilha Terceira, o caixote foi entregue a um jovem capitão judeu,
da base aérea americana das Lajes, também na Ilha Terceira. O capitão Marvin
Feldman teve receio de abrir o caixote, pensando que se tratava de um caixão
contendo os ossos de alguém. Mas, quando finalmente teve coragem para abrir,
encontrou a Torá. Ele mandou vir dos Estados Unidos um manto para a Torá e
começou a usá-la no serviço religioso improvisado, na capela da base, para os
militares judeus. Um fato curioso, que não resisto em relatar, é que nenhum
dos judeus da base tinha conhecimentos para ler o texto da Torá sem os sinais
diacríticos. Quem resolveu o problema foi o capelão católico, padre Don
Hunter, que havia aprendido hebraico e a leitura da Bíblia no original, e que
vinha todos os sábados à capela ler a Parashá (capítulo semanal) para os
judeus. Em 1973, quando regressou aos Estados Unidos, o capitão Feldman (hoje
coronel aposentado), deixou a Torá na base, dentro de um bonito armário de
madeira (Aron HaKodesh) que mandou construir. Durante muito tempo ninguém
soube na base onde se encontrava a Torá do capitão Feldman. Hoje eu sei que
entre 1994 e 1997 ela esteve com uma senhora que exercia as funções de líder
laico judeu. Essa senhora, antes de regressar aos Estados Unidos, teve a
intenção de mandar a Torá para a sinagoga de Lisboa. Por motivos que ainda
desconheço, ela a teria mandado para alguém, em Ponta Delgada, que, por sua
vez, deveria embarcar a Torá para Lisboa. E foi precisamente em maio de 1997
que alguém a escondeu dentro da gruta onde foi encontrada.
Qual era o
estado de conservação da Torá quando foi encontrada?
- Em perfeito
estado de conservação, o que revela que não estava naquele local há muito
tempo. O ar salgado do mar teria pelo menos corroído a tinta das letras e
desfeito as costuras do pergaminho. A Torá encontrava-se dentro de um grande
saco de plástico, como que pronta para o embarque. Identificado por
especialistas da Universidade de Jerusalém como um pergaminho escrito em
Marrocos nos anos de 1700, estava coberto por um manto de características
ashkenazis (origem européia) e até costurado à máquina, portanto um manto que
teria, quanto muito, 150 anos. Pelas fotografias, o capitão Feldman
confirmou-me que era igual ao que ele mandara vir dos Estados Unidos. Esse foi
o primeiro fio da meada que me serviu para desvendar o mistério: uma Torá
sefaradita (de origem oriental) do século XVIII, com um manto ashkenazi
moderno. Encontrava-se em perfeito estado de conservação quando os meninos a
encontraram. Eles porém a destruíram, cortando-a em pedaços para vender na
aldeia a pessoas que imaginavam obter grandes lucros com a antiguidade. Além
disso, quando a notícia foi divulgada, eles tinham deixado o remanescente na
gruta. Logo no dia seguinte alguém foi lá (talvez a mesma pessoa que a
escondeu) e tirando os dois rolos remanescentes para fora, desenrolou um dos
lados para tirar o eixo de madeira (ets haim) e arrancar os punhos e pontas
que eram de marfim. Por alguma razão só conseguiu tirar o eixo de um lado.
Foi feita alguma restauração? Quem fez?
- O remanescente do achado
foi entregue à Biblioteca e Arquivo Regional da cidade de Ponta Delgada.
Depois foi enviada para o Departamento de Restauros da Biblioteca Nacional de
Lisboa, onde fizeram um magnífico trabalho de restauração, com a ajuda do
então rabino da Comunidade Israelita de Lisboa. Apenas ficaram vazios os
lugares dos fragmentos que nunca foram devolvidos. Foi feita também uma bonita
caixa-estojo, da mesma cor do manto de veludo. Agora a Torá encontra-se
novamente exposta na Biblioteca de Ponta Delgada, nos Açores.
Sua
pesquisa durou seis anos. Foi difícil seguir os caminhos percorridos pela
Torá?
Foi necessária muita persistência e muita sorte. Seguindo o fio
da meada fui encontrar, entre os meus papéis, um artigo de uma revista
hebraica citando um jornal judeu de Kansas City, Estados Unidos, que se
referia ao achado de Marvin Feldman. Qualquer coisa me fez guardar esse artigo
(não calcula quantas toneladas de recortes tem o meu arquivo pessoal). Depois
foi uma missão impossível contatar tantos Marvin Feldman nos Estados Unidos,
até localizar, ao cabo de seis anos, o homem certo, na Austrália! Hoje ele
vive na Flórida. Marvin foi extremamente simpático, gravando para mim o relato
exato da sua parte na história. O interessante é que em 1973, ano em que o
capitão encontrou a Torá em Porto Judeu, eu tinha comprado num sebo em Lisboa
um sidur (livro de rezas) manuscrito pelo mesmo Mimon Abohbot, em 1874, em
Angra do Heroísmo. Copiou-o manualmente na intenção de que seus netos rezassem
por ele em sua memória. Esse fato despertou a minha curiosidade e investiguei
a biografia desse judeu piedoso, publicada em diversas fontes. Quando ouvi a
gravação do capitão Feldman e a história do caixote, lembrei-me das duas Torás
de Abohbot e do seu testamento. Fui consultar essas fontes e lá estava o
episódio da caixa de madeira que deveria ser embarcada para Mogador. Em abril
de 2005 estive pela primeira vez nos Açores, nas ilhas de São Miguel e da
Terceira, para proferir duas palestras, a convite do Governo Regional. Aí eu
contei a história da Torá, que por duas vezes se recusou a abandonar os
Açores. Foi então que, novamente por acaso fortuito, soube do envio da Torá,
da base das Lajes para Ponta Delgada. E pude assim acrescentar nas minhas
palestras que foram três vezes que a Torá se recusou a sair dos Açores. Na
mesma oportunidade visitei o cemitério judaico da cidade de Angra do Heroísmo,
e, perante a sepultura de Mimon Abohbot e na presença do único judeu que mora
na ilha, li, no livro piedosamente manuscrito por ele, a oração pelos mortos
(Hashkará) na versão sefaradita em que Mimon listou os mortos de sua família.
Foi um momento muito emocionante para mim. Como vê, o quebra-cabeça ainda não
está terminado. Falta ainda saber duas coisas: onde esteve o caixote durante
quase 100 anos, até aparecer na taberna da aldeia de Porto Judeu? Estive no
local onde fui recebido de forma calorosa pela autoridade regional e com a sua
ajuda entrevistei muitas pessoas idosas, mas ninguém se lembrava do que
sucedera 30 anos atrás. A outra peça da charada que ainda falta desvendar, é
saber quem recebeu a Torá em Ponta Delgada e quem, e por que, a escondeu na
gruta em Rabo de Peixe.
A exposição do pergaminho é aberta ao público?
Sim. Recentemente o pergaminho foi disponibilizado aos visitantes na
Biblioteca e Arquivo Regional de Ponta Delgada. Foi outro momento emocionante
conhecer a Torá, que de alguma forma me procurou para eu escrever a sua
história, e ler nela um capítulo. Mais: o Diretor Regional da Cultura
afirmou-me que, se a sinagoga de Ponta Delgada for restaurada e conservada
como museu judaico, sendo simultaneamente um lugar de orações para turistas
judeus que visitam os Açores, e havendo segurança contra roubos no local, ele
encararia a possibilidade de mandar transferir para lá a Torá de Rabo de
Peixe. O pergaminho ficaria em exposição, visto que não pode ser utilizado
para o culto, segundo a Halachá (lei judaica). Hoje já não existe comunidade
judaica nos Açores. Apenas um judeu inglês vive na Ilha Terceira e alguns
descendentes de judeus, que hoje já são católicos. Entre estes tenho o dever
de destacar a obra meritória dos membros da família Bensaúde, que já não sendo
judeus têm conservado, por conta própria, os cemitérios judeus ainda
existentes no arquipélago e parte das obras de conservação da sinagoga.
A Torá já foi apresentada em outros locais?
Não. Aliás ela nada tem
de extraordinária, além de sua história fantástica. Houve a sugestão de
levá-la para Angra do Heroísmo, para estar presente quando da minha
conferência, mas a idéia foi abandonada por problemas logísticos e de
segurança.
Mudando de tema: em 1997 o senhor publicou um livro sobre o
Capitão Barros Basto, conhecido como o Dreyfus Português (foi afastado pelo
exército em 1943). Qual é a importância deste personagem na moderna história
judaica-portuguesa?
Eu não concordo muito com a designação de Dreyfus
Português, porque as circunstâncias foram bem diferentes. Barros Basto não foi
destituído da sua patente militar. Foi sim exonerado do exército e viveu seus
últimos anos ferido no mais íntimo da sua alma, e em condições econômicas
muito difíceis. Não foi acusado de traição, foi castigado com o intuito de
aniquilar a obra que havia iniciado. Ele começou a sua vida rejeitando,
instintivamente, a religião católica em que foi educado pela mãe, e buscando a
verdadeira religião com todas as forças da sua alma. Passou por várias fases
até que seu avô paterno, antes de falecer, o escolheu para transmitir o grande
segredo da família: eles eram descendentes dos judeus convertidos pela força,
em 1497. A Obra do Resgate, que ele criou para convencer os outros "anussim"
(convertidos à força) de que já havia liberdade religiosa em Portugal, foi um
trabalho gigantesco que encontrou eco em todo o mundo judaico. E conseguiu
construir uma imponente sinagoga na cidade do Porto. Mas foi uma obra que
durou apenas enquanto durou essa liberdade religiosa, e enquanto o espírito de
discordância entre os judeus não foi aproveitado pelo clero, que não via com
bons olhos o regresso dos marranos ao judaísmo. Em nossos dias a sinagoga
Mekor Haim, que ele construiu, voltou a ser um pólo de atração para um número
crescente de bnei-anussim (descendentes dos ‘forçados’) que procuram regressar
ao Judaísmo.
Existe curiosidade nas famílias portuguesas em investigar
possíveis raízes de ascendência judaica?
Imensa. E não só curiosidade
como grande perseverança na investigação, quase sempre tão difícil quanto
serem aceitos no seio do judaísmo institucional. É um movimento que se alastra
rapidamente, não só dentro de Portugal, como nas comunidades de descendentes
de imigrantes portugueses em vários países. Soube que no Brasil o seu número
já excede a um milhão, o que é bem possível devido às raízes históricas. Mas
também nos Estados Unidos, no México, na África do Sul e em alguns países
europeus. Eles estão agrupados em diversos fóruns da Internet, principalmente
no "Saudades", heroicamente dirigido por Rufina Bernardette da Silva
Mausembaum, em Johannesburgo, África do Sul, ela própria uma retornada.
Como presidente da Liga de Amizade Israel-Portugal, quais as ações
realizadas por ambos os lados para estreitar esse relacionamento?
A
nossa missão é promover a amizade entre os dois povos, através do mútuo
conhecimento em todos os aspectos da cultura e da história comum. Para isso
divulgamos informação, realizamos palestras, apresentamos documentários e
colaboramos em projetos mais ambiciosos da Embaixada de Portugal e de
instituições universitárias. Cerca da metade dos nossos membros são
israelenses de origem portuguesa, sendo a outra metade também de israelenses,
atraídos para Portugal e a sua cultura. O número destes últimos, felizmente,
vem aumentado. Lutamos com grandes deficiências de meios, pois não temos
sequer uma sede, não recebemos quaisquer subsídios e tudo é feito através do
trabalho voluntário dos nossos membros. Em Portugal existe uma associação
portuguesa paralela com a qual mantemos boas relações, mas com a qual não
estamos vinculados.
(Rio Total, 22 de março/2008 - CooJornal nº 573)
Sheila Sacks é
jornalista e trabalha em Assessoria de Imprensa na cidade do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro, RJ
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Direção e editoria
Irene Serra
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