Em Cachoeiro de Itapemirim, a família está em nova morada. Lado sul do rio,
no bairro Sumaré, perto do campo do Estrela do Norte, o mais popular clube
da cidade, uniforme “cheio” de traçados do Botafogo. A casa não era das
melhores: nos tempos chuvosos goteiras de água cascateavam sonoramente sobre
vasilhas dispostas estrategicamente pelo chão. Abrigávamo-nos até sob
móveis! Mas... o que se podia fazer? A mãe, viúva, professora primária, e
ainda, aceitava costuras de roupas e chapéus de bebês!
Mas... aquela
janela dos fundos da casa me ofereceu paisagens novas. Construída sobre uma
encosta, a casa nos brindava com a vista de todo o campo de futebol do
Estrela, tornando inúteis os altos cercados de madeira que o rodeavam. No
gramado, aqueles homens, de variados uniformes, a cativarem uma bola. Às
vezes, as alçadas mais altas às laterais, superavam os limites do campo e
colhiam as paredes das casas vizinhas. Numa ocasião, a nossa foi carimbada
com uma redonda e eterna, marca de lama.
Nova mudança se fez então, dessa
vez para o lado norte da cidade, ultrapassando- se o rio Itapemirim e se
assentando nas imediações da Velha Matriz e do campo de tênis administrado
pela família Semprini. Na casa geminada em que ficamos, o som do rádio do
vizinho de parede me trazia as primeiras emoções auditivas do futebol.
Comecei a me simpatizar com o Vasco da Gama, time incensado à época, ao lado
do Botafogo, mas base da acreditada seleção de 1950.
Da alegria de cada
jogo dessa Copa, estampada naquelas vozes adultas que se erguiam dos
quintais próximos, o menino que eu fui apenas observava, incapaz ainda de
absorver internamente aquelas eufóricas vibrações. Confuso ficou, depois,
com as lágrimas finais daqueles tristes ouvintes. Encolheu-se, pois, em
silêncio, porque percebeu que todos permaneceram tristes.
Anos depois, já
no Rio, as mãos do meu tio flamenguista me conduziram ao imenso e barulhento
Estádio do Maracanã, repleto de torcedores, gritos e bandeiras agitando, e
eu, adolescente, na torcida do meu time preferido, assistindo ao belo jogo
dos quase mesmíssimos craques daquela fatídica Copa, ainda esbanjando
talentos de seus pés e cabeças: Barbosa, Augusto, Wilson; Eli, Danilo e
Jorge; Tesourinha (Sabará), Ypojucan, Ademir, Maneca e Friaça (Chico).
Então, no intervalo do jogo, contemplando aquela multidão apaixonada das
arquibancadas e das gerais, e recordando os momentos de 1950, daquelas vozes
então sufocadas dos meus vizinhos, deixei vir a mim, devagarinho, a tristeza
inesperada que me ressuscitou as emoções daqueles momentos em que eu deveria
ter captado, outrora, nos quintais da minha terra...
Comentários podem ser enviados diretamente ao autor no email
miltonxili@hotmail.com
Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email:
miltonxili@hotmail.com
Conheça um pouco mais de
Milton Ximenes Lima
Direitos Reservados.