16/09/2020
Ano 23 - Nº 1.189



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Ronaldo Werneck



EM DÉBITO COM O MESTRE


Ronaldo Werneck - CooJornal

Ele nos ensinou a amar Camões, apesar das temíveis análises sintáticas. A compreender a mecânica das violentas ordens inversas, a pinçar sujeitos, predicados e complementos perdidos muito além da Taprobana. Nos fez ver a grandeza do poeta por trás dos artifícios da linguagem. Através dele, descobrimos aos poucos que Camões era alguma coisa maior do que aquele cara chato que fizera Os Lusíadas só para reprovar os alunos de Português.

Camões ficou como um marco da presença do professor José da Silva Gradim em nossas vidas. Para muitos de seus alunos a literatura começou a bater forte a partir daqueles manhãs passadas no Colégio Cataguases. Camões, para não falar de Eça, e, claro, de Machado – Gradim sempre os tratou com intimidade, uma intimidade-quase-respeito. Com admiração, que é também sinônimo de amor.

Gradim sempre me lembrou a imagem daquele poema de Drummond (que ele gostava de chamar de “Carlos”): “Feroz a um breve contato/ à segunda vista, seco/ à terceira, lhano/ dir-se-ia que ele tem medo/ de ser, fatalmente, humano”. Através do seu amor, ele nos fez fruir o prazer da leitura, nos fez amar os textos que merecem ser amados.

O semi-sorriso que quase sempre entrecortava sua fala às vezes passava um ar de ironia, quando na verdade significava profunda timidez. A suposta ironia tentava camuflar o perfeito domínio da língua e da linguagem. Navegava como poucos em meio ao temporal de silepses, sinédoques, anacolutos, elipses, metáforas, paronomásias. Todas as figuras de linguagem que temíamos com um pavor quase pânico nas vésperas de prova final, mas que por meio dele aprendemos a entender e, logo, por meio delas, a amar textos e poemas nunca dantes imaginados.

Gradim brilhou como poucos no corpo de professores que deram fama ao Colégio Cataguases, principalmente em seu período de efervescência, ali por volta dos anos 50 e meados da década de 60. A partir daí, o Colégio já não era o mesmo, mas Gradim resistiu praticamente solitário em sua trajetória, transmitindo seu conhecimento de rara qualidade.

Com a morte de Gradim, Cataguases ficou em eterno débito com seu mestre de gerações, exatamente como eu, que não tive coragem de vê-lo nos últimos tempos – o que nos deixa para sempre devedores no livro-diário de nossos afetos. Não tive coragem de vê-lo, um pouco como Garcia Lorca no Llanto por Ignácio Sanchez Mejías: “Que no quiero verla!/ Dile a la luna que venga,/ que no quiero ver la sangre/ de Ignácio sobre la arena”.

Prefiro vê-lo num rápido take de um antigo filme rodado nas ruas de Cataguases. Manhã de intensa luminosidade, nós nos abraçamos enquanto ele olha meio atônito para um dos atores, que está travestido de palhaço. Volta a olhar para mim e só então percebe a câmera, que o enquadra quase em primeiro plano, no momento exato em que esboça um sorriso tímido-irônico. Um sorriso – manhã-de-intensa-luminosidade – que lembra muito o professor Gradim que quero deixar registrado em nossa memória.

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Ronaldo Werneck,
poeta e escritor
MG
https://ronaldowerneck.blogspot.com/

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