O homem espremia espinhas diante do espelho do banheiro. Da porta,
Vilma tomou fôlego:
- Sabe, Helio, acho que nosso chamego vai se
acabar...
Ele brincou, na mesma posição:
- Arrependeu-se? Já
sei, você vai entrar para um convento...
- Não, não, tô falando
sério... pensei muito... O que faço com meu marido não está certo!
-
E agora é que descobriu isto? Dê tempo ao tempo, fique sossegada!
-
Verdade! Já passei muito tempo matutando: ele continua o mesmo comigo...
correto, atencioso, um santo...
- Já enquadrei você, Vilma. Quer
fazer agora a pose de pecadora arrependida?
- Não deboche, Helio. O
fato é este mesmo. Não adianta. Vou parar com você!
O homem viu,
então, que o rosto dela lhe transmitia seriedade. Suas mãos seguraram,
firmes, as bordas da pia, e, quando falou, o tom das suas palavras era
outro:
- Quer saber de uma coisa, Vilma? Eu não pedi para você gostar
de mim. Agora, sou exigente: mulher que se amarra por mim, eu é quem mando
embora! Ninguém me deixa assim, sem mais ou menos!... Não, essa não!
Paciência, minha cara...
Vilma também não tinha temperamento para
ouvir sermões. Puxou a bolsa, encaminhou-se, ligeira, para a porta:
-
Enjoei, tá? Passe bem!
Helio se apressou, segurou-a pelo braço:
- Não vai ficar assim, não! Nem que tenha que fazer escândalo na sua
rua, ou apagar o seu marido, sua...
Pegando-o de surpresa, ela o
empurrou para dentro e fechou rapidamente a porta.
Em casa,
inquietação. Tempo passando. Quase dez da noite e o marido não presente.
Para distrair seus nervos, a tela da televisão. Ao contrário, o filme
lembrava conflitos de casais. Nele, aparecendo um policial, ela se recordou
das ameaças do Helio. Nem direito se aprontou, voltou à rua, embarcou no
primeiro táxi que se anunciou. Bateu à porta insistentemente, e quando Helio
atendeu, empurrou-a contra o peito dele, que reagiu:
- Calma, o que
houve? Não precisa de tanta violência só para voltar aos meus braços!
- Que voltar coisa nenhuma! Quero saber o que fez com meu marido!
- Marido? Sei lá, homem não está no meu caderninho sexual, pô!
-
Não me engane, ouvi muito bem suas ameaças!
- Ora, ora, não me encha a
paciência! Em tão pouco tempo, eu não poderia planejar nada para ele... E
além do mais, gosto de preparar sofrimentos lentos, espaçados... Doem mais!
- Helio, não brinque... posso dar queixa de você na Delegacia!
-
Calminha, querida! Você está muito nervosa! Quer um drinque?
- Guarde
prá sua mamãezinha! Meu marido sempre chega às sete, e até agora, nada!
Helio parou com o pingue-pongue:
- Quer saber de uma coisa,
Vilma? Me meto com mulheres, nem me preocupo se tem marido, ou não! Eles que
se danem sozinhos. Você acha que eu teria, com tão pouco tempo, empacotado o
homem?
Vilma refletiu rapidamente. Perdia tempo, saiu logo. Tinha
vontade de passar no Pronto Socorro ou no Instituto Médico Legal, mas algo a
intuía a voltar para o seu apartamento. Na cama, dormindo pesadamente, o
procurado... Acordou-o com safanões:
- Onde você andava, João? Que
aconteceu?
- Eu é que lhe pergunto!
- Estou lhe procurando
desde as oito horas!
- Obrigado pela gentileza! Pensei até em
telefonar, mas os amigos do escritório estavam doidos por uma chopada! Não
deram nem tempo!
- Chopada? Prá comemorar o quê? Foi promovido?
- Mais ou menos...
- Diga logo, homem!
- Fui promovido,
sim... a... mais um ano de vida! Chego aqui em casa, nem um cafezinho! O
jeito foi ir direto para a cama. É o que vou continuar a fazer agora. Me
esqueça, tô muito cansado...
Então ela se recordou do aniversario do
marido. Achou-se inútil naquele lar sem grandes alegrias. Cumpria sua parte
como uma obrigação, cresceu um complexo de culpa, lá pela madrugada...
Três dias depois ninguém soube esclarecer para onde ela viajara, depois
de esperar o marido se ausentar rumo ao trabalho.
(Rio Total, 16/02/2020)
CooJornal nº 1.161
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Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email:
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Milton Ximenes Lima
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