|
Sheila Sacks
ONDE ‘HULK 2’ E ‘TROPA DE ELITE’ SE ENCONTRAM
|
 |
Em novembro de 2007 uma equipe de Hollywood aportou em uma favela carioca,
no bairro do Catete, para filmar cenas do segundo filme da festejada e
milionária série “The Incredible Hulk”, que conta com um orçamento de 125
milhões de dólares. O astro principal, Edward Norton, e os vilões no filme,
os atores William Hurt e Tim Roth, permaneceram dez dias filmando no local,
sob o comando do diretor francês Louis Leterrier (Cão de Briga e Carga
Explosiva). Na trama – criação de Zak Penn, de X-Men 2 e 3 - o cientista
David Banner (Norton) busca a cura, no Brasil, para a sua indesejada mutação
que o transforma em uma gigantesca criatura de força descomunal. Com
lançamento oficial marcado para 13 de junho, aficionados de HQs de todo o
planeta já se preparam para “curtir” as cenas empolgantes em que Bruce
Banner foge de seus perseguidores pelas estreitas vielas e becos da favela.
Hulk, o colosso musculoso de corpo verde e cara de zangado, vai aparecer nas
telas pulando por cima dos telhados dos barracos, enquanto os moradores,
amedrontados, se atropelam procurando abrigo.
É fato que a escolha de
uma favela carioca como cenário eletrizante de cenas de ação deste novo
blockbuster internacional se deu em razão da “fama” negativa que acompanha
esses locais, há algumas décadas. Mas, contrariando a expectativa, a equipe
da produção do filme se surpreendeu, positivamente, com a segurança e
tranquilidade encontradas na favela. Além, é claro, do natural entusiasmo e
colaboração de seus moradores que encantaram os profissionais estrangeiros.
Essa metamorfose se deu porque há sete anos a favela Tavares Bastos, que era
controlada por traficantes, começou a mudar, com a instalação de um batalhão
da polícia e obras de melhoria. Hoje ela serve de locação para a maioria de
documentários e filmes internacionais e nacionais (como no caso do
controverso filme brasileiro “Tropa de Elite”, dirigido por José Padilha,
que conquistou o troféu “Urso de Ouro” de melhor filme do Festival de Berlim
de 2008), e se apresenta como um exemplo de favela pacificada e integrada ao
bairro.
E tem mais: o prestigiado jornal britânico “The Guardian”, em
seu suplemento de turismo, já indicou a pousada “The Maze Inn” (O
Labirinto), situada nesta favela, como uma opção interessante para os
visitantes estrangeiros que queiram desfrutar de uma visão privilegiada da
Baía da Guanabara e do Pão de Açúcar. Funcionando desde 2005, o pequeno
hotel é dirigido por um inglês que vive no Brasil há 25 anos.
PAC
Alguns meses antes da presença pouco divulgada do super-herói na favela,
o governo brasileiro iniciou um amplo projeto de obras em que as favelas
também foram incluídas. Batizado com o nome de “Programa de Aceleração do
Crescimento – PAC”, ele contemplava todas as regiões do país com
investimentos no valor total de 500 bilhões de reais. A pauta abrangente
somava obras de construção, reforma e ampliação de moradias, estradas,
ferrovias, gasodutos, usinas, portos e aeroportos, visando à melhoria das
condições de vida do cidadão brasileiro e a crescente demanda do país por
uma infra-estrutura de serviços mais moderna e eficaz.
No Rio de
Janeiro, o destaque do programa coube, naturalmente, às obras de urbanização
e saneamento das favelas, que, após meses de estudos e cálculos, devem ser
iniciadas em março. Por conta disso, a engenharia pública voltada para as
camadas mais pobres da população virou estrela na mídia nacional. A
confirmação de investimentos da ordem de R$ 910 milhões para as obras de
infra-estrutura das favelas de Manguinhos, Rocinha e Complexo do Alemão
(conhecido como a Faixa de Gaza carioca, onde vivem 245 mil pessoas, abriu
espaço para a chamada “construção civil com responsabilidade social” ser
apresentada ao grande público.
As metas deste modelo de engenharia
mais consciente, direcionada para a Inclusão e a Justiça Social, é um fator
positivo a ser realçado no PAC. Segundo dados do Governo Federal serão
investidos na área de urbanização de favelas, até 2010, em todo o país, em
torno de 40 bilhões de reais. Nas três favelas cariocas, uma espécie de
vitrine do programa, serão erguidas novas moradias e implantados centros
culturais e esportivos, piscinas, áreas de lazer, creches, escolas técnicas,
postos de saúde, bibliotecas e sistemas de abastecimento de água, esgoto e
iluminação pública. Para a integração com o transporte regular serão
construídos teleféricos e planos inclinados, já que as favelas cariocas
situam-se basicamente em morros, muitos deles de difícil acesso.
DESAFIO
Mudar uma realidade negativa que estigmatiza milhares de
pessoas pode se configurar em uma bela missão para a engenharia brasileira
neste início de século. Os projetos arquitetônicos que estão sendo
desenvolvidos para atender as favelas e seus moradores - uma nova clientela
ainda pouco conhecida da engenharia nacional - se configuram como um
saudável desafio para os nossos profissionais. É bem verdade que os
engenheiros e arquitetos que trabalham no Serviço Público estão acostumados
a acompanhar projetos dirigidos às comunidades em geral, como a construção
de escolas públicas, hospitais, delegacias, penitenciárias, fóruns,
estádios, teatros etc. Mas, especificamente no PAC das favelas, o enfoque é
diferente, porque estes núcleos habitacionais nunca foram o centro de uma
política abrangente de ocupação social que incluísse a engenharia como ponta
de lança de uma estratégia governamental.
A complexidade da missão
fez com que os profissionais envolvidos com a tarefa se deslocassem até a
cidade de Medellín, na Colômbia, para ver in loco as alternativas utilizadas
nesse país no tocante à urbanização dessas comunidades pobres, que em comum
com as nossas favelas têm um referencial de peso: a cultura do narcotráfico.
Semelhante ao Rio, Medellín tem mais de 1 milhão de pessoas que vivem em
favelas e de acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), 70% das pessoas que moram nas favelas cariocas não
querem se mudar.
Segundo o site oficial do Governo do Estado do Rio,
as obras de urbanização das favelas começam na segunda quinzena de março e
vão durar três anos. Uma das iniciativas para engajar os moradores na
empreitada foi abrir vagas de trabalho dentro das próprias comunidades (a
previsão é de 20 mil empregos diretos) e contatar as diversas associações e
movimentos sociais existentes nas favelas, para ouvir e entender as suas
reivindicações. Porém, nas margens de todo o amplo programa de engenharia
que será implementado, uma dúvida persiste: Como irão se comportar os grupos
ligados ao narcotráfico que têm uma atuação subterrânea, mas nem por isso
menos atuante, no cotidiano dessas comunidades?
PACTO
Em
Medellín, o programa de urbanização incluiu acordos de paz com as milícias
armadas e pactos de convivência com jovens cooptados pelo narcotráfico, que
foram desmobilizados, paulatinamente. Esse processo se iniciou há quase 15
anos, quando o índice de homicídios assustava a sociedade colombiana. Aqui,
na cidade do Rio, a violência, além de gerar um clima de contínua
insegurança, tem mexido com os bolsos dos moradores do asfalto. Tanto nas
zonas sul ou norte, os apartamentos vizinhos às favelas, muitas deles de
alto luxo, estão se desvalorizando. Em contrapartida, depois da confirmação
das obras do PAC, as moradias nas favelas já triplicaram de preço. Um
quebra-cabeça para as autoridades estaduais que procuram criar, na turma que
reside nas chamadas áreas nobres e que pagam altos impostos, uma disposição
de boa vontade em relação ao projeto de urbanização das favelas. Por sua
vez, a geografia do Rio, privilegiada em belezas naturais, tornou-se, com o
passar dos anos, um algoz insensível, cercando os bairros de trincheiras
invisíveis e tornando os seus moradores reféns de sua topografia. As favelas
abraçam a cidade com o peso e a força de um amigo urso, sem muita lógica,
mas com poder suficiente para sufocá-la.
Consulta feita pelo jornal
“O DIA OnLine” aos internautas cariocas, às vésperas de 2008, revelou que
31,4% dos 3.500 que responderam à enquete não permaneceriam na cidade
durante as festividades de fim de ano, principalmente devido ao fator da
violência. Sabendo-se que a orla de Copacabana é conhecida
internacionalmente pelo grandioso espetáculo de luzes e som que oferece aos
milhares de turistas que lotam suas areias, torna-se desalentador esse
índice de fuga dos cariocas. Outra pesquisa, desta vez levada a efeito pelo
site “Quero Notícia”, tem estimulado os moradores a eleger as “Sete Pragas
do Rio”. Mais de 33 mil internautas já se manifestaram, apontando o tráfico
de drogas e a favelização das encostas como duas das principais mazelas da
cidade.
É fato que, várias vezes durante o ano de 2007, o governador
do Rio, Sérgio Cabral, mostrou-se incisivo quanto a sua determinação de
seguir adiante neste projeto de engenharia de inclusão social, com o
objetivo de pacificar, ordenar, interagir e proporcionar uma real cidadania
a esse universo de pessoas que muitos ainda teimam em ignorar: “O Rio de
Janeiro tem 6 milhões de habitantes e 1,4 milhão morando em favelas. Estamos
em contagem regressiva para as obras. Ocuparemos as favelas com ruas,
avenidas, bibliotecas e escolas”. Decreto publicado no Diário Oficial do
Estado já considerou de Utilidade Pública todas as obras do PAC nas favelas.
APOIO
No ano passado, 15 dias depois da passagem de Hulk por
terras cariocas, o presidente Lula subiu o morro do Pavão-Pavãozinho, também
na zona sul do Rio, para dar o pontapé inicial nas obras do PAC naquela
favela. O projeto para a ampliação da via de acesso ao local foi
interrompido em 2002 e o presidente garantiu 35 milhões de reais para esta
obra e também para a implantação de sistemas de água e esgoto. A legalização
das moradias foi outro ponto importante assinalado pelo presidente, que se
tornou o primeiro mandatário do país a visitar uma favela do Rio. Em
discurso, Lula foi enfático: “Um cidadão que mora apinhado em favelas, com
família de oito ou nove, em um quarto de três por três, onde ali ele come,
ele defeca, ele dorme, é o mundo cão levado às últimas conseqüências. E
mesmo sendo habitadas por gente honesta, essas comunidades têm sido
reprodutoras de mais violência.”
Essas ações, ainda que entendidas
por muitos como iniciativas de caráter populista, já estão ganhando o apoio
da sociedade em geral e a confiança das comunidades a serem beneficiadas. O
Fundo de Populações das Nações Unidas (Unfpa), em relatório publicado em
julho de 2007, faz um doloroso e sombrio prognóstico: em 2030, com a
população urbana dobrada, o mundo será um planeta de favelas. No Brasil,
onde 84% da população se concentra em centros urbanos, seria louvável que a
grande mídia não se descuidasse do tema e continuasse a mirar os seus
holofotes no trabalho a ser desenvolvido pela engenharia pública brasileira,
a quem caberá, nos próximos anos, repensar, redesenhar e construir as novas
configurações das cidades. Segundo o conceituado urbanista Sérgio Magalhães
(antigo secretário de Habitação do Rio), se somássemos as populações das
cidades do Rio e de São Paulo que hoje vivem em favelas e demais comunidades
carentes, já teríamos a 3ª maior cidade do país, com quase 5 milhões de
habitantes.
COCAÍNA
A cidade do Rio de Janeiro tem 752 favelas
e estudos apontam que em 300 delas existe um forte tráfico de cocaína. Na
Rocinha, a segunda maior favela da América do Sul, com 120 mil habitantes (a
primeira é Petare, em Caracas, na Venezuela, com 1 milhão de moradores), o
narcotráfico movimenta 10 milhões de reais por semana. Em contrapartida, a
região tem o mais alto índice de tuberculose do estado. Já o Complexo do
Alemão, onde vivem 80 mil pessoas, o tráfico de armas já é um parceiro
comercial lucrativo das drogas. Dados de organizações internacionais dão
conta de que a venda de armamentos contrabandeados do Paraguai rende 88
milhões de reais por ano, somente no Rio.
Muitos se utilizam dessas
estatísticas de contravenção e criminalidade registradas nas favelas para
sustentar a argumentação da impossibilidade de mudar a cultura social do
tráfico nessas comunidades, vincada e sedimentada ao longo de mais de três
décadas. Mas, nunca é demais lembrar que o Brasil tem 7,8 mil quilômetros de
fronteiras pouco guarnecidas e é vizinho dos três maiores produtores de
cocaína do mundo (Colômbia, Peru e Bolívia) e do maior plantador de maconha
do continente (Paraguai). Em termos globais, o narcotráfico internacional
movimenta 500 bilhões de dólares anuais, mais que o comércio do petróleo e
só perdendo para o tráfico de armamento. Logo, demonizar as favelas como
incontroláveis redutos de tráfico e negócios ilegais da cidade é ignorar a
abrangência e o poderio de um bilionário comércio transnacional, que
funciona e age como um governo paralelo, insubmisso às nações civilizadas, e
com regras próprias.
Aliás, o filme “Tropa de Elite” (The Elite
Squad, em inglês) aborda o tráfico de drogas e a corrupção policial no Rio
de Janeiro, sendo baseado no livro do mesmo nome escrito por três homens que
conhecem o assunto a fundo: dois policiais (Rodrigo Pimentel e André
Batista) do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio - o
Bope, que atua nas favelas, e o sociólogo Luiz Eduardo Soares, que foi
secretário de Segurança do estado. À parte as interpretações depreciativas
acerca da mensagem do filme (um fenômeno de bilheteria e pirataria que já
foi visto nas telonas e nos DVDs por mais de 13 milhões de brasileiros),
avaliada por militantes de direitos humanos como violenta e extremista, a
película tem o mérito de mostrar a desordem moral e social que impera neste
universo paralelo, tão perto e ao mesmo tempo tão distante do morador do
asfalto.
MISSÃO
A grande mídia brasileira tem mais uma
instigante tarefa pela frente: acompanhar e cobrar o desdobrar das obras do
PAC nas favelas, alistando-se nessa missão de resgate da cidadania de uma
ampla parcela de nossa sociedade, lado a lado com os arquitetos, engenheiros
e operários que estarão engajados nesse trabalho. Revivendo o sonho da
construção de Brasília, nos anos 60, quando a engenharia pública nacional
mostrou ao mundo a sua capacidade e originalidade ao erguer uma capital
moderna e funcional no meio do nada, o PAC das favelas surge, neste século
21, para consolidar os novos rumos da engenharia no Brasil. Transformar as
favelas em bairros não é uma idéia nova e alguns melhoramentos já foram
realizados pela Prefeitura. A inovação do PAC é a onda de conscientização
que já perpassa os vários setores da sociedade, que vêm respondendo
afirmativamente para a necessidade das obras a serem realizadas nessas
comunidades.
Também a mídia internacional já deu a entender que está
com as antenas posicionadas na direção do PAC nas favelas. Novamente o
britânico “The Guardian” publicou neste mês de fevereiro uma matéria em que
registra o poderoso arsenal de armas de posse do tráfico de drogas nas
favelas cariocas. Portanto, o embate entre a cidadania e a marginalidade
está na ordem do dia nas redações dos principais jornais e agências de
notícias do Brasil e do mundo.
Enfim, a população do Rio de Janeiro
está diante de uma jornada de esperança, ainda que trabalhosa e difícil face
aos indicadores sociais de pobreza e violência. Mas, as dificuldades, longe
de desanimar, precisam ser encaradas e transpostas com entusiasmo e a
certeza de que o melhor caminho é esse e cumpre trilhá-lo. Com o apoio e a
atenção da mídia, ainda a voz mais livre e contundente a favor do cidadão
brasileiro.

Sheila Sacks é
jornalista e trabalha em Assessoria de Imprensa na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ
ssacks@oi.com.br
http://sheilasacks.blogspot.com
Direitos Reservados

Direção e Editoria
Irene Serra
|