1/9/2025
Ano 28 - Nº 1.473




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RONALDO WERNECK










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Ronaldo Werneck


JAGUAR À TOA NA VIDA


Ronaldo Werneck - CooJornal


Era aí pelos meados dos anos 80 e estávamos numa roda carioca de chope no restaurante Lamas, onde éramos habitués. Inclua-se nesse “estávamos”, alguns jornalistas amigos, o cartunista Jaguar, eu e minha então namorada, a gravurista Anna Carolina (“Gravura, sim! Cinema, não!”) . Falou-se em charges – claro! – e eu me lembrei de uma de minhas prediletas, que vira em 1966 na capa do jornal Última Hora, quando “A banda” do Chico Buarque tornara-se sucesso em todo o país. Contei então o que lera: no alto de uma pedreira, sob o sol de meio-dia, um trabalhador grandalhão, pingando suor por todos os poros, metia enfurecido a picareta na pedra enquanto cantava com veemência: “Estava à toa na vida...”. Todos caíram na risada, inclusive o Jaguar, que me perguntou de imediato: “Charge genial, Ronaldo, de quem é?”. Autor de muitas e muitas charges ao longo dos anos, ele não se lembrava do que criara. “A charge é sua, Jaguar”. Ele então soltou de lá, rápido como sempre: “Então eu já era gênio naquela época?”. Era.

Nos anos 70, quando eu colaborava com o Pasquim, o saudoso amigo Henrique de Morais, meu chefe no Banco do Brasil/Cacex, me contou uma história do rol das impagáveis de seu primo Jaguar. Nos anos 50, Jaguar trabalhava na Seção de Telegramas do Banco, no prédio da 1º de Março onde é hoje o CCBB. Seu chefe era ninguém menos que Sérgio Porto, ainda antes do seu também impagável Stanislaw Ponte Preta. Henrique passou por lá um dia e Jaguar gritou seu nome, pedindo ajuda. Ele havia enviado um telegrama que caíra num endereço desconhecido, “um tal de USAF”. Perguntou se o Henrique sabia o que era. “Ué, Jaguar, é o endereço da Força Aérea dos Estados Unidos”. Num átimo, Jaguar levantou os braços como nos filmes de caubói, gritando “I surrender! I surrender”. Ele era mesmo o inacreditável criador da piada-surpresa – e não perdia uma. Eu lembro disso ainda agora, quando penso na sua pergunta naquela noite no Lamas: “Então eu era gênio?”. Era.

Sérgio de Magalhães Jaguaribe (Rio, 29.02.1932 – 24.08.2025) , o Jaguar, morreu ontem no Rio, ao 93 anos. O país perde a rapidez de sua inteligência, sua sagacidade, seu traço preciso, seus insights, seu humor ferino, inesperado. O Brasil perde mesmo sua graça. A dele e a do país.

03.08.2003
 


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Ronaldo Werneck,
poeta e escritor
MG

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Irene Serra