
Do
mirante privilegiado, centro da cidade, navego meu olhar pelas promessas da
manhã. O róseo alvorecer vai deixando, aos poucos, de agasalhar o dorso das
montanhas. A cidade faz-se à luz, sinais de vida se espreguiçam e dançam no
ar sob pontos vários de fumaças brancas que ascendem dos telhados e são
dissolvidas pelos brandos ventos.
Garças, também brancas, em vários
bandos, vindas do leste, sobem os contornos do rio, passam por cima do
terraço do hotel, avançam à esquerda, bairro Consolação. Menos numerosas,
biguás as imitam, em outras direções. Todos passam, só permanecem os pombos
a peregrinarem entre o rio, as praças e as calçadas, na busca das migalhas
noturnas.
Olho para baixo, meus conterrâneos procuram sobreviver:
alguns têm pressa, outros, já que hoje é sábado, prolongam sua saúde em
passadas sobre o calçadão da Beira-Rio, outros mais se acomodam em ônibus de
excursão, estacionados bem defronte.
Céu sem nuvens, já se sente
calor. Bem devagarinho, contemplo e assimilo os contornos do Itabira, do
Frade e a Freira, debruço-me sobre as curvas do Itapemirim, então barrento e
marulhento, abraçando pedras e ilhas e contornando pilares de novas (para
mim) pontes que lhes sobrecarregam os ombros-leito. Absorvo as casas e
edifícios escalando teimosamente os morros, as poucas árvores que se sufocam
entre eles. Ruas que aparecem e desaparecem.
Aprisiono todas essas
paisagens na retina da minha máquina fotográfica. É ela que, mais tarde e em
contemplações silenciosas, me vai oferecer a certeza de saborear pedaços de
papel colorido com imagens queridas de saudade e nostalgia.
Mais
importante, para um cachoeirense nômade, é não deixar resvalar para o baú
dos esquecimentos a mágica desses preciosos e sagrados momentos da natureza
que nos embelezaram e embelezam a vida, e, no caso, despertando felizes e
antigos caminhos de nossos pés-meninos.
Cachoeiro, assim, está,
quando quero, em constante renascer. Este, um dos meus segredos, meu refúgio
de filho distante.
"A terra fica na gente" (Atiq Rahinim, escritor
afegão)
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miltonxili@hotmail.com
Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email:
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Milton Ximenes Lima
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