Ronaldo Werneck
Suplente de Graça Aranha
|

|
Graça Aranha. “Avenida no Centro do Rio: nada a ver com literatura”. Ronald
de Carvalho. “Rua em Copacabana: suplente de Graça Aranha”. As blagues são de
Rosário Fusco, em irreverente entrevista dada a mim e ao Joaquim Branco e
publicada pelo “Pasquim” nos anos 70 do século passado. Ironias à parte, o
próprio Fusco chegou a residir na “sua” rua, ao lado da de seus companheiros
da Revista Verde, todos “nomes de rua” em Cataguases. Coisas de um bucólico
interior, onde as ruas são às vezes mais conhecidas pelos nomes de seus
moradores e não dos esquecidos figurões que as denominam: a rua da Dona
Chiquita, a do Doutor Walter, a do João Carroceiro. Mas, na verdade, em
Cataguases a rua do Rosário Fusco – que ao contrário de Graça Aranha, tinha
tudo a ver com literatura – ficou mesmo sendo aquela da Granjaria, onde
morou: como é mesmo o nome?
Enquanto os “veementes inauguram
estátuas” e ruas, o transeunte por elas passa apressado sem saber seus nomes.
O próprio poeta que falava desses “veementes” acabou esquecido: Drummond não
virou rua, pelo menos no Rio – quando muito, uma estátua sentada em seu banco
de meditação na praia de Copacabana e alguns retratos na parede: amarelados,
mas sem dor. Melhor sorte tiveram outros bardos, do carioca
Vinicius-ex-Montenegro-de-Moraes ao lusitano Luís de Camões, que acá não
esteve, ora pois! Inclui-se no rol o maranhense Gonçalves Dias, também
habitante de sua própria rua no coração da cidade onde remoía sua canção do
exílio.
Quem são eles? Que nomes são esses nomes? As ruas de nossas
cidades – e o Rio surge aqui por acaso, ou por saudade, ou por amor mesmo? –
estão a merecer um passeio lúdico-didático, um reencontro com esses nomes,
essas figuras perdidas no tempo e na memória. “Olhar com olhos de ver” como
se retomássemos a condição do flâneur, aquele observador apontado por
Baudelaire no século XIX: o passante que não foi dominado pela multidão,
aquele que ainda busca no presente as pegadas do passado.
Para o
filósofo Walter Benjamin, a cidade é a realização do antigo sonho do
labirinto. “Cada minuto é um século vinte”, dizia em meados daquele século o
poeta paulista Cassiano Ricardo. Um século onde o flâneur foi consumido entre
o aço e o vidro, e suas marcas aos poucos apagadas. Um tempo sem identidade,
fruto dos shoppings e da banalização do espaço.
Com o olho aberto, o
ouvido atento, o flâneur de Baudelaire procurava o que a multidão não vê. Às
vezes eles mesmos nomes de ruas, os criadores nelas buscavam suas criaturas.
Flanando, Beethoven fixava suas sinfonias ao ar livre. Nos boulevards de
Paris, Proust realimentava as madeleines mastigadas pela memória. Flâneur
fugaz, Drummond perambulava pelas ruas do Rio à procura da poesia. Exatamente
essa poesia que você, passante, podia encontrar na rota do Rio quando o Rio
ainda não era rota do tráfico e da violência. Com licença, mas –
controvérsias a parte –, essa poesia que ainda se vê flanando ao léu pelas
praças e avenidas de Cataguases. Pelo menos até agora, enquanto a barra não
pesa de todo, e ainda se pode flanar distraído sob a capa centenária dos
fícus e oitis.
03.08.2003
- Comentários sobre o texto podem ser enviados, diretamente, ao
autor: Ronaldo Werneck
Direitos Reservados É proibida
a reprodução deste artigo sem autorização do autor.

Ronaldo Werneck,
poeta e escritor
MG
https://ronaldowerneck.blogspot.com/

Direção e Editoria Irene Serra
|