A princípio, a mulher não teve lá muita
paciência:
- Então, porque você veio até aqui?
Não respondeu
imediatamente. A situação era ridícula. Se sentía diminuído na própria
conceituação de homem. Não podia, porém, fraquejar...
- Como é, meu
bem? Ficou mudo? Anda, cara, que meu tempo é contadinho...
Tinha
pudor da própria nudez, vergonha da paralisação dos seus músculos diante
daquela mulher de tempo alugado. Ele mesmo tentou ser mais natural, mas a
mão dela, lhe enxugando suor na testa, oferecendo-lhe um cigarro que tremeu
em suas mãos e balançou em seus lábios, mascarava e retardava o controle dos
seus nervos. Aceitá-la era o melhor caminho, mas ela tava na dela (...digna
de pena!).
- Desabafe, rapaz! Como você, eu já vi muitos! Isso é
normal quando se é inexperiente!
- Quem disse a você que sou
inexperiente?
- Bem, bem, não é bem isso que eu queria dizer, - ela
tentou consertar - mas, então... que houve com você?
- Mania minha!
Só gosto de me deitar com a mulher que realmente me interessa, e... com um
pouquinho de chamego por ela também! É que hoje a minha turma lá da rua, sem
mais nem menos, resolveu vir até aqui, e se eu não acompanho, ia ficar me
gozando!
- Vocês, homens, são muito engraçados!
- Ora, por
quê?
- Além desta necessidade que, às vezes, é mínima, a mulher dá
mais valor ao sentimento de segurança, aos carinhos, à atenção que o amante
lhe dá...
- Mas isto não resolve o meu caso, agora!
- Então,
por que você não me quer agora?
- Preconceitos... Acho isto
comercial, só para atender à vontade do corpo. Tudo artificial! Nada de
atração verdadeira: entra-se aqui, escolhe-se, serve-se, e paga-se!
Ela, então, o segurou com força, puxou-o para si, e, em sussurros,
prosseguiu a conversa. Estava em jogo, também, seu orgulho de boa
profissional: não seria capaz de esquentar toda aquela juventude ali, levar
mais um homem para a sua cama? A desejá-la? Será que ele não reparou no seu
corpo bonito e jovem?
Por sua vez, ele se espantava com as próprias
revelações:
- Gozado, você poderia ser, mais ou menos, o meu tipo...
- Ah, então, foi por isso que me escolheu?... Eu lembro quem?
-
Minha segunda namorada...
- Em que e por quê?
- Sei lá, acho
que nos olhos grandes, no seu corpo pequeno, e na cor da pele, assim, tão
branquinha...
- E daí, porque vocês desmancharam? Diga aqui, cara...
para mim a vida não tem muitos segredos!
- Perdemos o juízo,
começamos a nos encontrar por aí, as famílias sentiram nossos avanços, eles
queriam um namoro mais sério, um noivado...
Arrependia-se, a partir
de determinado momento, com as próprias confissões. Constrangedor. Mas no
fundo, no fundo, começou a simpatizar com aquela criatura que o deixava
muito à vontade.
Ela acabou sabendo de algumas das suas fraquezas na
cama, forçou-o a repetir as excitações do passado. Envolvente, a incógnita
mulher o capturou com sua voz, seus dedos, e seu corpo cheio de vida e
respostas.
E prosseguiram, fora dali, na convivência. De graça, e em
outras paisagens. Ambos tinham necessidades importantes de afirmações de
vida.
Por algum tempo.
Depois, o desencontro dos interesses...
A sobrevivência, enfim.
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miltonxili@hotmail.com
Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email:
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Milton Ximenes Lima
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