16/07/2026
Ano 29
Número 1.515




ARQUIVO
MILTON XIMENES








Milton Ximenes Lima


DIA DA CAÇA, NOITE DO CAÇADOR

Milton Ximenes Lima - Colunista, CooJornal

Sexta-feira. Voltavam da casa do filho, onde curtiram o primeiro neto. Deixou a mulher no carro e, na semi-escuridão, escarafunchava o cadeado do grande portão da sua residência, entrada de veículos.

Os dois homens, um branco e outro mulato, roupas bem apresentáveis, se aproximaram então. Nervosos, mas enérgicos:

- Entrem no carro e vão pro banco de trás! E quietinhos, tamos com os berros aqui na cintura!

A mulher começou a choramingar, o marido tentando acalmá-la. Advertiu o assaltante que se sentara no banco do carona:

- Êêê tia, nada de berreiro! Não tamos a fim de furar ninguém... Não vai sujar nossa barra! Só queremos o carro emprestado para um ganho e só essa noite... E você, tio, boca fechada, nada de chamar os tiras! Amanhã nós vamos telefonar para avisar onde vamos deixar a sua viatura...

- E os documentos? – lembrou o avô.

- Faz de conta que tão emprestados até amanhã...

Abandonaram-nos perto de um posto de gasolina, em outro bairro, perguntaram se tinham grana para o táxi.

Quando o pai telefonou para o filho, não se entenderam:

- Vá à delegacia, sim, pai! A polícia tem um aparelho que registra o local de onde eles vão telefonar... E o seguro? Já acionou o seguro?

- Filho, não quero confusão com essa gente, é gente muito vingativa, prefiro acreditar neles, aguardar um pouco... Eles sabem agora até onde eu moro!

- Está bem, pai, está bem... Faça o que achar melhor, mas se precisar, estou por aqui.
-
- Na tarde do dia seguinte os assaltantes abandonaram o automóvel, avisaram a sua localização, como combinado. Na garagem, minuciosa busca os deixou surpresos: nada, do toca-fitas ao estepe, fora subtraído. E ainda por cima, no porta-luvas, dois ingressos para um espetáculo teatral naquela noite.

Esquisito isto... mas eles tinham cumprido o prometido! Nada mal aproveitá-los! Há muito não faziam este tipo de programa. Esticaram depois até uma churrascaria e, já madrugada, muito alegres voltaram para casa, aquele vinho, realmente, era muito bom! O marido nem precisou encaixar a chave na fechadura, a porta estava simplesmente encostada. Esquecera-a aberta? Bem, esta velhice traz muitas distrações!

Na sala, parou. Angústia, estômago doendo. Sentiu as pernas bambearem, desabou na poltrona, atônito, incrédulo. Desarrumação por todos os lados, muitas coisas abandonadas pelo chão, desesperanças até de procurar os escondidos valores...

- Filhos da puta! – explodiu.

Enquanto a mulher chorava, estendeu a trêmula mão até o telefone, em busca da voz do filho.


(Rio Total, 18 de novembro/2011)
CooJornal nº 762



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Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email:
miltonxili@hotmail.com
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