16/8/2025
Ano 29 - Nº 1.471




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RONALDO WERNECK










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Ronaldo Werneck


Suplente de Graça Aranha


Ronaldo Werneck - CooJornal

Graça Aranha. “Avenida no Centro do Rio: nada a ver com literatura”. Ronald de Carvalho. “Rua em Copacabana: suplente de Graça Aranha”. As blagues são de Rosário Fusco, em irreverente entrevista dada a mim e ao Joaquim Branco e publicada pelo “Pasquim” nos anos 70 do século passado. Ironias à parte, o próprio Fusco chegou a residir na “sua” rua, ao lado da de seus companheiros da Revista Verde, todos “nomes de rua” em Cataguases. Coisas de um bucólico interior, onde as ruas são às vezes mais conhecidas pelos nomes de seus moradores e não dos esquecidos figurões que as denominam: a rua da Dona Chiquita, a do Doutor Walter, a do João Carroceiro. Mas, na verdade, em Cataguases a rua do Rosário Fusco – que ao contrário de Graça Aranha, tinha tudo a ver com literatura – ficou mesmo sendo aquela da Granjaria, onde morou: como é mesmo o nome?

Enquanto os “veementes inauguram estátuas” e ruas, o transeunte por elas passa apressado sem saber seus nomes. O próprio poeta que falava desses “veementes” acabou esquecido: Drummond não virou rua, pelo menos no Rio – quando muito, uma estátua sentada em seu banco de meditação na praia de Copacabana e alguns retratos na parede: amarelados, mas sem dor. Melhor sorte tiveram outros bardos, do carioca Vinicius-ex-Montenegro-de-Moraes ao lusitano Luís de Camões, que acá não esteve, ora pois! Inclui-se no rol o maranhense Gonçalves Dias, também habitante de sua própria rua no coração da cidade onde remoía sua canção do exílio.

Quem são eles? Que nomes são esses nomes? As ruas de nossas cidades – e o Rio surge aqui por acaso, ou por saudade, ou por amor mesmo? – estão a merecer um passeio lúdico-didático, um reencontro com esses nomes, essas figuras perdidas no tempo e na memória. “Olhar com olhos de ver” como se retomássemos a condição do flâneur, aquele observador apontado por Baudelaire no século XIX: o passante que não foi dominado pela multidão, aquele que ainda busca no presente as pegadas do passado.

Para o filósofo Walter Benjamin, a cidade é a realização do antigo sonho do labirinto. “Cada minuto é um século vinte”, dizia em meados daquele século o poeta paulista Cassiano Ricardo. Um século onde o flâneur foi consumido entre o aço e o vidro, e suas marcas aos poucos apagadas. Um tempo sem identidade, fruto dos shoppings e da banalização do espaço.

Com o olho aberto, o ouvido atento, o flâneur de Baudelaire procurava o que a multidão não vê. Às vezes eles mesmos nomes de ruas, os criadores nelas buscavam suas criaturas. Flanando, Beethoven fixava suas sinfonias ao ar livre. Nos boulevards de Paris, Proust realimentava as madeleines mastigadas pela memória. Flâneur fugaz, Drummond perambulava pelas ruas do Rio à procura da poesia. Exatamente essa poesia que você, passante, podia encontrar na rota do Rio quando o Rio ainda não era rota do tráfico e da violência. Com licença, mas – controvérsias a parte –, essa poesia que ainda se vê flanando ao léu pelas praças e avenidas de Cataguases. Pelo menos até agora, enquanto a barra não pesa de todo, e ainda se pode flanar distraído sob a capa centenária dos fícus e oitis.

03.08.2003
 


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Ronaldo Werneck,
poeta e escritor
MG

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Irene Serra