01/06/2026
Ano 29
Número 1.509




ARQUIVO
MILTON XIMENES








Milton Ximenes Lima


SELEÇÀO, UMA PAIXÃO

Milton Ximenes Lima - Colunista, CooJornal

Em Cachoeiro de Itapemirim, a família está em nova morada. Lado sul do rio, no bairro Sumaré, perto do campo do Estrela do Norte, o mais popular clube da cidade, uniforme “cheio” de traçados do Botafogo. A casa não era das melhores: nos tempos chuvosos goteiras de água cascateavam sonoramente sobre vasilhas dispostas estrategicamente pelo chão. Abrigávamo-nos até sob móveis! Mas... o que se podia fazer? A mãe, viúva, professora primária, e ainda, aceitava costuras de roupas e chapéus de bebês!

Mas... aquela janela dos fundos da casa me ofereceu paisagens novas. Construída sobre uma encosta, a casa nos brindava com a vista de todo o campo de futebol do Estrela, tornando inúteis os altos cercados de madeira que o rodeavam. No gramado, aqueles homens, de variados uniformes, a cativarem uma bola. Às vezes, as alçadas mais altas às laterais, superavam os limites do campo e colhiam as paredes das casas vizinhas. Numa ocasião, a nossa foi carimbada com uma redonda e eterna, marca de lama.
Nova mudança se fez então, dessa vez para o lado norte da cidade, ultrapassando- se o rio Itapemirim e se assentando nas imediações da Velha Matriz e do campo de tênis administrado pela família Semprini. Na casa geminada em que ficamos, o som do rádio do vizinho de parede me trazia as primeiras emoções auditivas do futebol. Comecei a me simpatizar com o Vasco da Gama, time incensado à época, ao lado do Botafogo, mas base da acreditada seleção de 1950.

Da alegria de cada jogo dessa Copa, estampada naquelas vozes adultas que se erguiam dos quintais próximos, o menino que eu fui apenas observava, incapaz ainda de absorver internamente aquelas eufóricas vibrações. Confuso ficou, depois, com as lágrimas finais daqueles tristes ouvintes. Encolheu-se, pois, em silêncio, porque percebeu que todos permaneceram tristes.

Anos depois, já no Rio, as mãos do meu tio flamenguista me conduziram ao imenso e barulhento Estádio do Maracanã, repleto de torcedores, gritos e bandeiras agitando, e eu, adolescente, na torcida do meu time preferido, assistindo ao belo jogo dos quase mesmíssimos craques daquela fatídica Copa, ainda esbanjando talentos de seus pés e cabeças: Barbosa, Augusto, Wilson; Eli, Danilo e Jorge; Tesourinha (Sabará), Ypojucan, Ademir, Maneca e Friaça (Chico).

Então, no intervalo do jogo, contemplando aquela multidão apaixonada das arquibancadas e das gerais, e recordando os momentos de 1950, daquelas vozes então sufocadas dos meus vizinhos, deixei vir a mim, devagarinho, a tristeza inesperada que me ressuscitou as emoções daqueles momentos em que eu deveria ter captado, outrora, nos quintais da minha terra...


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Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email:
miltonxili@hotmail.com
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