
01/10/2026 Ano 30 Nº 1.525
Arquivo Sheila Sacks
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Sheila Sacks
O DOMÍNIO DA OPINIÃO
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Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros (Theodor W. Adorno, filósofo)
Na série de TV Good Wife, ambientada nos tribunais de Chicago, uma das
magistradas possui determinada característica que desarma os bacharéis que
recorrem à sua jurisdição. Dependendo do viés interpretativo adotado pelos
advogados de defesa e de acusação em relação ao tema em julgamento, a
juíza interrompe a argumentação com o bordão “na sua opinião”, sinalizando
aos contendores e aos membros do júri que o raciocínio expresso pelo
profissional em questão representa um ponto de vista pessoal e não
necessariamente uma visão verdadeira ou correta dos fatos em exame.
Diferente dos tribunais, cujos parâmetros legais dificultam e
restringem eventuais manipulações na construção de um raciocínio, a
imprensa é um campo aberto a observações pessoais especulativas pela
própria natureza de seu serviço voltado à livre difusão da informação e
por extensão ao livre exercício da opinião. Ainda que o comentário afronte
conceitos éticos e apresente visões distorcidas da realidade, o jornal lhe
confere visibilidade e, essencialmente, o crédito da confiabilidade. O
historiador americano Christopher Lash (1932-1994), crítico dos processos
de disseminação da informação no mundo globalizado, teve essa percepção ao
enunciar em seu livro “Cultura do Narcisismo” (de 1979), que “para algo
ser aceito como real, basta que apareça como crível ou plausível, ou como
oferecido por alguém confiável”.
Recente consulta do Ibope apontou
que 58% dos entrevistados confiam “muito ou sempre nos jornais impressos”,
percentual superior a outros meios de comunicação como rádio, televisão e
internet (“O consumo da informação”, em O Estado de São Paulo de
28.12.2014). Outro dado significativo é que a grande maioria dos leitores
(84%) lê jornais para se informar e se inteirar das notícias, segundo a
mesma pesquisa. Mas, tratando-se de páginas de opinião, presume-se que o
interesse do leitor irá convergir naturalmente para o editorial, que
enuncia a posição ideológica do jornal, e também para os habituais
colunistas que repercutem os temas políticos nacionais e internacionais
que impactam a vida do cidadão e da sociedade.
Na última década,
ampliando a influência subjetiva das páginas opinativas que interferem na
formação e avaliação da realidade, a imprensa vem agregando a esse plantel
de profissionais de jornalismo uma plêiade de personalidades do mundo
artístico, aparentemente em prol da diversidade de ideias e conceitos que
balizam a liberdade de expressão nas democracias. Se antes, cineastas,
atores, músicos e outros astros populares “bons de escrita” se expressavam
nos suplementos de cultura ou “segundo caderno” sobre a sua arte, agora
migraram para as páginas reservadas à prática e observação jornalísticas
das cenas político-sociais, concorrendo em igualdade de espaço e mérito
com os textos do “pessoal da casa”.
A seu favor, os próprios
currículos festejados pela imprensa e a admiração dos leitores-fãs, dois
referenciais de peso a embasar pontos de vista individuais e impositivos
que caracterizam “a superioridade bem informada” conceituada pelo filósofo
e sociólogo alemão Theodor W. Adorno(1903-1969). Na obra “Minima Moralia:
reflexões a partir da vida lesada” (1951), Adorno então em seu exílio nos
Estados Unidos chama a atenção para a responsabilidade que deve prevalecer
entre a elite formadora de opinião – “os inteligentes” – quando se propõe
a expressar suas ideias e opiniões valendo-se de um meio de comunicação de
massa. “Nenhum pensamento é imune à comunicação e proferi-lo no lugar
errado e por meio de entendimento errado é suficiente para solapar sua
verdade”, escreveu.
Acrescentando que à responsabilidade que se
requer consciente e justa na formulação de conceitos e interpretações
críticas soma-se uma carga de poder bastante presente dado o alto grau de
influência que essas opiniões produzem. Para o professor de Ciências da
Comunicação da Universidade Nova Lisboa, João Pissarra Esteves, aqueles
que têm acesso à mídia estão investidos de um poder extraordinário,
“porque impõem a sua própria realidade perante os outros, de acordo com os
seus valores e interesses próprios” (“A Ética da Comunicação e os Media
Modernos”, de 1998).
Maior contundência mostra o autor de “Nossa
Cultura ou o que restou dela” (2005), o psiquiatra e escritor inglês
Theodore Dabrymple, de 65 anos, um implacável analista da sociedade
globalizada com uma dezena de livros publicados. Ele credita aos artistas,
diretores de cinema, romancistas, dramaturgos, jornalistas e até cantores
populares – além de economistas e filósofos sociais – o poder de indução e
controle das sociedades. “São eles os legisladores invisíveis do mundo e
devemos prestar muita atenção àquilo que dizem e como dizem”, assinala no
prefácio do livro.
É o que se acompanha em relação a dois artigos
publicados em O Globo nas edições de domingo. O primeiro – “O Jeová do
DVD” - assinado pelo compositor Aldir Blanc foi dado a conhecer uma semana
antes da realização do primeiro turno das eleições presidenciais que
elegeram Dilma Rousseff (28.09.2014). Manejando as palavras como petardos,
o compositor adota uma linguagem “jihadista” para firmar sua posição
ideológica de não votar na então candidata Marina Silva. Acusa-a de estar
“enganando os trouxas” e faz pouco da crença da candidata. “O que a
inspira (na Bíblia)? A matança dos inocentes? Um pai que sacrificaria o
filho porque o velho é um Deus ciumento? O absurdo e cruel sofrimento
imposto a Jó? Os incestos e traições?”
Antes, o autor insinua que
a queda do avião de Eduardo Campos teve o dedo de agências de inteligência
internacionais. “Há quem diga que o avião foi sabotado pela CIA, Mossad, a
poderosa empresa transacional Testemunhas de Jeová e outros interessados.”
E conclui: “Afastem do povo brasileiro essa bíblia arcaica, cheia de
dólares e mentiras.”
No segundo artigo – “A Hollywood de Hitler”,
em 16.11.2014 – o cineasta Cacá Diegues repercute o livro do americano Ben
Urwand “A colaboração – O pacto entre Hollywood e o nazismo” (2013) que
versa sobre um suposto compromisso de não agressão aos nazistas por parte
dos donos de estúdios americanos na década de 1930. Dados contestados pelo
jornalista e crítico de cinema da revista “The New Yorker”, David Denby, à
época da publicação do livro. Ele classifica de enganosa e cheia de erros
e omissões a tese acadêmica de Urwand que originou a obra, questionando e
desmentindo fatos descritos pelo autor (“How Could Harvard Have Publisher
Ben Urwand’s ‘The Collaborations’?, em 23.09.2013).
Mas, Cacá
Diegues assume as afirmações de Urwand como verdades absolutas e define
seu julgamento: “O curioso é que os chefões dos estúdios eram quase todos
judeus (...). Em benefício de seu balanço, eles preferiram ignorar o que
se passava com os judeus na Alemanha de Hitler e em toda a Europa.”
Mais adiante, ele reforça esse ponto de vista: “Se considerarmos as
leis do mercado acima de todas as coisas, estaremos consagrando a
superioridade do dinheiro sobre a ética (...), “o fim do próprio humanismo
e do amor à vida.” Ou seja, não satisfeito em endossar fatos controversos,
o cineasta desloca o eixo das responsabilidades no que concerne ao maior e
mais abominável processo de matança institucionalizada do Ocidente. Crime
levado a efeito por uma política de estado e para o qual a maioria dos
governos europeus fechou os olhos, em uma cumplicidade, essa sim, que
consagra o fim do humanismo e do amor ao próximo.
Lamentavelmente,
em ambos os artigos, reconhecida a capacidade intelectual de seus autores,
a lógica do pensamento mantém-se superficial e primária, repetindo
estereótipos que corrompem um correto juízo de valor. Associar o Velho
Testamento e Jeová a “dólares e mentiras” assim como o cinema de Hollywood
a Hitler são duas faces tendenciosas e estigmatizantes da mesma moeda.
Pondo de lado fatores pessoais como preconceitos, inconsciente e
linguagem, vale a resposta da filósofa Hannah Arendt (1906-1975) ao
jornalista Samuel Grafton, do New York Post, em 1963, sobre a coerência da
superficialidade com o mal. “Nós resistimos ao mal, ao não sermos
arrastados pela aparência das coisas, ao pararmos e começarmos a pensar;
isto é, ao alcançarmos outra dimensão que não a do horizonte do cotidiano.
Em outras palavras, quanto mais superficial alguém for, mais probabilidade
terá de se render ao mal.” (“The Jewish Writings”, de 2007).
Ao
leitor consciente, portanto, sobra a desagradável sensação de impotência
diante da leitura de textos bem articulados, produzidos por uma elite
inteligente respaldada por um veículo da imprensa do porte de O Globo.
Nesse caso soa perfeita a observação do sociólogo polonês Zygmunt Bauman,
de 89 anos, quando afirma que “nunca fomos tão livres e tão incapazes para
mudar as coisas”.
Rio
Total, 01/05/2015 - Ano 16 - Número 934

Sheila Sacks é
jornalista e trabalha em Assessoria de Imprensa na cidade do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro, RJ
http://sheilasacks.blogspot.com
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Direção e editoria
Irene Serra
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