Essa vem do tempo do demolido prédio de nove andares da Caixa
Econômica Federal, Rio de Janeiro, entre as ruas Treze de Maio e Senador
Dantas. Da época em que, das seis às dez da manhã, ele era faxinado por
grupo de homens de fora, chamados “extra-Caixa”, sob o comando do Chefe de
Portaria. Este, por sua vez, sempre de “marcação” com um desses contratados,
que tinha, apesar dos pesares, o hábito do prazer de apresentar-se muito bem
apessoado e usando, algumas vezes, o famoso S-120, terno de linho
considerado, naquela época, muito “bacana”, próprio dos mais afortunados.
O homem chegava, vestia o macacão de limpeza, fazia sua tarefa e ia
embora, novamente elegante. Durante o trabalho não falava nada, embora o
incomodasse aquele Chefe policiando demais o seu trabalho, exigindo-lhe
maior capricho, detalhando e inventando exigências aqui e acolá... Pensava:
- Será que tinha inveja da sua roupa?
Um dia correu a notícia de que
o vistoso moço era grande admirador dos “ares marítimos” da Praça Mauá, com
seus bares, suas boates, hotéis, mulheres e negócios misteriosos de alto
mar. Daí a associá-lo à turma de um famoso e poderoso contrabandista foi
rápido pensamento.
Por causa disto, o bondoso funcionário da então
Divisão de Pessoal da Caixa, responsável pelo pagamento dos seus serviços,
convidou-o para uma conversa especial, começando uma série de
aconselhamentos visando afastá-lo daquele ambiente. Alertava-o de que
poderia acabar na prisão, estragaria sua vida para sempre. Que ele
aguentasse, com paciência, os trabalhos de faxina. Quem sabe um dia, como
era tradicional, a Caixa faria uma prova interna e não o aproveitaria no
quadro de servidores?
Entretanto, chegou a hora em que o homem se
situou:
- Agradeço seu interesse, amigo, mas estou muito comprometido,
não dá mais pra romper com os homens lá! Resolvi não voltar mais aqui...
E realmente, desapareceu. Anos mais tarde, cerca de onze horas da noite,
o referido funcionário saía do então famoso Teatro Serrador, na rua Senador
Dantas, e teve que atravessar uma das escuras ruelas transversais à rua
Álvaro Alvim, na Cinelândia. Como de praxe era, vestindo elegante terno de
passeio completo, e conduzindo a esposa, também altamente produzida, joias
na orelha, pescoço e pulsos. Na encruzilhada, dois homens bloquearam o casal
e só não lhe interromperam a passagem porque uma voz forte se ergueu do
fundo estratégico da escuridão, alertando-os:
- Esse aí, não!... Esse
aí é meu amigo!
O dono daquela ordem apresentou-se à claridade, se
intrometendo entre os corpos do casal, dividindo-o com abraços laterais e,
conduzindo-o a um lugar mais movimentado, confraternizou, em repreensão
suave:
- Poxa vida! Você passando por ali, a essa hora? E com a
madame! Que perigo! Você só sairia daqui todo depenado.
Era o sumido
e já esquecido e elegante “ex”-faxineiro...
(Para o amigo Alcyone
Raphael, o então bondoso Chefe de Divisão desta narrativa, hoje
aposentado e muito querido
na comunidade pelos seus exemplos de dedicação à CAIXA ECONÔMICA e aos colegas.
É o Papai Noel oficial da UNEI,
associação de aposentados – RJ)
(Rio Total, 6 de outubro/2012)
CooJornal nº
810.
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miltonxili@hotmail.com
Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email:
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Milton Ximenes Lima
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