Comento o que passa, pode passar, já passou, não passará.
Janela virtual que enquadra o espaço, arredonda passagens,
embarca o tempo, salta estações, retira bagagem: entre as minhas
imagens imorredouras estão as janelas.
Janelas: primeiro, o
esforço que fazia na ponta dos pês para ganhar alguns centímetros e
ter a linha de vista sobre os balcões.
Um ano ou um palmo
depois conseguia divisar as estacas limítrofes do nosso quintal, os
embuás se enrodilhando na terra, e lagartas esverdeadas sanfonando o
corpo no tronco dos mamoeiros.
Com os olhos e pelas janelas fiz
minhas primeiras excursões.
Acompanhava, de longe, a evolução
das borboletas amarelas (como nunca mais vi) sobrevoando os quintais;
tentava decifrar a forma das nuvens até a vista cansar; navegava em
cascas de ingá que desciam nas enxurradas caudalosas junto ao
parapeito.
Pelas janelas entravam o sorriso do sol diariamente
e as broncas das trovoadas de vez em quando.
E tinham estranha
magia: quando o mundo terminava lá fora, fechavam as janelas.
No outro dia abriam as janelas de novo.
E o mundo recomeçava.
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