16/06/2026
Ano 29
Número 1.511




ARQUIVO
MILTON XIMENES








Milton Ximenes Lima


Cachoeiro, saudades!

EM MARÇO, DE PASSAGEM

Milton Ximenes Lima - Colunista, CooJornal

Do mirante privilegiado, centro da cidade, navego meu olhar pelas promessas da manhã. O róseo alvorecer vai deixando, aos poucos, de agasalhar o dorso das montanhas. A cidade faz-se à luz, sinais de vida se espreguiçam e dançam no ar sob pontos vários de fumaças brancas que ascendem dos telhados e são dissolvidas pelos brandos ventos.

Garças, também brancas, em vários bandos, vindas do leste, sobem os contornos do rio, passam por cima do terraço do hotel, avançam à esquerda, bairro Consolação. Menos numerosas, biguás as imitam, em outras direções. Todos passam, só permanecem os pombos a peregrinarem entre o rio, as praças e as calçadas, na busca das migalhas noturnas.

Olho para baixo, meus conterrâneos procuram sobreviver: alguns têm pressa, outros, já que hoje é sábado, prolongam sua saúde em passadas sobre o calçadão da Beira-Rio, outros mais se acomodam em ônibus de excursão, estacionados bem defronte.

Céu sem nuvens, já se sente calor. Bem devagarinho, contemplo e assimilo os contornos do Itabira, do Frade e a Freira, debruço-me sobre as curvas do Itapemirim, então barrento e marulhento, abraçando pedras e ilhas e contornando pilares de novas (para mim) pontes que lhes sobrecarregam os ombros-leito. Absorvo as casas e edifícios escalando teimosamente os morros, as poucas árvores que se sufocam entre eles. Ruas que aparecem e desaparecem.

Aprisiono todas essas paisagens na retina da minha máquina fotográfica. É ela que, mais tarde e em contemplações silenciosas, me vai oferecer a certeza de saborear pedaços de papel colorido com imagens queridas de saudade e nostalgia.

Mais importante, para um cachoeirense nômade, é não deixar resvalar para o baú dos esquecimentos a mágica desses preciosos e sagrados momentos da natureza que nos embelezaram e embelezam a vida, e, no caso, despertando felizes e antigos caminhos de nossos pés-meninos.

Cachoeiro, assim, está, quando quero, em constante renascer. Este, um dos meus segredos, meu refúgio de filho distante.

"A terra fica na gente" (Atiq Rahinim, escritor afegão)


Comentários podem ser enviados diretamente ao autor no email miltonxili@hotmail.com




Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email:
miltonxili@hotmail.com
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